Kamiwaza: Way of the Thief

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Um clássico esquecido ganha nova vida ao ser reeditado pela primeira vez no Ocidente.

É interessante olhar para a evolução da indústria dos videojogos, mas também das produtoras que lhe dão vida. Ao conhecermos o catálogo de uma produtora, seja mais popular ou apenas mais eclética, é um trabalho importante de análise, mas também de registo histórico, no sentido em que nos permite traçar a metodologia de produção dos estúdios, mas também os seus interesses. Por exemplo, se olharmos para Hideo Kojima e a sua obra, conseguimos traçar todos os passos que levaram à conceção de Death Stranding, tal como conseguimos compreender melhor o trabalho de Goichi Suda se identificarmos os seus gostos narrativos e de design desde Moonlight Syndrome ou The Silver Case.

Curiosamente, vi-me a embarcar neste exercício de análise e reconhecimento histórico com o lançamento do peculiar Kamiwaza: Way of the Thief, desenvolvido pela Acquire e lançado em 2006 para a PlayStation 2. Infelizmente, Kamiwaza teve lançamento exclusivo no Japão, não contando, como alguns dos títulos mais populares da Acquire, com uma estreia no Ocidente – que só acontece agora, 16 anos depois, no PC, PS4/5 e Nintendo Switch. De facto, arrisco-me a dizer que o seu legado, fora da Acquire e do Japão, é praticamente inexistente, longe da atenção dos jogadores ocidentais, que, em 2006, já olhavam para a estreia da sétima geração de consolas e pouco mais. Apesar desta falta de legado, Kamizawa é mais um caso de sucesso no que toca à preservação de videojogos, agora disponível mundialmente, mas é, ainda mais, um exemplo perfeito para a importância da análise do historial e metodologias de uma produtora.

Kamiwaza: Way of the Thief é o elo perdido entre Tenchu: Stealth Assassins e The Way of the Samurai, ambos lançados no Ocidente. Descobrir as suas ligações a duas séries, já por si, bastante peculiares e nostálgicas, foi um absoluto prazer. Em Kamiwaza, seguimos a história de Ebizo, um nobre, mas inexperiente ladrão que procura roubar aos ricos para devolver aos pobres. Com uma honra inquebrável, ainda que muito ingénua, Ebizo abandona o seu grupo de ladrões para cuidar de Suzuna, a sua filha adotiva, que salva durante uma missão desastrosa. Dez anos depois, Ebizo é obrigado a retomar a sua vida de ladrão quando Suzuna adoece. Sem dinheiro para cuidar da filha e sem grandes alternativas, Ebizo é atirado de volta para o submundo do crime, desta vez na região de Mikado, onde a campanha decorre.

Mikado não é meramente o palco para um dos vários níveis de Kamiwaza, mas sim o seu coração. É na desconstrução desta região – que é composta por aldeias, mansões, portos e outras zonas de destaque – onde começamos a encontrar o ADN da Acquire e das séries que a popularizaram. Kamiwaza é uma experiência próxima de um mundo aberto, no sentido em que podemos explorar livremente a cidade e viajar entre as suas zonas enquanto completamos missões, evitamos guardas e conhecemos novas personagens. Todas as zonas estão repletas de perigos, que variam entre as várias horas do dia – com o jogo a apresentar um ciclo de dia e noite que molda por completo as rotinas das personagens, mas também a duração de tempo que temos para terminar as missões -, mas também de oportunidades de furto, sendo necessário conhecer os seus atalhos e caminhos alternativos para conseguirmos navegar as ruas das aldeias sem levantarmos suspeitas.

A casa de banhos e a casa de Ebizo funcionam como os dois epicentros de Kamiwaza. O primeiro é o local onde temos acesso a missões, a novos itens, equipamentos, mas também a um leque de habilidades que desbloqueamos através de pontos de estilo, que são conquistados através da qualidade e destreza dos nossos roubos. A estrutura de Kamiwaza resume-se a aceitarmos uma missão e a explorarmos livremente os locais enquanto roubamos os nossos alvos, com a ação a decorrer em tempo real e sem níveis únicos, independentes à região de Mikado. Esta aposta em cenários abertos e quase sempre acessíveis dão a Kamiwaza uma maior sensação de aventura, com todas as nossas ações a apresentarem repercussões e vantagens imediatas. Por exemplo, podemos ser apanhados a roubar várias vezes ao longo de um dia e ver a nossa notoriedade a aumentar exponencialmente, ao ponto de sermos reconhecidos na rua por qualquer NPC – cujo medidor é identificado por cartazes de “procura-se”, que mostram a progressão do nosso desenho, isto é, quanto mais vezes somos vistos, mais o nosso desenho é realista -, mas também acabamos por limitar o número de objetos que podemos roubar num só dia. Existe ainda a opção de devolvermos o material roubado aos mais necessitados, influenciado diretamente a perceção do povo sobre Ebizo e as suas atividades furtivas.

A casa de Ebizo surge como um local de repouso, mas também como um dos grandes objetivos da campanha: curar Suzuna. Em casa, Ebizo pode mudar o seu equipamento, onde se inclui o seu saco e o seu disfarce – que podemos alterar de cor e formato -, mas também descansar e fazer avançar o tempo. Suzuna é o centro da nossa demanda, é por ela que Ebizo aceita as missões e para que a jovem possa recuperar, precisamos de juntar dinheiro e comprar remédios todos os dias. É aqui que surge outra mecânica interessante em Kamiwaza: a causalidade das nossas ações. Com vários finais disponíveis, podemos determinar como o nosso ladrão vai chegar ao final da sua aventura. Podemos, por exemplo, ser presos e simplesmente terminar a campanha, como temos a possibilidade de curar Suzuna e reter a nossa honra. Como já havia mencionado, isto reflete-se na perceção dos habitantes de Mikado e da própria guarda, mas também de outros NPC mais importantes, como Boss, a dona da casa de banhos, a quem temos de pagar diariamente uma coima.

Se jogaram The Way of the Samurai, de certeza que estão a reconhecer alguns destes elementos mais em aberto de Kamiwaza, não só pelos finais alternativos, mas também pela possibilidade de terminarmos uma campanha por um simples erro cometido. Claro que a nova edição é muito mais acessível devido à presença de “auto-save”, mas a tensão está lá e Kamiwaza obriga-nos a pensar muito bem na forma como jogamos e exploramos Mikado. Infelizmente, é aqui que surgem alguns problemas, que nada fazem para esconder a idade deste título da Acquire: a jogabilidade. Como um jogo de ação furtiva, Kamiwaza é muito mais arcade do que esperava, talvez devido à sua natureza emergente, mas cujo peso das suas mecânicas acaba por ser prejudicado por esta abordagem mais leve. Kamiwaza importa-se mais com o estilo do que com a profundidade das suas mecânicas, determinando que o valor do que roubamos é muito maior se o fizermos com algum charme. Aliás, a jogabilidade apresenta um sistema de combo que aumenta efetivamente a nossa pontuação entre assaltos, o que significa, a bem e a mal, que Kamiwaza procura que sejamos mais destemidos e assertivos do que propriamente furtivos – o que cria alguma dissonância no design dos cenários e nas próprias mecânicas.

Kamiwaza não é, de facto, Tenchu: Stealth Assassins, mas aproveita muitas das suas mecânicas. Temos, por exemplo, um medidor de distância dos nossos inimigos, que nos ajuda a determinar se um local é ou não seguro antes de entrarmos. Também temos acesso a vários itens e ferramentas, que servem para distrair ou atordoar os nossos adversários. Como Kamiwaza não tem um sistema de combate propriamente dito, Ebizo só é capaz de atordoar e os ataques são físicos e nunca letais, ao contrário do que encontramos na série Tenchu. Existe ainda a possibilidade de nos deslocarmos lenta e silenciosamente pelos cenários, mas também de esquivarmos com um desvio rápido, se for necessário. Infelizmente, Kamiwaza, à semelhança de Tenchu, já não consegue esconder a sua idade e os controlos são muito rígidos para a experiência que procura proporcionar. Os comandos são responsivos, mas a movimentação, salto e desvio de Ebizo não são tão fluídos como seria de esperar num relançamento, o que faz com que certas técnicas, como o disfarce e a deslocação furtiva, não sejam tão eficazes como queríamos.

De facto, Kamiwaza: Way of the Thief é um jogo peculiar em 2022. A sua jogabilidade não é a mais envolvente, mas a sua estrutura é muito mais atual e cativante do que esperava. Há muito para descobrir no seu ritmo de furtos, missões, trechos de história e exploração, existindo ainda espaço para a experimentação e uma maior liberdade de personalização da experiência. Mas Kamiwaza funciona ainda melhor, pelo menos em 2022, como uma janela para a Acquire, que mais recentemente colaborou com a Square-Enix em Octopath Traveler e na sua sequela, demonstrando como a produtora estava a tentar conciliar dois tipos de jogos distintos e a evolui-los num só. Kamiwaza é uma experiência interessante que podia ter ficado perdida no tempo se não fosse pela preservação de videojogos e apesar de ter os meus problemas com a jogabilidade, nada se comparam à satisfação de finalmente o jogar.

Cópia para análise (PlayStation 5) cedida pela NIS America.

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