Fora o seu estilo visual e o facto de ser a adaptação de uma banda desenhada com o mesmo nome, I Hate This Place traz muito pouco ao género de sobrevivência.
A idade não perdoa. O tempo não pára. Os ponteiros do relógio movem-se sem que os possamos influenciar, a não ser que a pilha falhe. Dizem que a sabedoria e o conhecimento nascem da passagem do tempo, e se esta sabedoria tradicional é real, então já acumulei anos suficientes para me sentir como um ancião entre os mais jovens. Em 2026, vou completar 14 anos desde que comecei a escrever sobre videojogos. Não consigo quantificar o número de críticas que já escrevi, mas o número será certamente assustador e capaz de me acrescentar cabelos brancos à coleção. Talvez seja o cinismo da idade, a repetição da escrita, o acumular de cabelos brancos que me leva a iniciar 2026 com um pensamento mais fatalista: “o que ainda há para descobrir na indústria de videojogos?”
Existem padrões, modas e escolhas de design que já não consigo perdoar ou ignorar. A crescente popularidade dos roguelikes e metroidvanias na produções independentes, a busca incessante pelo modelo live service – até quando falha redondamente, como no caso da PlayStation e da Ubisoft –, a incapacidade em criar empregos estáveis e protegidos por sindicatos, a gestão predatória dos estúdios AAA, e a mentalidade putrefacta e cada vez mais banalizada de uma comunidade que se julga mais imponente e perentória do que é (ou deveria ser) são apenas alguns dos sintomas que afetam a indústria. Este é um buraco negro onde os custos de produção e os excessos de informação e conteúdos colocam em perigo a criatividade, até dentro do modelo independente. As ideias ainda estão vivas, a criatividade ainda se sente, mas a estandardização é progressivamente mais apreciada por uma indústria sem recursos e por uma comunidade de jogadores que procura segurança e não o risco.
Não descarto a possibilidade desta avaliação ser fruto de cinismo, da minha visão cansada e derrotista, mas não posso ignorar quando se tratam de padrões tão preponderantes como aqueles que identifiquei. Mas há uma solução. O segredo está nos verdadeiros indies, nos criativos perdidos no Itch.io e Steam, que vivem através de posts nas redes sociais, a gritarem para o éter da sociedade consumista e dos excessos, à procura de uma mão que os salve da obscuridade. Uma comunidade que é incapaz de sair do seu nicho devido ao modelo atual da indústria, onde apenas 1% (se tanto) alcançam qualquer semblante de sucesso. Até assistirmos a uma mudança de paradigma, a uma nova era independente e ao surgimento de uma geração que cresceu sem as influências e manhas que alimentaram a geração atual, o problema repete-se. É como um Império que rejeita a previsão da queda porque se julga invencível – mas a queda aproxima-se mais e mais, sem parar, como um relógio com pernas. Ou então, eu apenas não gostei de I Hate This Place.

Situação do costume: o déjà vu bate à porta. Assim que pego no comando e começo a jogar, a minha mente conclui que “eu já joguei isto”. Esta sensação é comum, quase todos os videojogos seguem uma fórmula ou género, com as suas regras e mecânicas pré-definidas, mas há que saber trabalhar a forma para criar algo único. Eu já joguei I Hate This Place, várias vezes até, existem textos que o comprovam, e se noutro ano eu deixaria isso passar, 2026 não é ano para brincadeiras. Não pode ser! I Hate This Place levou-me numa viagem até 2017 e até à memória quase apagada de How to Survive 2. O jogo da EKo Software comprometeu-se quase à mesma experiência que a Rock Square Thunder agora recupera, nove anos depois, e trouxe-nos um jogo de sobrevivência com uma perspetiva isométrica, assente na construção de recursos e na gestão de inventário, onde temos de navegar um mundo povoado por criaturas monstruosas e zombies enquanto vasculhamos caixotes, baús, casas, rulotes em busca de mantimentos para garantirmos a subsistência da nossa personagem. I Hate This Place livra-se da cooperação, descarta os zombies e injeta um foco narrativo que não está presente em How to Survive 2, mas a jogabilidade de ambos separa-se por alguns (poucos) sistemas e mecânicas, ainda que a falta de polimento e mau desempenho pareçam ter saído de 2017 e não de 2026.
A estilização visual de I Hate This Place é fruto das suas origens como adaptação da banda desenhada criada por Kyle Starks e Artyom Topilin e nem tanto uma escolha criativa. É o mínimo que a Rock Square Thunder podia ter escolhido nesta situação e é o que temos. Até a vertente visual é repetida e copiada e imitada como se fosse o suficiente para convencer-nos das suas qualidades. A utilização de imagética associada à década de 1980 é também uma repetição de uma moda que começa a morrer e a definhar na cultura popular – algo que o final de Stranger Things veio comprovar -, e não há narrativa, personagens e direção que salve o que parece ser feito apenas porque “tem de ser”. I Hate This Place não é tão memorável como poderia ser, mesmo como adaptação, e as personagens não se conseguem destacar em cenários vazios, com level design pobre – os cenários interiores repetem-se, muito centrados em corredores e salas cinzentas – e um desempenho que condiciona o combate e exploração.
As comparações a How To Survive 2 não são meramente estéticas. Na verdade, foi a jogabilidade que me fez desbloquear a memória de um videojogo que está mais do que esquecido no grande esquema do género de sobrevivência. Elena pode ser uma protagonista mais tridimensional, com uma personalidade e arco narrativo definidos, que se expressam através de diálogos competentes e escolhas narrativas, mas o seu leque de ações parece ter saído de uma fábrica de Game Design. “Em equipa vencedora não se mexe”, já dizem os mais velhos, mas essa sabedoria tradicional funcionaria melhor se I Hate This Place fosse divertido ou equilibrado. Infelizmente não é o caso, e a jogabilidade torna-se progressivamente mais entediante e pouco criativa. Mesmo com a possibilidade de criarmos novas armas e equipamentos, decorarmos e evoluirmos a nossa quinta, e defrontarmos diferentes inimigos, a experiência nunca evolui além de “vai até sítio X, evita inimigos em Y e regressa a Z”. A Rock Square Thunder tentou injetar alguma urgência narrativa através de missões secundárias e novas personagens que encontramos ao longo da campanha, mas a jogabilidade não melhora e os seus problemas tornam-se ainda mais difíceis de ignorar.

O que me chateia é que a fórmula é sólida. Em vários momentos, I Hate This Place parece que vai encontrar a sua alma, mas há sempre um entrave que limita o seu sucesso. Os mapas são repetitivos, os recursos parecem ser quase infinitos – o que relega o desenvolvimento da nossa quinta à busca por planos e não a uma luta constante pela gestão de inventário –, as mecânicas de sobrevivência não são propriamente desafiantes porque encontramos constantemente alimentos, o sistema de combate é pouco satisfatório devido à mira das armas, aos elevados pontos de vida dos inimigos e à IA que se move apenas por agressividade. Mesmo com a descoberta de missões secundárias, como as histórias de fantasmas, o jogo raramente introduz novos elementos capazes de quebrar a monotonia da exploração e do combate.
O desempenho também é um problema constante, mas as quedas de frames e tempos de loading seriam mais fáceis de ignorar se I Hate This Place não estivesse cheio de bugs e falta de polimento. Os inimigos conseguem alcançar-nos através de portas, é muito fácil ficarmos presos entre ataques porque os frames de invencibilidade são inexistentes, a opção furtiva nem sempre é uma mais valia porque a deteção de sons – através de vidros no chão, por exemplo – nem sempre funciona e os checkpoints são absolutamente irritantes devido à sua escassez. I Hate This Place é um jogo de sobrevivência e não esperava que fosse fácil ou pouco exigente no que toca aos seus sistemas, mas perder devido a um bug e recuarmos 30 minutos é difícil de justificar.
Se o loop entre combate, furtividade e recolha não funciona e se I Hate This Place pouco faz com a sua jogabilidade, que é constantemente condicionada pelo desempenho e falta de polimento, é difícil não pensar “o que estou aqui a fazer”. Pior: o que quer este jogo ser? Mais um jogo de sobrevivência, mas com elementos narrativos? Um RPG de ação sem RPG e com má ação? O que devo retirar de I Hate This Place, a não ser que já o joguei antes e que pouco evolui no género? Parece existir um medo em arriscar e ir além do esperado, e é isso que me começa a irritar. Este não é mais um caso onde o crítico é injusto porque está a analisar o que não está presente no jogo. Não. O que eu estou a criticar é exatamente o que está lá. É isso que me chateia. Não é uma questão de termos mecânicas repetidas é a forma como elas são utilizadas quase como um “copia e cola”. Se títulos como Judero existem, que se movem com mecânicas de ação e aventura que vimos tantas vezes noutros jogos, mas com um estilo narrativo e visual que surpreendem devido à sua criatividade, então onde cai I Hate This Place? Cai no esquecimento. Longe do coração, além-mar, até nunca. Bom 2026 para todos.
Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela Pirate PR.
