Grid Legends chega à Nintendo Switch 2 na sua melhor forma, com uma conversão fantástica que se joga extremamente bem e visualmente impressionante no seu modo portátil.
Tenho para mim que Race Driver: GRID, lançado em 2009, se tornou, na altura, um dos jogos mais influentes do género de corridas desde então. Enquanto sucessor espiritual da série TOCA Race Driver, GRID fez o mesmo que DIRT para a série Colin McRae Rally, sacrificando alguns dos elementos mais técnicos e de simulação em troca de uma abordagem mais arcade e acessível, mas mantendo o desafio e as altas emoções, com um tom mais cinemático e dramático. Essa transformação trouxe elementos e mecânicas que foram posteriormente replicados (de formas mais e menos descaradas) noutras séries – entre elas Need for Speed, Forza Motorsport e Forza Horizon – e que me fizeram colar ao seu jogo de estreia durante centenas e centenas de horas.
Com outros jogos a fazerem o que Race Driver: GRID fez de formas mais aliciantes, as suas sequelas – que incluíram um soft reboot em 2019 – nunca me conquistaram com a mesma atenção, mas Grid Legends, que chegou agora à Nintendo Switch 2 com uma nova conversão, pode ser um novo ponto de viragem para uma série que provavelmente não irá continuar – atendendo à atual estrutura de estúdios da Codemasters e da Electronic Arts.
Mas, deixando o futuro de parte, esta nova versão de Grid Legends – como muitas outras conversões de jogos para a nova consola da Nintendo – não só chega para enriquecer o seu catálogo, como para oferecer a oportunidade aos jogadores da Nintendo de experimentarem jogos já lançados, agora otimizados para a mais recente plataforma. E, para mim, foi a justificação perfeita para experimentar um jogo que foi lançado originalmente em 2022 e que me passou completamente ao lado.

Desenvolvido pela Codemasters, Grid Legends é um pouco o culminar de ideias e conceitos da produtora britânica, que dominou quase todos os géneros, desde o rali à Fórmula 1, passando pelo calor do asfalto em múltiplas modalidades competitivas. São vários os aspetos que denunciam essa amálgama em Grid Legends, como os elementos de role play e de gestão de equipas e, o mais claro de todos, a sua campanha principal.
Grid Legends é muito frontal com o que quer oferecer. À semelhança da campanha Breaking Point da série de jogos de Fórmula 1, não quer que o jogador seja um mero piloto, ou o melhor piloto, mas sim o protagonista de uma história cinemática com dramas e emoções, dentro e fora da pista. Ainda que esta campanha não seja mecanicamente tão profunda como Breaking Point – que tem toda uma vertente de bastidores rica e deliciosa para os fãs da modalidade -, Grid Legends é mais relaxado e muito mais passivo.
Inspirado em jogos de outras eras, temos FMVs em live-action, com atores reais a interpretarem pilotos e elementos das várias equipas fictícias, partilhando as suas histórias, conquistas, falhas e rivalidades, que servem de ponte de evento para evento. Estes primam por uma qualidade aceitável, sem grandes valores de produção e com uma escrita entre o muito teatral e o cartonesco, por vezes com mais humor acidental do que drama, mas o suficiente para nos investir nos objetivos propostos, que nesta campanha principal não são apenas “dar X voltas”, nem nos mantem no mesmo carro e modalidade durante muito tempo. Ao longo da campanha, avançamos para diferentes localizações, com propostas variadas, que incluem modalidades de carros diferentes e objetivos distintos, por vezes atirando-nos para o meio ou para a reta final de uma corrida já em curso, desafiando-nos a resolver o resultado. É um modelo bem interessante, que é replicado não só na carreira principal, composta por mais de 30 eventos, como em mais meia dúzia de carreiras do género para explorar.
Apesar desta apresentação inicial e registo diferentes na série, há coisas que não mudam, e ainda bem. E refiro-me ao lado mais tradicional do jogo, com modos contra-relógio e campeonatos à antiga, ao longo das várias disciplinas que incluem controlo de jipes, provas de drift, endurances em GT, corridas com carros modificados, open wheels, elétricos e muito mais. Em qualquer destas disciplinas, tudo o que tornou Race Driver: GRID especial mantém-se e envelheceu extremamente bem, a começar pela diversão e pelo desafio que nos motivam a fazer prova atrás de prova.

O controlo dos carros é fantástico e bem distinto, o que oferece uma grande variedade ao jogo. O sistema de física e a sensação de velocidade tornam cada veículo numa autêntica besta, algo particularmente mais sentido com carros de alta cilindrada ou com centros de gravidade mais elevados, mas raramente se sentem incontroláveis. Este sentimento de agressividade é acentuado pelo trabalho de câmara em cada uma das perspetivas, com imenso movimento e inércia contextual às guinadas e forças G, assim como pelo espetáculo visual do ambiente em cada localização, extremamente rico em detalhes, com plateias animadas, espetáculos de luzes e outros truques visuais dinâmicos.
A suportar tudo isto temos, o ritmo das corridas com uma inteligência artificial bem competitiva, a música dinâmica e orquestral com um registo cinemático e emocionante, assim como uma direção artística muito sólida, que opta por um aspeto hiper-realista e com identidade – em vez do fotorealismo que jogos do género tendem a abraçar.
A conversão para a Nintendo Switch 2, a cargo da Feral Interactive, faz um excelente trabalho em adaptar tudo isto quase sem compromissos, numa versão que, mais uma vez, impressiona. Começando pelo lado mais fraco da experiência visual, temos o modo na base da consola, ligada à TV, com opções onde somos confrontados com escolhas mais severas entre desempenho e qualidade. No modo Qualidade, o jogo apresenta-se a 30 FPS, com uma resolução decente, mas longe dos 4K nativos que a consola é capaz de produzir. É a melhor apresentação visual do jogo, sacrificando, no entanto, a fluidez, o que afeta também a sensação de controlo dos carros.
Há ainda um modo Equilibrado, que não consegui ativar na minha TV, e um modo Desempenho que desbloqueia os 60 FPS. Neste último, o jogo “voa”, é fluido e o controlo é fantástico. Contudo, a resolução tende a ser um pouco baixa demais para aquilo que considero uma boa qualidade de imagem, com uma apresentação algo desfocada e com as texturas a sofrerem também um corte significativo. Ainda assim, é o modo que recomendaria.

Onde o jogo brilha visualmente é no modo portátil, também com os três modos disponíveis. No modo Qualidade, o jogo corre novamente a 30 FPS e, no ecrã da consola, a imagem é extremamente definida, acentuando o detalhe de tudo o que é apresentado. Comparado com o modo ligado à TV, parece mesmo um salto geracional. No entanto, estamos limitados pela fluidez, que volta a afetar a condução.
O modo Equilibrado oferece um meio-termo entre Qualidade e Desempenho, com a melhor qualidade de imagem possível e fluidez desbloqueada. Esta nem sempre se fixa nos 60 FPS, mas preserva um aspeto fantástico. Já o modo Desempenho atinge os 60 FPS com sucesso e a qualidade de imagem não é tão degradada como esperava, oferecendo uma apresentação muito sólida e satisfatória, onde a resolução ligeiramente mais baixa não será notória para a maioria dos jogadores. É, sem dúvida, a melhor forma de jogar Grid Legends. Adicionalmente, o jogo conta com opções extra nas definições para ativar ou remover efeitos visuais, como desfoque ou condições atmosféricas mais agressivas que podem não ser do agrado de todos. Opções como estas são ótimas e bem-vindas.
No que toca a conteúdos, Grid Legends para a Nintendo Switch 2 é a versão definitiva do jogo, com todos os conteúdos adicionais lançados após o lançamento original, surgindo apenas na sua edição Deluxe, o que facilita o acesso completo ao jogo, que chega à Nintendo eShop por 24,99€. Uma pechincha.
Grid Legends para a Nintendo Switch 2 é simplesmente fantástico. Uma versão muito otimizada daquele que é, provavelmente, o melhor jogo da série desde o original, ou pelo menos o que mais captou a minha atenção e recuperou toda a nostalgia que tenho por Race Driver: GRID. Um jogo que preserva a sua identidade, com uma quantidade de novidades e twists interessantes e refrescantes. A minha maior pena é saber que esta revitalização, mais bem conseguida do que a do jogo anterior, se fique por aqui. Pelo menos até a Electronic Arts decidir dar à Codemasters liberdade para brincar para lá da Fórmula 1.

Cópia para análise (versão Nintendo Switch 2) cedida pela Feral Interactive.
