Green Book: Um Guia Para a Vida – Buddy movie com mensagem

por Bruno Rocha Ferreira

Aproveitemos então este sol cinematográfico em pleno inverno nacional, em que os cartazes estão cheios de caras de atores com ar sério em roupa de época ou fotografia a preto e branco, ao invés das omnipresentes explosões e cinzas pelos ares.

Green Book: Um Guia Para a Vida está confortável neste cenário, e a mão cheia de nomeações para Óscares de 1ª linha (filme, ator, ator secundário, argumento original e edição), demonstram-no bem.

Aqui acompanhamos a relação entre Tony Lip, um afamado segurança do mítico Copacabana, que se vê sem ocupação durante alguns meses enquanto o clube noturno está em obras, e o Dr. Don Shirley, afamado pianista negro que se prepara para uma tournée de oito semanas que o levará ao Sul do EUA, onde em 1962 ainda prevalecem as leis de segregação de Jim Crow.

À procura de ganha-pão para a sua numerosa família, Tony acaba por responder a um anúncio para ser motorista do culto e sofisticado Don. Segue-se um conjunto de paragens com várias peripécias nos locais dos concertos, em que a presença do racismo e a aplicação prática da segregação às coisas mais triviais do dia-a-dia, como fazer compras numa loja, ou ir a um quarto de banho, é uma constante.

Green Book crítica

A relação entre os dois personagens funciona como a trave-mestra para todo o filme, e a química entre Viggo Mortensen e Mahershala Ali funciona a grande nível. Mortensen mantém a sua capacidade de ameaça física, a lembrar, por vezes, o seu papel no seminal Promessas Perigosas (cena numa sauna incluída), mas agora num mais relaxado contexto nova-iorquino, incluindo um apetite sem fim e uma linguagem de bairro, enquanto Ali balança o lado mais histriónico da sua contraparte, destilando autoridade e elegância estóica perante a adversidade constante.

Estes ótimos atores são a grande mais-valia do filme, mas Peter Farrelly mostra-se ágil na câmara (a cena inicial em que percebemos a personalidade de Tony Lip é exemplar), e o seu timing de humor garante diversos momentos em que o diálogo e a linguagem corporal dos protagonistas providenciam leveza num cenário à partida difícil, a constante descriminação que Don sofre. A humanidade na reação a estes momentos, e a subtileza de Mortensen e Ali na demonstração de sentimentos como orgulho e arrependimento perante o outro, garante uma boa dinâmica no crescimento desta amizade, tornando-a num gosto para observar, e garantindo que a aposta está ganha.

É quando se sai desta dinâmica e se entra nos supostos climaxes dramáticos ou em momentos de contextualização histórica – como nas referências ao clã Kennedy (curiosamente viria a ser o texano Lyndon Johnson a assinar a Lei dos Direitos Civis em 1964) que o filme sofre mais, tornando-se, por vezes, lento e moralista, em vez de moral. É bastante improvável que este tenha sido um dos oito melhores filmes que tenham sido projetados num cinema do condado de Los Angeles durante o ano de 2018, mas não é isso que irá prejudicar o tempo bem passado que Green Book: Um Guia Para a Vida providencia aos espectadores.

Bom para revisitar o tema clássico da amizade entre opostos, retratado no ambiente de uma questão central da história recente e atual.

Nota: 

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