Análise – Going Under

Aceitem o desafio e juntem-se ao estágio mais estranho dos videojogos.

Going Under

Era apenas uma questão de tempo até termos um videojogo que desconstruísse o mundo dos estágios e das startups. Em Going Under, o novo roguelike da Aggro Crab, seguimos a viagem de Jackie através do seu novo estágio não-renumerado na empresa Fizzle, onde foi contratada para uma posição na equipa de marketing. Infelizmente para ela, nem tudo é o que parece. Ao contrário do que esperava, Jackie não vai passar os seus dias agarrada à secretária ou ao computador, mas sim em masmorras repletas de goblins – ou joblins – que tentam destruir a empresa por dentro. É uma alegoria interessante ao mercado de trabalho e à geração digital, com diálogos representados por chats, e um roguelike divertido, repleto de cor, que se destaca pela estória e a sua jogabilidade acessível.

Como seria de esperar, Going Under foca-se na repetição e no recomeço constante, mantendo-se fiel às suas origens. No entanto, a Aggro Crab tentou quebrar a monotonia ao oferecer seis masmorras, cada uma com três níveis e um boss final, onde o design nunca é o mesmo. A segunda aposta é a estória e a forma como a narrativa se desenrola entre tentativas, com o jogo a mostrar-nos o funcionamento de uma empresa mal organizada na era do digital. O humor está sempre em destaque e há, de facto, um ambiente descontraído e até jovial na campanha, mas é fácil olhar para a experiência de Jackie e ver como é semelhante à realidade, especialmente em ambiente de estágio, onde a jovem terá de fazer de tudo para assegurar a sua posição enquanto luta contra criaturas nos calabouços da empresa. Apesar do humor, existem momentos de puro terror quando pensamos no quanto são reais.

A nível de estrutura, as surpresas são poucas, mas Going Under nunca deixa de ser divertido. Ao manter a aposta na dificuldade e na repetição, os níveis ganham pelo seu foco na cor e num design cartoonesco, onde cada divisão e os inimigos jorram personalidade numa combinações de tons fortes e modelos cómicos. A aleatoriedade do design tenta injetar alguma novidade aos níveis, mas é na combinação entre as várias mecânicas que Going Under se destaca, como a possibilidade de utilizarmos um leque extenso de objetos como armas. Como os níveis seguem uma decoração próxima de um escritório infernal, Jackie tem a possibilidade de agarrar em agrafadores, cadeiras, tablets, lápis e outras armas mais tradicionais – como lanças e espadas – para eliminar os joblins que a tentam atacar. As armas têm um ataque mais poderoso, pesos diferentes (alguns objetos são tão grandes que condicionam os movimentos da jovem) e são destrutíveis, o que nos incentiva a mudar e a procurar novas opções.

Going Under é dos poucos videojogos onde sinto que a destruição das armas funciona a seu favor. Os cenários estão repletos de opções e é fácil trocar de armamento seja em combate ou entre salas, o que nos motiva a assumir novas estratégias. Também podemos atirar objetos contra os inimigos e manter a distância: tudo está em equilíbrio. A jogabilidade, em si, é muito simples, mas Jackie é fácil de controlar, apresentando ainda botões de desvio, de mira e de defesa. Tudo muito básico, mas igualmente funcional. Como os níveis são tão curtos, as mecânicas não se tornam cansativas ou repetitivas, algo que é exponenciado pela presença constante de novas habilidades – que funcionam só durante a partida – e de lojas onde podemos adquirir armas e itens específicos.

Como roguelike, Going Under não é dos títulos mais implacáveis que joguei – antes pelo contrário. Entre partidas, podemos adquirir novas habilidades e desbloquear a possibilidade de as utilizar desde o início de cada tentativa, o que nos ajuda durante os primeiros níveis. Para além desta aquisição permanente, o jogo apresenta um sistema de mentores que nos ajuda a ter bónus práticos – como a possibilidade de termos descontos nas lojas ou lançar granadas adicionais, entre outros – à medida que concluímos desafios adicionais e melhoramos a nossa relação com os colegas de trabalho. Os mentores são um excelente incentivo para voltarmos a níveis anteriores e completarmos novas missões, expandindo assim a longevidade da campanha sem se tornar artificial – no sentido em que poderão jogar sem mentores até ao final da estória, se assim o quiserem.

As masmorras são temáticas, desde calabouços mais clássicos a salas de encontros românticos e a minas de bitcoins, e temos à disposição regularmente novas armas e inimigos que mudam o ritmo dos combates. A apresentação regular de novos elementos é uma boa escolha da Aggro Crab e é uma aposta forte que nos mantém presos à estrutura repetitiva, mas igualmente viciante deste roguelike. A adaptação do mundo profissional, das startups e das gigantes tecnológicas encaixa que nem uma luva e dá a Going Under uma personalidade muito marcada e atraente, conseguindo traduzir elementos do quotidiano para a jogabilidade sob a forma de itens ou de melhorias temporárias. Existe uma consistência deliciosa em Going Under que se mantém forte a nível visual, mas que não consegue surpreender na sua banda sonora.

Se são fãs do género e procuram uma aposta diferente, ainda que muito mais acessível que o normal, então Going Under é o que estão à procura.

Nota: Bom

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch
Este jogo (versão PlayStation 4) foi cedido para análise pela Team 17.

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