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For The Glory / Hills Have Eyes / Don’t Disturb My Circles – Uma noite de glorificação e de despedida ao hardcore

“Só uma noite de peso”, no seu nome em inglês, foi o pretexto encontrado para juntar, num concerto de sangue (maioritariamente) hardcore, três bandas que representam a influência do estilo de maneira bem diferente. A noite seria de celebração mas, infelizmente, também de despedida, uma vez que os For The Glory tinham anunciado dias antes que chegara a hora de pendurar as botas – ou, diga-se antes, de pendurar as luvas. E se a união e o respeito já são conhecidos valores-estandarte deste movimento, ainda mais o foram perante um público que quis prestar o seu adeus e esgotou o Musicbox, em Lisboa.

O início da festa ficou a cargo dos Don’t Disturb My Circles e o seu mathcore orelhudo, oscilado entre momentos de groove e outros mais arrastados, sempre regados por mudanças de tempos e contratempos que dificultam um headbang certeiro – assim como, aparentemente, qualquer iniciativa de two step nas linhas da frente. Não pensem tanto na esquizofrenia dos primórdios de uns The Dillinger Escape Plan, mas mais no caos eficiente dos Botch, com um toque de sujidade dos Gaza, e aquelas partes gingonas dos Every Time I Die ali pelo Hot Damn!, como o dita o equilíbrio entre o frenesim implosivo de “Devoid” e a lentidão fustigadora de “Ruinform”, ambas de Lugubrious Cacophonous. Houve ainda margem para ouvir material novo, a sair brevemente, que revela que, além do barulho no hardcore, a relação (não tão distante) do noise rock também não está esquecida. Estejam atentos que a coisa promete.

Seguir-se-iam os Hills Have Eyes, cedendo o seu lugar de cabeças de cartaz para que os For The Glory pudessem brilhar na sua última noite na capital. A comparação a More Than A Thousand é inegável – até a Before The Torn, banda da qual alguns membros foram integrantes –, tanto pela similaridade (mas não total igualdade) no enquadramento metalcore, como pelo conhecido laço de amizade e trabalho entre as duas bandas setubalenses. Seja ambição calculada ou desejo de alcance de plateias cada vez mais numerosas, a ética de nomes como While She Sleeps ou Bring Me The Horizon saltam à mente: dos primeiros, os vocais limpos que ficam no ouvido, como um “Throw me up (up, up)/Throw me up against the wall” da faixa homónima de Antebellum; dos segundos, aqueles elementos electrónicos audíveis no último single de apresentação “Never Quit”. De Strangers, “Pinpoint” veio demonstrar a simbiose com toda a assistência na entrada explosiva “If you’re playing with fire, you will get burned”, indiciada pelo vocalista Fábio Batista e cantada em uníssono pela casa, mesmo antes de um bass drop e uma cadência ritmada que deixaria os Heaven Shall Burn ou os Caliban orgulhosos.

Ao peso dos já característicos breakdowns não falta também o contraste melódico nos arranjos de guitarra, aqueles laivos à As I Lay Dying, já de si emprestados da escola de death metal sueco, como no começo de “Anyway, It’s Gone”. O som polido que a banda almeja certamente não terá desapontado os fãs, que crescentemente se foram entregando a movimentações cada vez mais eufóricas.

Chegara, por fim, aquela hora pela qual a maioria estaria à espera: a subida de For The Glory ao palco. A nostalgia por antecipação já se sentia no ar, porque todos sabiam que o resultado cada vez mais próximo, que se apressaria no desfecho de cada música, seria o clima de separação. É o gosto agridoce de saber que ao menos existiria uma última oportunidade para responder à banda toda a estima que representara para tanta gente ao longo destes 15 anos no ativo e, ao mesmo tempo, ter os pés assentes no chão e compreender que tudo tem um término, que os putos que só queriam tocar hardcore e fazer digressões já têm outras prioridades mais prementes, profissionais e familiares, e que não há nenhuma vergonha ou falsa modéstia em desistir enquanto é tempo – parte desta mensagem viria a ser confidenciada, por outras palavras mais calorosas e entre largos agradecimentos, pelo carismático vocalista Ricardo “Congas” Dias.

Passando da melancolia para a música, já se sabe o que esperar de um concerto de For The Glory: hardcore direto e sem espinhas, influenciado pelos grandes nomes da costa este americana, como os Madball ou os Sick Of It All, mas com aquele toque mais metálico, tipo Earth Crisis e Strife, não descurando comparações ao que nos veio da cena holandesa, algures entre Born From Pain e No Turning Back. Por exemplo “Bad Choices”, do mais recente Now And Forever, entra logo com um riff que podia ser de Slayer e instala a desordem com vocalizações entremeadas pelo baixista Rui Brás (que fora vocalista de TwentyInchBurial), sem deixar fôlego para outras manifestações que não culminem em crowd surf. Também a curta e grossa “This Is All We Got” ou o primeiro tema de apresentação do mesmo álbum “When The Time Comes” mostram que, tenha esta decisão de acabar sido premeditada ou não pela altura de composição do mesmo, o coletivo está o mais in your face possível.

Ainda se fez a visita a Lisbon Blues, com a sua toada emocional mais acabrunhada exposta no tema título, deixando o público finalizar o refrão “Dance with the devil to the…” com um já sabido gang shout “Lisbon blues”. A noite estava boa mas o inevitável tinha de se consumar: para a despedida estava já reservada “Survival Of The Fittest”, escolha mais do que acertada por toda a carga simbólica que acarreta, da explosão de notoriedade alcançada pelo grupo há mais de dez anos à percepção de tema clássico por quem o acompanhava até então. O hardcore nacional (e não só) pode ter perdido um dos seus maiores emblemas, mas como os próprios reconheceram (numa perspetiva quase lavoiseriana de “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”) “Isto não é um adeus, é um até já…”.

Quem tiver a chance de os apanhar no Moita Metal Fest, no que é, até agora, a última data anunciada pela banda, não pense sequer duas vezes.


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