Filho da Mãe no Teatro Maria Matos: A poesia em notas dedilhadas à guitarra

Nem todos o reconhecerão apenas pelo nome de nascimento, ou terão até acompanhado o seu percurso de raízes hardcore pelos colectivos If Lucy Fell e I Had Plans, mas a verdade é que Rui Carvalho a solo já vai no seu quarto álbum como Filho da Mãe, o projecto em que explora a guitarra clássica por momentos mais acústicos ora outros mais experimentais, e criatividade para o continuar parece não lhe faltar. A noite de 8 de Maio no Teatro Maria Matos serviria precisamente como primeira data oficial de apresentação ao seu novo álbum Água-Má, editado apenas quatro dias antes e, por isso, certamente percepcionado por muitos na absoluta frescura de novidade.

A poucos minutos das 22:00, hora marcada para o início do espectáculo, já era considerável o número de pessoas que aguardavam a entrada na sala e que, embora sem a esgotar, muito solenemente a viriam a compor entre os lugares sentados na plateia e no balcão. Não muito tempo depois, ao som de uma primeira aclamação, o músico sobe ao imenso palco e completa a singela apresentação até então já observável: uma cadeira no centro, um conjunto de pedais de efeitos em diante, duas guitarras clássicas ao lado, um microfone para as captar sobre as cordas e iluminação directa que lhe incidiria.

Se num primeiro instante parecia algo despido e abandonado num espaço tão grande, cedo se percebe que seria toda a simplicidade necessária para que a música nos preenchesse sem demais apetrechos. As notas vão saindo cristalinas, entre sequências melódicas rapidíssimas e acordes mais marcados a pulso, com as ocasionais mudanças de velocidade, e intervaladas por outras mais tímidas e lânguidas. Subitamente o palco já não parece tão grande assim e nem só pelo pontual fechar de olhos: mesmo sem vozes ou palavras que nos guiem, as músicas formam-se em histórias na nossa imaginação, as emoções deixam-se descrever como que em banda sonora.

A acrescer ao seu jeito peculiar de tocar guitarra, de quem tem uma aproximação muito punk rock às estruturas clássicas, há uma certa portugalidade que se deixa ecoar – ora não fosse até este novo disco, praticamente a base desta apresentação, gravado entre Lisboa e a Madeira. Além de toda a sua mestria, é também com a ajuda dos referidos pedais que, ao adicionar repetições e várias camadas ao mesmo tempo, consegue dar mais volume e corpo às composições, como se não estivéssemos a ver e a ouvir o que provem apenas de um elemento.

A intimidade criada entre o guitarrista e o público foi também ficando cada vez mais vincada, tanto pelo crescente à vontade do primeiro em não deixar que a timidez das palavras o impedisse de deixar alguns comentários carregados de saudosa boa disposição, como por parte de todos os presentes que não o queriam deixar ir embora, mesmo depois de dois encores e de serem aconselhados pelo músico a sair enquanto ele ali permaneceria a tocar “a única música que o meu filho gosta”, diria.

Foi de sorriso de orelha a orelha que depois de quase hora e meia de serão todos abandonaram a sala, no que foi uma noite de celebração por este novo disco de Filho da Mãe mas também de sentida despedida do próprio ao Teatro Maria Matos, espaço que muitas vezes o acolhera e que será entretanto concessionado. Num novo ciclo, fica este excelente adeus carregado de boas memórias.

Foto de destaque: Vera Marmelo/Teatro Maria Matos EGEAC


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