O novo Impossible Coffee da Delta nasceu na Colômbia e celebra resistência, terra e futuro

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Em Gaitania, o café tornou-se uma escolha de permanência. O Impossible Coffee cruza sustentabilidade, identidade e retribuição às comunidades produtoras.

O quinto capítulo do Impossible Coffee, da Delta Cafés, chegou à Colômbia com uma história que vai muito além da descoberta de um novo café. No sul do país, nas montanhas em redor de Gaitania, a comunidade indígena Nasa We’sx transformou o cultivo num gesto de permanência, de resistência e de futuro. O projeto, que já passou pelos Açores, por São Tomé e Príncipe, Angola e Tailândia, encontrou ali um território marcado durante décadas pelo conflito, pelo isolamento e pelo êxodo rural, mas onde um grupo de jovens decidiu ficar e fazer do café uma resposta coletiva ao que parecia ser apenas saída e perda.

A história desta comunidade é inseparável da violência que a atravessou. Durante anos, o território viveu sob a pressão do conflito armado e, mais tarde, do avanço dos cultivos ilícitos, que destruíram floresta e alteraram a economia local. Ainda assim, em vez de abandonar a terra, a comunidade procurou um caminho que pudesse ser legal, duradouro e coerente com a sua identidade. O café acabou por se afirmar como esse caminho. Primeiro, foi uma cultura pouco remuneradora e pouco desejada; depois, tornou-se o centro de uma reconstrução em que o trabalho agrícola passou a estar ligado à continuidade da comunidade e à possibilidade de os jovens permanecerem no território.

A ligação à terra surge como o núcleo desta narrativa. Para a comunidade, a terra não é apenas propriedade. É vida, relação, origem e responsabilidade. Quem ali trabalha o café fala de um dever aprendido com os pais: cuidar do que se faz, porque ninguém de fora vai cuidar melhor daquilo que nasceu ali. Essa visão leva à defesa de sistemas de produção orgânicos e naturais, sem prejuízo para os vizinhos nem para a própria mãe terra. O cultivo é apresentado como um compromisso ético, e não apenas como uma atividade económica.

Essa ética aparece também numa dimensão simbólica. O nascimento de cada criança é acompanhado por uma ligação especial à terra, como se a comunidade quisesse garantir, desde o princípio, que a vida humana e o território não se separam. Plantar café é descrito como uma cerimónia de gratidão: um gesto de agradecimento à terra pelo alimento e pela vida. Nessa perspetiva, colher e plantar fazem parte da mesma continuidade, e o café funciona como linguagem de pertença, memória e transmissão entre gerações.

Impossible Coffee Colombia

A comunidade é composta por mais de 3.000 produtores, em grande parte jovens, e isso ajuda a explicar a energia com que o projeto é defendido. Muitos cresceram perto do conflito, viram os efeitos da violência e experimentaram a pressão para sair, mas regressaram ou nunca deixaram verdadeiramente o território. A permanência é, por isso, uma escolha política e afetiva. O café não aparece apenas como fonte de rendimento; surge como razão para continuar, para voltar e para reconstruir o que foi interrompido.

O papel dos jovens é ainda mais importante num contexto em que a tecnologia mudou hábitos e abriu novas referências de vida. A comunidade reconhece esse impacto, mas insiste em que a tecnologia pode ser usada a favor do território, ajudando a divulgar a história local, a aproximar consumidores e a dar visibilidade a um trabalho que, durante muito tempo, esteve quase invisível. O desafio é impedir que o mundo digital se torne uma força de desligamento e transformá-lo antes numa ferramenta de afirmação da comunidade.

É nesse quadro que surge o projeto Yuppie, ligado à ideia de Young Professional People, como uma iniciativa que ajuda uma nova geração a manter viva a cultura do café em Gaitania. O projeto dá rosto ao esforço de continuidade e mostra que o futuro não depende apenas da tradição, mas também da formação, da organização e da criação de novas lideranças locais. A permanência no território precisa de ser aprendida, cultivada e transmitida.

A chegada deste Impossible Coffee a Portugal acrescenta outra camada a esta história. O grão vindo da Colômbia foi trabalhado com uma torra diferente e com conhecimento técnico que procurou revelar o melhor da sua origem. A comunidade percebeu com clareza que o valor do café não está só no cultivo, mas também na forma como ele é transformado e apresentado ao consumidor. Há aqui uma colaboração entre quem produz e quem prepara, entre a terra de origem e o mercado de destino, que ajuda a explicar por que razão o café chega à chávena com um perfil sensorial próprio, descrito com notas cítricas, de chocolate e avelã, associado à altitude e às variedades cultivadas.

A sustentabilidade estende-se também ao transporte. O café colombiano Impossible Coffee atravessou o Atlântico num veleiro, numa viagem de cerca de 20 dias, reduzindo fortemente a pegada de carbono face ao transporte convencional. Inserido no programa Fresh Coffee Clean Ocean, o lote mostra que a coerência ambiental do projeto não termina na origem. A mesma lógica que valoriza a terra na produção tenta também respeitar os oceanos na circulação internacional do produto.

Tal como os outros Impossible Coffee, também este da Colômbia tem um custo de 16€ por cada embalagem de 250gr.

Alexandre Lopes
Alexandre Lopes
Licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria, sou um dos fundadores do Echo Boomer. Aficcionado por novas tecnologias, amante de boa gastronomia - e de viagens inesquecíveis! - e apaixonado pelo mundo da música.
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