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Crítica – Uma Luta Desigual (On the Basis of Sex)

O biopic. O biopic é uma tradição da cada vez mais curta época dos filmes de prestígio em que são estreados nas salas as longas-metragens com pretensões às principais categorias de estatuetas reluzentes. E tem dado bons resultados neste campeonato, dado o reconhecimento transversal a atores a fazer de pessoas conhecidas. Se incluir uma mudança física radical, tanto melhor.

Uma Luta Desigual (On the Basis of Sex, no original) vem nesta linha e conta a história do caminho das pedras de Ruth Bader Ginsburg, prestigiada figura na luta pela igualdade de género perante a lei, até à sua nomeação como Juíza do Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Ainda ativa nos dias de hoje, e com um historial de resistência aos poderes instituídos e coragem perante diversos problemas de saúde, é uma figura inspiracional para muitos.

Temos, assim, uma história real forte para ser adaptada ao cinema, e Ruth (Kiki para os amigos) é aqui tratada, como seria de esperar, com o máximo respeito, com a validação suplementar da verdadeira Ruth Bader Ginsburg aparecer em dois breves cameos no filme.

O problema, se é que pode ser chamado assim, é o tom certinho do filme, desde a fotografia com aquele tom azulado de filme de época à banda sonora a sublinhar os momentos dramáticos. Sendo isto até certo ponto inevitável neste tipo de produções, a capacidade de destaque deste filme, na era de abundância de oferta para o espectador em que vivemos, depende em larga medida do argumento cativar num cenário em que o final já é, à partida, conhecido, e aqui não há grandes surpresas para quem conhece a vida de Ruth Bader Ginsburg.

Situação comum a diversos filmes deste sub-género, a tentativa de tocar diversas épocas (faculdade, procura de trabalho, ensino, barra do tribunal), e áreas da vida (família e trabalho) faz com que nenhuma delas seja explorada a fundo e que algumas cenas prometedoras não tenham consequência. Em paralelo, o nível alto de exposição direta da trama ao espectador garante que ninguém se vai perder a meio até à chegada da fase de clímax de filme.

Num elenco competente de atores principais e secundários, Felicity Jones cumpre com competência e descrição e dá mais um passo seguro numa carreira em Hollywood que equilibra apelo comercial e seriedade dramática, e Arnie Hammer desliza com facilidade enquanto companheiro fiel e pai de família com voz calorosa. Mas é Cailee Spaeny que surpreende enquanto filha adolescente que, se por um lado se rebela e desenvolve valores em conflito com os pais – Atticus Finch citado largamente -, por outro mantém o seu amor filial intacto a ajudar ao desenvolvimento pessoal e profissional da mãe.

É um oásis de profundidade no meio de diversos papéis essencialmente utilitários (Kathy Bates é especialmente desperdiçada num papel secundário que merecia mais sumo), levantando curiosidade para o seguimento da carreira da jovem atriz.

Uma Luta Desigual – tradução chocha do título em inglês – é um filme adulto que, dificilmente, irá ferir alguém com a sua mensagem, mas que sofre pelo seu anonimato e batimento cardíaco baixo.

Bom para quem quiser levar alguém a ver um filme reconfortante nestes dias frios de Inverno.

Nota: 

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