Crítica – “Uma Guerra Pessoal”

Se há filmes que nos fazem colocar tudo o que tomamos por garantido em perspetiva, Uma Guerra Pessoal, do realizador Matthew Heinemann, é um deles. E, se há pessoas que merecem ser elevadas ao estatuto de heroínas, a correspondente de guerra Marie Colvin é, também e sem qualquer dúvida, merecedora desse mesmo título.

- Publicidade -

Baseada em factos reais, esta peça cinematográfica retrata a extraordinária vida de Marie Colvin (interpretada por Rosemund Pike), uma das jornalistas de guerra mais reconhecidas do nosso tempo que colaborava com o jornal The Sunday Times. Com um espírito rebelde e revolucionário, toma como sua missão de vida dar voz aos que de outro modo nunca teriam forma de ser ouvidos. Transporta, através dos seus artigos, a realidade crua, fria e brutal do que é viver uma guerra. Ou várias. E, para isso, arrisca a sua própria vida, reportagem após reportagem – sem medos, destemida como ninguém, tal como o testemunho que deixou na vida real: “A verdadeira dificuldade é ter suficiente fé na humanidade para acreditar que alguém se vai importar. O medo só vem depois”.

Depois de, durante uma das suas viagens em trabalho, ter sido gravemente ferida num olho por uma granada (no Sri Lanka, em 2001), Colvin passa a usar uma pala sobre o olho esquerdo. Ainda assim, apesar do trauma (apenas um dos muitos que vive, fruto de tudo o que testemunha ao longo da sua carreira), a jornalista persiste e insiste no seu propósito de luta, com o objetivo de trazer a luz e expor a verdade do custo da guerra ao mundo. Há uma revolta e vontade inquebráveis dentro dela que faz com que a guerra que experiencia, a guerra que não é dela, passe a ser, como o próprio nome indica, uma guerra pessoal.

É com esta enorme vontade de mudar o mundo, de o alterar através da sua escrita, que coloca em risco não só a sua sobrevivência física e sanidade mental, como sacrifica a sua própria vida pessoal, em prol de um propósito maior, e alegando valer a pena se conseguir passar a sua mensagem, nem que seja a apenas uma pessoa deste lado.

Ainda que por diversas vezes, ao longo da trama, Marie tente afastar-se deste mundo (vacilando entre episódios de stress pós-traumático com ataques de pânico acompanhado de alcoolismo e episódios depressivos de consciência extrema do seu estado debilitado), o seu editor manipula constantemente a situação para que ela volte a fazer o que faz de melhor – algo que tem tanto de louvável como de questionável. Afinal, num tempo em que o jornalismo enfrenta uma fase vulnerável, em plena era de sobreinformação, será que vale tudo para obter a próxima capa de jornal? Existe uma linha ténue que separa a necessidade de informar com a necessidade de impressionar as massas.

A par de Marie Colbie, temos Paul Conroy (interpretado por Jamie Donan), também enquanto personagem principal, fotógrafo com o qual trabalha para que a realidade que parece distante ao mundo ocidental lhe chegue da forma mais fiel possível – passando por Serra Leoa, Sri Lanka, Líbia, Timor Leste, entre outros países que, infelizmente, sofreram conflitos graves na última década.

Todas estas experiências são causadoras de emoções fortes. Ainda assim, é em Homs, na Síria, em pleno conflito armado e numa das piores guerras civis já ocorridas no mundo, em 2012, que a trama atinge o seu pico apoteótico, que coincide com o desfecho final do filme – e o desfecho que teve na vida real.

Este filme é um murro no estômago de todos nós, espectadores, que vivemos no nosso mundinho ocidental, seguro e com problemas de primeiro mundo, quando confrontados com uma realidade que a maioria de nós não consegue, sequer, estar perto de conceber. É este efeito que Uma Guerra Pessoal deixa, este aftertaste – e apenas por isso, tudo já terá valido a pena.

É impressionante, no sentido literal da palavra. E, no mínimo, transformador.

Nota: echo boomer 5 estrelas


- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Parceiros

Relacionados

Passatempo O Bom Patrão: Temos 10 convites duplos para as antestreias em Lisboa e Gaia

O Bom Patrão chega aos cinemas nacionais a 20 de janeiro.

Primeiro clipe do filme de Uncharted recria uma das cenas mais icónicas dos jogos

Para que não haja dúvidas que é mesmo uma adaptação.

Crítica – King Richard

King Richard não é apenas um dos meus filmes favoritos do ano, mas também uma das melhores biopics que já testemunhei.

The Matrix Resurrections – Crítica

The Matrix Resurrections é uma das maiores desilusões pessoais do ano. Lana Wachowski oferece um filme surpreendentemente meta e autoconsciente sobre a trilogia original repleta com ideias ousadas e fascinantes, mas com uma execução absolutamente terrível.
- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Recentes

Algarve Outlet muda de nome para Ria Shopping e terá um hotel integrado

Muitas novidades fruto de um processo de reestruturação de todo este complexo comercial.

Polestar, marca de veículos elétricos da Volvo, vai entrar em Portugal até junho

Mas os detalhes sobre a chegada ao mercado português ainda são escassos.

Banco CTT deixa de ser zero comissões

Se forem clientes, não conseguirão mesmo escapar das comissões. A solução, para quem não quiser pagar, passa pelo fecho da conta.