Crítica – “Uma Guerra Pessoal”

por Cláudia Silva

Se há filmes que nos fazem colocar tudo o que tomamos por garantido em perspetiva, Uma Guerra Pessoal, do realizador Matthew Heinemann, é um deles. E, se há pessoas que merecem ser elevadas ao estatuto de heroínas, a correspondente de guerra Marie Colvin é, também e sem qualquer dúvida, merecedora desse mesmo título.

Baseada em factos reais, esta peça cinematográfica retrata a extraordinária vida de Marie Colvin (interpretada por Rosemund Pike), uma das jornalistas de guerra mais reconhecidas do nosso tempo que colaborava com o jornal The Sunday Times. Com um espírito rebelde e revolucionário, toma como sua missão de vida dar voz aos que de outro modo nunca teriam forma de ser ouvidos. Transporta, através dos seus artigos, a realidade crua, fria e brutal do que é viver uma guerra. Ou várias. E, para isso, arrisca a sua própria vida, reportagem após reportagem – sem medos, destemida como ninguém, tal como o testemunho que deixou na vida real: “A verdadeira dificuldade é ter suficiente fé na humanidade para acreditar que alguém se vai importar. O medo só vem depois”.

Depois de, durante uma das suas viagens em trabalho, ter sido gravemente ferida num olho por uma granada (no Sri Lanka, em 2001), Colvin passa a usar uma pala sobre o olho esquerdo. Ainda assim, apesar do trauma (apenas um dos muitos que vive, fruto de tudo o que testemunha ao longo da sua carreira), a jornalista persiste e insiste no seu propósito de luta, com o objetivo de trazer a luz e expor a verdade do custo da guerra ao mundo. Há uma revolta e vontade inquebráveis dentro dela que faz com que a guerra que experiencia, a guerra que não é dela, passe a ser, como o próprio nome indica, uma guerra pessoal.

É com esta enorme vontade de mudar o mundo, de o alterar através da sua escrita, que coloca em risco não só a sua sobrevivência física e sanidade mental, como sacrifica a sua própria vida pessoal, em prol de um propósito maior, e alegando valer a pena se conseguir passar a sua mensagem, nem que seja a apenas uma pessoa deste lado.

Ainda que por diversas vezes, ao longo da trama, Marie tente afastar-se deste mundo (vacilando entre episódios de stress pós-traumático com ataques de pânico acompanhado de alcoolismo e episódios depressivos de consciência extrema do seu estado debilitado), o seu editor manipula constantemente a situação para que ela volte a fazer o que faz de melhor – algo que tem tanto de louvável como de questionável. Afinal, num tempo em que o jornalismo enfrenta uma fase vulnerável, em plena era de sobreinformação, será que vale tudo para obter a próxima capa de jornal? Existe uma linha ténue que separa a necessidade de informar com a necessidade de impressionar as massas.

A par de Marie Colbie, temos Paul Conroy (interpretado por Jamie Donan), também enquanto personagem principal, fotógrafo com o qual trabalha para que a realidade que parece distante ao mundo ocidental lhe chegue da forma mais fiel possível – passando por Serra Leoa, Sri Lanka, Líbia, Timor Leste, entre outros países que, infelizmente, sofreram conflitos graves na última década.

Todas estas experiências são causadoras de emoções fortes. Ainda assim, é em Homs, na Síria, em pleno conflito armado e numa das piores guerras civis já ocorridas no mundo, em 2012, que a trama atinge o seu pico apoteótico, que coincide com o desfecho final do filme – e o desfecho que teve na vida real.

Este filme é um murro no estômago de todos nós, espectadores, que vivemos no nosso mundinho ocidental, seguro e com problemas de primeiro mundo, quando confrontados com uma realidade que a maioria de nós não consegue, sequer, estar perto de conceber. É este efeito que Uma Guerra Pessoal deixa, este aftertaste – e apenas por isso, tudo já terá valido a pena.

É impressionante, no sentido literal da palavra. E, no mínimo, transformador.

Nota: 


Também pode interessar

Deixar uma resposta

O Echo Boomer utiliza cookies para dar a melhor experiência possível aos nossos leitores. Aceitar Ler mais

%d bloggers like this: