Crítica – The World to Come (Sundance 2021)

The World to Come é mais um drama romântico de um século passado com o qual tenho dificuldades em me sentir realmente investido.

The World to Come
Foto: Sundance Institute | Vlad Cioplea
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Sinopse: “Neste poderoso romance do século XIX ambientado no Nordeste Americano, Abigail (Katherine Waterston), esposa de um agricultor, e a sua nova vizinha Tallie (Vanessa Kirby) encontram-se irrevogavelmente atraídas uma pela outra. Uma Abigail de luto cuida do seu ex-marido Dyer (Casey Affleck) enquanto que uma Tallie de espírito livre lida com o controlo ciumento do seu marido Finney (Christopher Abbott). Quando juntas, a sua intimidade começa a preencher um vazio na vida de cada uma que não sabiam que existia.”

Admito que não sou o maior fã de filmes de época ou de romances ambientados nos últimos séculos. De uma forma geral, por mais estranho e talvez até injusto que possa parecer, acho que os diálogos são demasiado poéticos e excessivamente sofisticados. Quando se trata de investimento emocional num personagem ou num relacionamento, preciso de elementos realistas que foquem a minha atenção: desenvolvimento autêntico, conversas realistas e performances genuínas. Por mais que isso possa incomodar algumas pessoas, um filme é diferente de uma peça de teatro ou de um livro. Por exemplo, a narração, em muitas das vezes, funciona melhor no caso deste último do que numa adaptação cinematográfica.

Este prólogo serve como uma isenção de responsabilidade para que cada leitor perceba que a minha opinião sobre filmes dentro deste género não costuma ser a mais favorável. Logo, a menos que acredite que o filme é um desastre total, nunca irei recomendá-lo. Dito isto, sei que, provavelmente, farei parte de uma minoria no que a The World to Come diz respeito, mas é mais um drama romântico que eu tive sérias dificuldades em desfrutar. Tem muitos aspectos técnicos notáveis e algumas boas performances, mas, em relação à sua história e personagens, acho que é bastante desanimador e menos surpreendente do que eu estava à espera.

Em primeiro lugar, confesso também que não acho muita piada ao uso excessivo de locução durante todo o tempo de execução de qualquer filme, seja de que género for. A não ser que a narração tenha algum tipo de qualidade única, acho difícil ser genuinamente atraente ou divertida. O guião de Ron Hansen e Jim Shepard tem tanta narração – pensamentos de um personagem – quanto diálogos reais, o que acaba por tornar-se um aspeto divisivo com o qual nunca me senti confortável.

Por um lado, adiciona substância às emoções de Abigail, descrevendo completamente o que ela sente sobre tudo e todos, principalmente Tallie, pelo que é, obviamente, uma parte crucial da narrativa. Por outro, carrega exatamente o mesmo tom do início ao fim, sem nunca ter explosões de energia, uma observação humorística ou algo diferente da sensação monótona e maçadora de ouvir alguém a ler um texto.

Mona Fastvold emprega um ritmo propositadamente lento, que eu acho bastante adequado, mas a relação bem desenvolvida entre as duas mulheres não compensa completamente a história de outra forma não excitante. Infelizmente, não acredito que me importei tanto quanto deveria em relação a Abigail e Tallie. No que aos maridos diz respeito, entendo a necessidade de fazê-los parecer apáticos ou extremamente ciumentos para que a relação romântica no centro do filme floresça, mas isso acabou por prejudicar parcialmente o meu interesse no filme.

Mesmo que não seja exatamente a longa-metragem mais cativante que vi ultimamente, The World to Come ainda apresenta duas boas performances de Katherine Waterston e Vanessa Kirby. Ambas partilham uma química convincente que torna as cenas íntimas mais sinceras. Tecnicamente, devo elogiar a bela banda-sonora de Daniel Blumberg, que pode ser apenas o elemento que realmente prendeu a minha atenção ao ecrã. Já a impressionante produção artística de Jean Vincent Puzos é difícil de passar despercebida devido à maravilhosa cenografia. O guarda-roupa, a cargo de Luminita Lungu, também é apropriado, mas é realmente a música de Blumberg que rouba os holofotes. É o único componente do filme que me faz querer voltar para outra visualização.

The World to Come é mais um drama romântico situado há centenas de anos atrás que, infelizmente, não me convenceu totalmente. A realização de Mona Fastvold é bastante assertiva e mostra um excelente controlo do ritmo propositadamente lento. No entanto, o argumento de Ron Hansen e Jim Shepard depende em demasia da narração detalhada que, apesar de adicionar algumas camadas de desenvolvimento às personagens, acaba por se tornar repetitivo, dominante e cansativo.

Katherine Waterston e Vanessa Kirby tentam manter a narrativa acima da linha de água com duas prestações notáveis, mas não compensam a narrativa pouco surpreendente e algo desapontante. Produção artística, cenografia e guarda-roupa deslumbrantes elevam o filme, mas é a banda sonora vital, sem a qual teria imensas dificuldades em manter-me investido, que salva a visualização.

Relativamente à história, o melhor elogio que posso oferecer é que esclarece os espectadores sobre como as mulheres eram maltratadas na época respetiva e como as relações homossexuais têm tanta ou mais química como as heterossexuais. Como não faço parte do público-alvo, recomendo a fãs do género.

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