Crítica – The Lost City (A Cidade Perdida)

Um filme que está destinado ao esquecimento.

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Atenção que devem encontrar spoilers nesta crítica, mas isso não importa muito porque não vão ser surpreendidos por nada ao longo do filme, exceto pelo desperdício de talento. E por terem ignorado esta crítica e escolhido gastar dinheiro a ver o filme.

The Lost City (A Cidade Perdida em português) tem quatro guionistas, sendo dois deles a dupla de realizadores – que pelos vistos escrevem tão bem quanto realizam, sem noção de ritmo – e foi criado por Seth Gordon – isto quer dizer que teve a ideia, vendeu-a num almoço em que não pagou a refeição e talvez escreveu uma primeira versão do guião incompleta – o mesmo tipo que começou bem a carreira com o documentário King of Kong, apenas para depois evoluir para “pérolas” da comédia como Horrible Bosses e Baywatch. Além disso, contei, e não estou a mentir, sete, sete momentos de punch-up. O que é isto? São aqueles planos em que vemos os atores de costas e ouvimos o diálogo em off, inserido na fase de pós-produção, geralmente com distorção de som que nos faz perceber que gravaram isto num ambiente fechado, e em que as tais falas devem ter piada, e não têm.

Este é um sintoma de um projeto em que a produtora tirou um guião da gaveta, investiu uma quantia média, sem grandes riscos, e na altura que chegou aos visionamentos de teste, estes correram mal. Os produtores – estou a falar de ti, Sandra Bullock – entraram em pânico porque investiram demasiado no filme e este não funciona, logo pagam a guionistas supostamente bons na comédia para melhorar o humor do filme. Mas claro, não vão refilmar, porque isso implica gastar mais dinheiro. E eles estão no negócio de ganhar dinheiro. E nos fazer gastar o nosso. Enfim…

The Lost City, um épico de aventura na selva, sem aventura ou ação decente, cuja comédia fica aquém do talento dos atores, conta-nos a história de Loretta Sage, uma historiadora romancista que se vendeu ao mercado comercial ao escrever romances burlescos em que mistura romance e aventura com pormenores históricos. Grande parte do seu sucesso deve-se não só ao nível bacoco da sua escrita, o que a dilacera como autora, mas à personalidade, e abdominais, de Alan, um modelo de capa que é um sucesso entre os fãs como a face de Dash, o protagonista das suas aventuras. O último livro de Loretta está a ser dizimado pela crítica – ela não tem esperança que o tour do livro seja suficiente para o salvar e, além disso, está forçada a fazer o tour com o imbecil Alan, ao mesmo tempo que ainda recupera do falecimento do seu marido. As coisas não estão bem na vida da autora. Além disso, é raptada por um milionário excêntrico que quer a qualquer custo encontrar a famosa Coroa de Fogo da Cidade Perdida de D, e não irá poupar a meios, e a medidas, para forçar Loretta a ajudá-lo. Caberá a Alan salvá-la das garras do seu raptor e ajudá-la a escapar da selva, provando-lhe que ele é o amor que ela procurou este tempo todo.

Formulaico, tem tudo para funcionar, mas não funciona. Este é daqueles filmes cujo guião, quando olhamos à distância, tem as batidas certas. O elenco é apropriado, o orçamento parece adequado, mas depois, quando o vemos, percebemos que algo falhou. O filme não funciona. A acção nunca é boa o suficiente, nem as piadas, nem a aventura… que é quase inexistente se formos a pensar nisso. Os nossos heróis sobrevivem a uma perseguição apenas para dedicarem metade do filme a andar pela selva, terem uma lição de tango na vila mais estereotipada das Caraíbas e nadarem por um túnel subterrâneo.

the lost city echo boomer 3

Os autores ainda tentam salvar o filme com o cameo supostamente divertido de Brad Pitt – que protagoniza as únicas sequências onde a ação é minimamente competente – e com Da’Vine no papel da agente e amiga de Loretta, que não se poupa a nada para tentar salvar a amiga, inclusive formar amizade com um estranho, e excêntrico piloto de carga, interpretado por Oscar Nunez, naquele que é legitimamente o personagem mais engraçado do filme. Mas mesmo assim, é uma aventura sem inspiração. A narrativa é muito previsível, mas isso poderia ser perdoado se o filme fosse divertido e a comédia não fosse fácil.

Nem tudo é medíocre. Há um ou outro momento de comédia física em que Sandra Bullock se destaca. O detalhe dela tentar impedir que um carro caia de um penhasco ao segurar a sua porta pela ponta dos dedos está muito bom. Além disso, Channing Tatum tem um talento muito bom para a comédia, o que já tínhamos confirmado pelo 21 Jump Street. Pena que isso foi há 10 anos… e tinha um guião melhor. Daniel Radcliffe destaca-se como o melhor ator no filme, assumindo o papel do megalomaníaco Abigail Fairfax com um prazer, e insanidade, que merecia ter um filme inteiro dedicado só a ele e à sua necessidade de se provar perante o mundo. Pena que ele tenha trazido para o filme uma dedicação superior à dos seus realizadores.

Parece que eu estou a cascar demasiado na dupla de realização, mas a culpa não é toda deles. Sim, são pouco inspirados, não têm sentido de ritmo ou de onde colocar a câmara, nem sabem como planificar uma cena de acção ou imaginar uma solução mais inspirada para uma sequência de aventura. Mas o guião, meus caros, também deixa muito a desejar. E se o filme começa bem com a fantasia de uma cena tirada das páginas do último livro de Loretta, assim que começam a jorrar os diálogos meta, o filme descamba. E nem vamos em cinco minutos de filme.

Enfim, ao menos o climax do romance dos protagonistas tem uma mensagem interessante e bonita, mas a puxar a lágrima. No entanto, no final do filme sentimos que Tatum teve todo o trabalho a carregar a comédia de uma dupla que deveria ter química, mas não tem. A aventura foi inexistente e o filme perde-se na memória. É a versão barata e de aeroporto de Romancing the Stone (Em Busca da Esmeralda Perdida em português), se é que isso é possível existir.

The Lost City é medíocre e preguiçoso, não foi feito com boas intenções, nem sequer com esforço, e tal como a lenda que o origina, está destinado ao esquecimento.

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