Crítica – Spiral: From the Book of Saw

Spiral pode oferecer sangue, gore e armadilhas/homicídios brutais o suficiente para os fãs da franchise, mas, no geral, não deixa de ser apenas mais uma versão preguiçosa e previsível da fórmula de SAW.

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Sinopse: “A trabalhar na retaguarda de um conceituado veterano da polícia (Samuel L. Jackson), o impetuoso detetive Ezekiel “Zeke” Banks (Chris Rock) e o seu novo colega (Max Minghella) ficam encarregues duma investigação sobre assassinatos que recordam, assustadoramente, atos horrendos ocorridos há muitos anos. Involuntariamente envolvido num mistério profundo, Zeke encontra-se no centro do jogo mórbido do assassino. You wanna play games?”

Quando se trata de horror, estou sempre disposto a dar uma oportunidade a qualquer filme, mesmo quando tudo indica que provavelmente será um grande fracasso. Admito que não sou um fanático por SAW, apesar de apreciar bastante os primeiros dois filmes da franchise. Depois destes, nem me recordo de quais realmente assisti ou não. Nem mesmo o mais recente Jigsaw. Em preparação para Spiral, tentei determinar precisamente onde este se inseria na linha temporal da saga, o que provou ser uma tarefa surpreendentemente complicada. Basicamente, o que importa para este filme é que John Kramer (Tobin Bell) e o seu trabalho como o serial killer Jigsaw são reconhecidos, tornando esta peça uma sequela. Dito isto…

Infelizmente, Spiral não muda a minha opinião sobre a franchise. É uma saga baseada em fórmulas que ninguém parece importar-se verdadeiramente nos dias de hoje. Aliás, sinto-me algo chocado com o facto de este filme simplesmente existir, tendo em conta os tempos particularmente sensíveis em que vivemos hoje em dia. Inúmeros filmes e séries são produzidos sob “regras” bastante restritas, correndo o risco de serem cancelados ou boicotados se um determinado tema não for devidamente retratado. Com tanta violência gratuita, é surpreendente ver esta franchise ainda viva em 2021. Com escolhas curiosas de elenco – Chris Rock a protagonizar um filme de horror é algo que, definitivamente, chama à atenção -, as sangrentas armadilhas são apresentadas com os típicos dilemas de vida ou morte, o que certamente agradará aos fãs mais hardcore.

No entanto, estas não são tão cativantes ou “entretidas” como dantes. Este filme não possui uma única armadilha memorável que supere qualquer uma das dezenas (centenas?) do passado. O mesmo acontece com o argumento de Josh Stolberg e Peter Goldfinger, sendo apenas mais uma derivação preguiçosa e nada surpreendente de uma fórmula bem conhecida. Para ser justo – e aqui estou a confiar nos críticos que assistiram a todos os filmes da saga – esta é, supostamente, a versão cuja estrutura mais se distancia daquela que as pessoas testemunharam pela primeira vez em 2004 e 2005. Ainda assim, ser diferente não significa ser melhor. Do meu ponto de vista, Spiral é apenas mais uma visão genérica de uma história feita e refeita vezes sem conta.

Desde as cenas de rapto repetidamente idênticas às consequentes armadilhas, o potencial de um filme excelente dependia da forma como Darren Lynn Bousman (SAW II, III, IV) e a dupla de argumentistas iriam abordar as personagens, principalmente o protagonista. A falta de caraterização é, definitivamente, um problema, mas a preguiça impressionante em storytelling estraga todo o ritmo do filme. Com uma quantidade esmagadora de flashbacks e um trabalho de edição confuso e até incomodativo (Dev Singh), a atmosfera constantemente energética e super tensa transforma todas as cenas como se fossem o momento mais crucial do filme. Consequentemente, a grande maioria dos diálogos são personagens a gritar umas com as outras em praticamente todas as interações.

Além disso, o tom fora de controlo afeta negativamente as prestações dos atores. Muitas pessoas irão olhar para Chris Rock (Dolemite Is My Name, Madagascar) e acreditar que o mesmo está a ser tremendamente exagerado, mas, na verdade, está apenas a adequar-se ao ambiente caótico estabelecido pelo realizador. Durante os primeiros minutos do filme, Rock é divertido e engraçado como esperado, mas é também capaz de mostrar o seu lado mais dramático. No entanto, quando cada linha de diálogo precisa de ser interpretada como se fosse a parte mais importante do filme, são poucos os atores que o conseguem. Samuel L. Jackson (Glass, Homem-Aranha: Longe de Casa) é um deles, mas o curtíssimo tempo de ecrã não permite desfrutar da sua personagem… embora seja sempre especial vermos o ator a mandar vir com alguém.

Spiral: From the Book of Saw

Finalmente, SAW também é sobre descobrir quem é o responsável pelo jogo desumano e Spiral não retira esse bloco essencial da narrativa. A questão aqui é a falta de uma revelação de fazer cair o queixo. Obviamente, isto é tão subjetivo como tudo o que leram até aqui, mas ficaria surpreendido se a maioria dos espetadores não adivinhasse quem é o novo “discípulo” de Jigsaw durante o primeiro ato.

Quero terminar esta crítica com uma nota positiva e é por isso que vou elogiar o final algo ousado. Na verdade, a forma como acaba dá claramente a entender de que uma sequela deve ser anunciada, o que também pode fazer com que alguns espetadores pensem que a forma como Spiral termina é muito forçada. Prefiro acreditar que os responsáveis só queriam ter um final intenso e isso não posso negar.

Spiral pode oferecer sangue, gore e armadilhas/homicídios brutais o suficiente para os fãs da franchise, mas, no geral, não deixa de ser apenas mais uma versão preguiçosa e previsível da fórmula de SAW.

Apesar das sequências de vida-ou-morte violentamente cativantes, nenhuma se destaca como um momento inesquecível. O argumento de Josh Stolberg e Peter Goldfinger carece de desenvolvimento eficiente de personagens, revelações impactantes e, honestamente, uma enorme quantidade de criatividade. Desde flashbacks e cenas de sequestro repetitivamente cansativos ao tom extremamente fora de controlo, Darren Lynn Bousman não é capaz de levar a história ao seu potencial.

Todos os aspetos encontram-se no nível máximo de intensidade como se todas as linhas de diálogo necessitassem de ser gritadas do topo de uma montanha, o que transforma toda a atmosfera num ambiente caótico. Chris Rock não é o único culpado pelas suas falas demasiado tensas, especialmente quando começa tão bem.

Um final forte, mas abrupto, não compensa storytelling tão desleixado. Gostava de poder escrever que me sinto desiludido, mas não tinha grandes expetativas…

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