Crítica – “Shazam!”

por Manuel São Bento

Todos temos um super-herói dentro de nós, basta um pouco de magia para o revelarmos. No caso de Billy Batson (Asher Angel), basta gritar a palavra – SHAZAM! Depois de um feiticeiro lhe conceder o poder de Shazam (Zachary Levi), este rapaz de 14 anos passa a ser um super-herói já adulto, mas com sensibilidade de miúdo. E faz o que qualquer adolescente com superpoderes faria: diverte-se com eles!

Consegue voar? Tem visão raios-X? Dispara raios de eletricidade pelas suas mãos? Pode escapar aos testes de estudos sociais? Shazam testa os limites dos seus poderes com a inocente imprudência de um miúdo. No entanto, rapidamente terá que aprender a dominar todas as suas capacidades para conseguir vencer as forças mortíferas do mal, controladas por Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong).

Pouco ou nada se sabia sobre Shazam. Quais eram os seus poderes, qual a sua história… Basicamente, não se sabia quem ele era. É precisamente isto que o filme de David F. Sandberg faz de melhor: apresenta ao público um novo super-herói da DC Comics, entregando um argumento baseado em banda desenhada invulgarmente bem estruturado, repleto de risos e ação divertida.

Zachary Levi é, sem dúvida, o grande destaque. Não só ele é hilariante, como consegue captar perfeitamente a personalidade infantil que um miúdo transformado em adulto teria. As suas expressões de absoluta surpresa e espanto ao conhecer os seus poderes são extremamente preciosas e ele carrega, sem esforço, o tom mais alegre deste filme aos seus ombros.

Asher Angel é brilhante como Billy Batson. A sua personagem tem uma história notavelmente bem escrita e bem explorada, que eventualmente justifica a pessoa em que ele se tornou. É o subplot mais emocional e genuíno do filme, e Henry Gayden fez um trabalho fantástico ao escrever o seu guião. Não parece clichê ou exagerado. Na verdade, é bastante realista e fundamentado. Jack Dylan Grazer interpreta o seu melhor amigo, Freddy Freeman, e ele é a fonte primária de comédia autoconsciente. Ele conhece todos os pormenores sobre super-heróis e super-vilões, então as suas piadas resultam constantemente, e até acabam por ter um papel algo importante no último ato.

Geralmente, os vilões tendem a ser personagens ocas com motivações quase inexistentes, mas, desde há alguns anos, este problema tem vindo a ser gradualmente corrigido. Os últimos filmes baseados em banda desenhada possuem vilões incrivelmente bem desenvolvidos que carregam uma história convincente, a qual suporta inteiramente as suas crenças, mas não as suas ações.

Este tipo de vilões resulta bem devido ao público poder entender de onde eles vêm, mas também, em alguns casos, poder ligar-se e importar-se com eles. Dr. Thaddeus Sivana não é exatamente alguém que a audiência se acaba por importar com, mas a sua história é emocionalmente poderosa o suficiente para fazer entender de onde provêm as suas motivações. Mark Strong oferece um desempenho ameaçador e o seu guarda-roupa/maquilhagem fazem-no parecer um autêntico badass.

O primeiro ato é um pouco atribulado. Começa de uma forma muito cativante e, depois de se perceber quem é a personagem no seu centro, fica ainda melhor. No entanto, o tom do filme demora algum tempo para se estabelecer e o início do mesmo encontra dificuldades em descobrir quais piadas resultam ou não. O humor está “no ponto” em todo o resto da duração do filme, mas as primeiras cenas de comédia nem por isso. As sequências de ação são espetaculares e a produção sonora permite que o público sinta cada soco, pontapé, uma queda no chão ou uma descolagem à Super-Homem. As cenas de luta são editadas de forma fluida e bem coreografadas quando possível, ajudando ainda mais a elevar o nível de entretenimento.

A procura de Shazam pelos seus poderes fornece os momentos mais divertidos e engraçados do filme. Cada teste que o próprio atravessa tem tanto de hilariante como de informativo. Este é outro aspeto do argumento que tanto se pode apreciar: existiam várias ideias de como abordar este segmento e conseguiram brilhar em todas as execuções. Desde as referências da cultura pop aos clichês da relação herói-vilão, Sandberg fez um trabalho fantástico ao explorar estes conceitos e executou-os na perfeição.

As melhores piadas são as que podem ser engraçadas a níveis diferentes para pessoas diferentes. Se um grupo se ri de uma cena em particular devido ao momento em si, mas outro grupo ri ainda mais porque sabem que aquela cena significa muito mais do que mostra à superfície, é nessa altura que se sabe que uma piada é perfeita. Shazam! não é só engraçado para fãs de comic books – todos podem deixar o cinema entretidos e alegres.

Não deixa de ser um filme de super-heróis simples. Continua a haver um vilão por derrotar e o filme passa por todos os clichês com que goza tanto. Facilmente se prevê como o mesmo se vai desenvolver, cena por cena, apenas alguns minutos depois do início. Não que se deva considerar uma falha, apenas não é nenhuma obra-prima. A batalha final arrasta-se em demasia, terminando e recomeçando a cada cinco minutos. Tem uma conclusão bastante satisfatória, mas demora um pouco para lá chegar.

Além disso, apesar de reconhecer que é um daqueles nitpicks digno de pertencer ao famoso CinemaSins, os flashbacks e saltos de tempo poderiam ter recebido melhor tratamento em relação à idade das personagens presentes nos mesmos. Uma coisa é pensar que as personagens parecem mais velhas/novas do que aquilo que mostram no grande ecrã, mas quando eles têm exatamente a mesma aparência no espaço de 30/40 anos… Já não é tão aceitável.

Ao todo, Shazam! é uma explosão de entretenimento. É, até à data, o filme mais divertido de 2019. É incrivelmente hilariante. Continua a tendência dos filmes de banda desenhada em alterar como os vilões são escritos, entregando um “mau da fita” bem desenvolvido, brilhantemente interpretado por Mark Strong.

Cada membro do elenco oferece um desempenho forte, mas Zachary Levi rouba o espetáculo. A sua atitude caprichosa, personalidade imprudente e expressões faciais ricas, são garantias para entreter o leitor durante a maior parte do tempo de execução. Asher Angel e Jack Dylan Grazer destacam-se ao representar os miúdos, e a história do primeiro carrega um impacto emocional que passa também para a sua forma adulta.

A ação está repleta de sequências muito bem editadas, uma produção sonora poderosa e momentos únicos brutais, mas a batalha final ocupa demasiado tempo. O primeiro ato esforça-se para encontrar o seu ritmo e tom, mas quando ultrapassa essas dificuldades iniciais, é uma aventura excecional.

O melhor elogio que se pode dar a Sandberg é que antes não se sabia nada sobre Shazam e, agora, mal se pode esperar pela sua sequela. Bem realizado, bem escrito e extremamente divertido. Que mais se pode pedir?

Shazam! chega aos cinemas nacionais esta semana.

Nota: 

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