Crítica – His Dark Materials (1ª temporada)

Baseada na famosa série de livros de Philip Pullman, a primeira temporada de His Dark Materials segue Lyra Belacqua (Dafne Keen), uma jovem aparentemente comum, mas corajosa, de outro mundo. A procura de Lyra por um amigo desaparecido desvenda uma história sinistra que envolve crianças sequestradas e torna-se numa missão para entender um fenómeno misterioso de seu nome Dust.

(Esta crítica baseia-se em todos os episódios da primeira temporada, estando livre de spoilers)

Esta opinião provém de alguém que não se lembra de nada sobre The Golden Compass (2007) e que não leu os livros. Esta série não foi publicitada como Watchmen, por exemplo, que requer conhecimento prévio do universo em que se assenta. Portanto, deve-se aguentar por conta própria… e consegue, mesmo que com algumas dificuldades pelo caminho, especialmente no início. Não vou abordar spoilers nem nada que os trailers não tenham mostrado, por isso, estejam descansados.

Se há algo que ninguém vai reclamar sobre a temporada de estreia de His Dark Materials é o seu elenco impecável. Dafne Keen é a escolha perfeita para interpretar Lyra Belacqua. Tem a inocência de uma criança tão jovem, mas também a determinação e coragem que a personagem precisa de mostrar. É, definitivamente, a pessoa que tem a responsabilidade de levar o enredo para a frente. A sua jornada está cheia de obstáculos, conflitos emocionais e imensas aventuras elevadas pelos belos efeitos visuais, que melhoram à medida que a temporada se aproxima do fim. Adorei-a em Logan (2017), adoro-a aqui também.

His Dark Materials

James McAvoy é um dos meus atores favoritos a trabalhar hoje em dia e, se o mundo fosse justo, já teria um par de nomeações para os Óscares da Academia. Não tem muito tempo de ecrã como Lord Asriel (jogada de marketing da HBO, utilizando um ator aclamado para trazer audiência), mas ele é essencial no primeiro episódio, onde toneladas de exposição têm que ser dadas ao público. O que poderia ter sido um episódio piloto pesadíssimo no que toca à quantidade de informação a ser transmitida, acaba por ser uma introdução bastante agradável a alguns conceitos e regras desta série. No entanto, não se deixem enganar pelas minhas palavras anteriores: Lord Asriel é uma personagem crucial nesta temporada e assim continuará.

O resto do elenco é fantástico. Há que oferecer um elogio a Lin-Manuel Miranda (Lee Scoresby), que encaixa algumas piadas bem merecidas (e necessárias) para aliviar o tom, por vezes, demasiado dramático. Excelente trabalho de voz por parte de todos os envolvidos com os daemons. No entanto, Ruth Wilson rouba os holofotes de todos, incluindo McAvoy e Dafne, enquanto Marisa Coulter. Se receber nomeações pela sua prestação superba, não fico surpreendido. O seu olhar é muito expressivo e os seus movimentos assemelham-se aos do seu daemon de forma absolutamente impressionante. São pequenos detalhes que algumas pessoas até poderão nem se importam com, mas Ruth entrega-se 200% ao seu papel.

Obviamente, sendo His Dark Materials uma série da HBO, o nível de produção é muito alto. Surpreendentemente, os efeitos visuais não começam tão bem. Os primeiros episódios estão carregados com um pano verde bastante percetível, principalmente em wide shots de alguns locais. Apesar disso, a partir do quarto episódio, é como se um artista novo tivesse entrado e o CGI melhorou profundamente, no seu geral. Os daemons estão consistentemente excecionais ao longo de toda a temporada, mas há uma certa contenção em mostrá-los claramente durante os primeiros capítulos. Quando Lyra já se encontra no meio da sua aventura, as diferentes paisagens e cenários são deslumbrantes, acompanhados por uma cinematografia excelente. Finalmente, os ursos são, como esperado, visualmente incríveis.

Lorne Balfe oferece um tema de abertura maravilhoso, sem dúvida, mas a sua banda sonora enriquece a série de tal forma que não consigo deixar de a ouvir. É, na sua maior parte, subtil, mas quando precisa de trazer aqueles arrepios emocionais, possui as cordas e as melodias épicas necessárias. Tenho sido um fã do seu trabalho ultimamente, por isso, parabéns por mais uma soundtrack de sucesso.

His Dark Materials

Infelizmente, tenho alguns problemas com esta temporada de His Dark Materials. O maior deles está relacionado com uma história secundária enorme que não posso revelar ou aprofundar em demasia. O que posso escrever é que sinto que está tão separada da história principal que parece uma outra série totalmente diferente com personagens diferentes. Sei que vai chegar a um ponto onde se torna extremamente importante, mas nesta temporada… nem sequer terminou com um ponto de enredo excecional, um twist poderoso ou um cliffhanger decente. Encontra-se tão distante do mundo de Lyra e da sua missão que desequilibra o ritmo da série.

Este último aspeto é, consequentemente, muito inconsistente. A temporada acarreta um ritmo lento do qual realmente gosto quando este ajuda a desenvolver as suas personagens ainda mais. No entanto, quando se muda da narrativa principal para o subplot mencionado acima, é como adicionar uma camada extra de “lento” ao ritmo já “calmo”. Não ajuda com o valor de entretenimento e não expande o argumento de forma eficiente. Espero que na próxima temporada estas duas narrativas possam começar a convergir de alguma maneira, algo que antecipava acontecer antes do final da temporada de estreia.

Para além disto, os efeitos visuais não estão propriamente acertados durante os primeiros episódios. É preciso esperar até ao quarto episódio para entrar numa verdadeira aventura, o que pode fazer algumas pessoas desistir antes disso. Não o recomendo fazer. Pode ser um começo lento, mas quando a história principal encontra o seu ritmo, não há a parar. Cada episódio fica melhor do que o anterior, culminando num final chocante e enfeitado com alguns dos melhores momentos de toda a temporada.

Assim, His Dark Materials tem o potencial para se tornar uma das maiores séries da HBO. Se bem feito, poderá realmente tornar-se o líder da matilha. Possui uma história verdadeiramente cativante e envolvente, repleta de visuais belíssimos, mesmo que estes não são sejam perfeitos durante os primeiros capítulos. Desde a cenografia fabulosa à banda sonora fenomenal de Lorne Balfe, todos os realizadores fizeram um ótimo trabalho com a escrita de Jack Thorne.

No entanto, a tentativa de Thorne em balançar a narrativa principal com uma história paralela demasiado distinta quebra o momentum de His Dark Materials e mantém o ritmo inconsistente. Felizmente, o elenco excecional, liderado por uma Dafne Keen excelente e uma Ruth Wilson espetacular, é capaz de levar a série para porto seguro. É boa até agora, mas esperaria até a próxima temporada para descobrir se o alethiometer tem a solução para os problemas desta…

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