Crítica – “Notti magiche” na Festa do Cinema Italiano – Il cinema italiano c’è una volta ancora in festa

por Bruno Rocha Ferreira

O cinema São Jorge, em Lisboa, engalanou-se para receber a abertura de mais uma edição da Festa do Cinema Italiano. Organizado pela Associação Il Sorpasso, este festival tem crescido muito nos últimos anos, passando por um conjunto alargado de cidades, bem como em diversos países da CPLP.

Em noite de cocktail e muita gente presente, numa sala praticamente cheia, o filme escolhido para a sessão inaugural do festival foi Notti magiche, filme de 2018 realizado por Paolo Virzi. Portador da tocha do género da commedia all’italiana, Virzi, sem ser um virtusoso, conta de forma eficiente uma história sobre a passagem de gerações na indústria do cinema italiano, em pleno Itália 90, torneio geracionalmente marcante e a cuja música oficial, “Un’estate italiana”, celebremente cantado por Gianna Nannini e Edoardo Bennato, inspirou o título do filme.

É a crónica do início da decadência daquela que era, talvez, a mais prestigiada indústria de cinema europeu, por troca com a assertividade das certezas e inseguranças individuais, num período histórico chave, o da queda do muro de Berlim. A suave queda italiana desde esse período, semelhante a tantos outros países, mas nalguns sentidos ainda mais forte em terras transalpinas, acaba por ser o tema de fundo.

Diversos mestres trocam impressões com jovens aspirantes que, na verdade, acabam por seguir caminhos longínquos da Cinecittá, não obstante todas as festas, promessas e ambições que envolvem os jovens Antonino (Mauro Lamantia), Luciano (Giovanni Toscano) e Eugenia (Irene Vetere), finalistas do prestigioso prémio Salinas.

O fio comum da história é o destino de Leandro Saponaro (o grande Giancarlo Giannini), um produtor à beira do desespero, e que tenta uma última saída da falência. Comparado com La grande bellezza, de Paolo Sorrentino, com o qual o tom agridoce por vezes se assemelha, mas com alguns laivos melodramáticos de Io sono l’amore, de Luca Guadagnino (em particular na história trágica de Eugenia), o filme apresenta uma premissa interessante para cinéfilos saudosistas e um final que não desagrada, apesar de perder em demasiadas linhas de pensamento.

A boa cinematografia em que a luz romana dá sempre preciosa ajuda à paródia aos excessos de uma época em que o fim está próximo, mas para alguns parece apenas estar a chegar o início.

Acima de tudo, e apesar do tom autofágico, é cinema em tempos em que o mesmo rareia.

A Festa do Cinema Italiano encontra-se a decorrer e conta com uma programação variada, destacando-se a retrospetiva exaustiva da obra de Nanni Moretti.

Nota: 

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