Crítica – No Exit

No Exit é uma das surpresas do ano, chocando os espetadores com uma narrativa extremamente (in)tensa, repleta de suspense, reviravoltas e níveis elevados de entretenimento.

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Sinopse: “Darby (Havana Rose Liu), uma jovem rapariga a caminho de uma emergência familiar, depara-se com um nevão e é forçada a encontrar abrigo numa área de descanso à beira da estrada com um grupo de estranhos. Quando descobre uma miúda raptada numa carrinha no estacionamento, inicia-se uma terrível luta de vida ou morte para decifrar qual deles é o sequestrador.”

Estes primeiros dois parágrafos poderão fazer pouco sentido e transmitir uma sensação de presunção e arrogância após a crítica ser publicada, caso a ideia principal se verifique errada. Isto porque No Exit é um filme de streaming da Hulu/Disney+ que recebeu pouca ou nenhuma campanha promocional, para além da data de embargo das críticas apenas levantar no dia de estreia. Ora, geralmente, tal acontece quando os estúdios e respetivos produtores não possuem muita confiança na obra e acreditam que não será propriamente bem recebida pela imprensa, o que afetaria negativamente o interesse geral dos espetadores em darem uma oportunidade ao filme.

No entanto, para minha grande surpresa, No Exit demonstra ser dos melhores filmes do ano, até à data. Mesmo colocando de parte a minha opinião e focando-me em aspetos essenciais que a audiência costuma adorar, é difícil encontrar ingredientes que o espetador comum não desfrute tremendamente. Logo, gera-se a questão: quem terão sido os responsáveis pelo marketing? E como é que não são capazes de encontrar o potencial inegável que o filme contém para conquistar imensos espetadores? Bem, tudo isto se baseia, obviamente, na previsão pessoal de que realmente o público irá responder de forma positiva. Mas falando do filme…

Andrew Barrer e Gabriel Ferrari (ambos com créditos na escrita do argumento de Ant-Man and the Wasp) constroem uma premissa bastante simples, mas que acarreta bastante tensão, suspense, twists e momentos de elevado entretenimento, tudo inserido numa só localização. Em adição a estes componentes, existe também uma camada algo chocante de violência que agradará aos fãs mais ávidos de thrillers visualmente impactantes. Mais: com uma duração total a rondar os 90 minutos, o primeiro ato move-se rapidamente, introduzindo de forma eficiente a protagonista, Darby – interpretada por Havana Rose Liu (The Chair, The Sky Is Everywhere) na sua estreia enquanto atriz principal de uma longa-metragem.

Sendo assim, os espetadores não terão de esperar muito tempo até um pequeno contratempo começar a escalar exponencialmente para uma situação repleta de adrenalina que deixará todos a pensar no que fariam caso se encontrassem numa posição semelhante. No Exit quebra um estereótipo comum neste tipo de histórias relacionado com a inteligência – ou falta dela – das personagens. Existem sempre decisões narrativas completamente implausíveis, provocadas por personagens absolutamente idiotas, o que acaba por deixar o público algo frustrado com os acontecimentos em vez de ficar com os nervos à flor da pele devido ao enredo em si.

Por exemplo, logo no início do filme, Darby recebe uma mensagem no telemóvel enquanto conduz durante um nevão. Na maioria destes filmes, a personagem tentaria pegar no telemóvel para responder e, de alguma forma ridícula, teria um acidente. Em No Exit, Darby demonstra ser uma rapariga capaz, independente e bastante inteligente, apesar de se encontrar inicialmente num centro de reabilitação devido ao seu consumo de drogas. Não só estaciona o carro à beira da estrada para mexer no telemóvel, como decide esperar pela tempestade acalmar antes de prosseguir viagem. Infelizmente, depara-se com a tal situação (in)tensa de descobrir uma criança sequestrada numa carrinha, tendo que decifrar qual dos outros quatro adultos raptou a menina.

no exit echo boomer 2

Damien Power (Killing Ground) oferece uma visão clara e firme do que pretende para criar o suspense e atmosfera necessários para um filme constantemente cativante. Determinadas escolhas até poderão ser demasiado violentas para espetadores mais sensíveis, mas a vasta maioria serve belissimamente o enredo. Apesar de algumas revelações iniciais serem expectáveis, No Exit enverga por um caminho imprevisível a partir de certo ponto, oferendo uma experiência repleta com surpresas e reviravoltas a cada cinco minutos. Tecnicamente, a cinematografia de Simon Raby, juntamente com a banda sonora de Marco Beltrami e Miles Hankins, criam sequências verdadeiramente deslumbrantes, envolvendo o público num ambiente extremamente imersivo.

Todos os membros do elenco entregam prestações excelentes, mas Liu é insanamente extraordinária. Com um alcance emocional e expressividade impressionantes, a atriz consegue uma estreia de sonho que certamente chamará a atenção de muitos cineastas em Hollywood. Decorem o nome, pois será uma questão de tempo até começar a aparecer em filmes de maior orçamento. Incorpora Darby na perfeição, protagonista convincente com um passado complicado e um presente ainda mais difícil de se viver. Todas as personagens recebem uma caraterização eficiente e algo interessante, mas tal detalhe leva-me ao único problema de No Exit.

Sejam traços de personalidade, questões de saúde ou até o antigo emprego, alguns elementos de desenvolvimento de personagem parecem ou não ter um impacto relevante ao longo do filme, ou acabam esquecidos no final. Normalmente, estes detalhes servem de foreshadowing a cenas subsequentes de maior tensão, mas No Exit acaba por ignorar os mesmos. Relacionado com este tópico, o vício da droga é acidentalmente retratado como algo positivo. Apesar de ser obviamente inserido num contexto específico, não deixa de ser uma forma estranha de aproveitar este pormenor.

No Exit é uma das surpresas do ano, chocando os espetadores com uma narrativa extremamente (in)tensa, repleta de suspense, reviravoltas e níveis elevados de entretenimento. Damien Power pega na premissa simples dos argumentistas e constrói uma atmosfera imersiva através da filmagem numa só localização, em que o trabalho de câmara e a banda sonora são destaques técnicos numa obra visualmente envolvente.

Havana Rose Liu contribui tremendamente com uma estreia soberba enquanto a protagonista inteligente e corajosa. Tirando alguns detalhes de caraterização de personagens que se tornam irrelevantes ou acidentalmente mal retratados, é difícil de imaginar o público geral a não desfrutar desta história imprevisível e constantemente cativante.

À data desta crítica, é dos melhores filmes do ano. No Exit já está disponível no Disney+.

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