Crítica – Nitram

Um filme que se recomenda… com cautela.

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Atenção, esta crítica contém spoilers. Em 1987, por altura da estreia de Evil Dead 2: Dead By Dawn, Sam Raimi, o realizador, dignou-se a participar em um debate na televisão pública inglesa para defender o género de cinema de terror em geral, assim como a sua abordagem ao cinema de entretenimento em particular. No debate, Raimi enfrentou elementos conservadores do governo britânico e da National Viewers and Listeners Association. A disputa em questão era a distribuição iminente de Evil Dead 2 no circuito comercial de venda e videoclubes, em formato cassete. Tendo em conta a infâmia do filme anterior que, depois do período de sala, não lhe foi permitido ter uma segunda vida na circulação comercial em cassete – juntando-se a um de muitos títulos considerados “video nasties”, pelo seu conteúdo aparentemente ofensivo, padrões amorais e exploração gratuita de violência e sexo, sendo assim indignos de mostrar ao público geral -, Evil Dead 2 sofreu o mesmo destino, se não me engano.

Curioso que nunca vi isto acontecer com o cinema de autor que se presta a fazer um filme “sério” e “autoral”, onde dramatizam factos históricos de atrocidades e indivíduos instáveis, com a intenção de mostrar um “estudo de personagem” não comprometedor e realista sobre a loucura e a violência. Muda-se o rótulo, troca-se a palavra “entretenimento” por “autoral” e a bifana da tasca passa a ser gourmet. O sabor é o mesmo, mas o custo, para nós, é mais elevado.

Não quero dizer que Nitram não seja um bom filme. Aliás, é um filme muito bom. Está espetacularmente bem representado, tem uma direção de fotografia muito boa, com uma planificação bastante original, e o guião é um excelente exemplo de como contar uma história sobre a iminência de um fim trágico, com um crescendo orgânico. Mas para experienciar tudo o que têm de bom no filme, vão ter que se confrontar convosco mesmos e perguntarem-se se estão dispostos a perder toda a fé na humanidade.

A história é simples: Nitram – inspirado na história real de Martim Bryant, o atirador que, entre 28 e 29 de abril de 1996, matou 35 pessoas e feriu outras 23 no Massacre de Port Arthur, na Tasmânia – é um jovem que mora em Port Arthur, na Tasmânia, Com 29 anos de idade ainda vive com os pais, não tem trabalho, faz amizade com adolescentes, bebe sozinho e é dado a comportamentos irregulares e destrutivos. É, em suma, um rapaz problemático, e logo percebemos que sofre de um pequeno distúrbio, possivelmente uma deficiência mental ou ligeiro atraso. Nitram é um homem solitário, criticado em casa pela sua mãe fria, e escorraçado por qualquer pessoa com quem tente fazer amizade. Quando ele conhece Helen, uma atriz reformada e herdeira rica, que o acolhe na sua casa primeiro como trabalhador, depois como amigo e eventualmente como companheiro de casa, Nitram tem esperança de finalmente tornar-se um adulto com dignidade. Claro que isto não seria o filme que é se tudo corresse bem, e um trágico acidente de carro vai catapultar Nitram para uma existência de isolamento e autodestruição, com consequências para a sociedade à sua volta.

O novo filme de Justin Kurzel é bastante fiel ao historial de Martin Bryant, com algumas dramatizações e sintetizações de relações, alguns personagens eliminados e alguns diálogos acrescentados, mas os conflitos presentes no filme são basicamente os mesmos que pontuaram a vida adulta de Martin Bryant, e que contribuíram, suspeita-se, para a atrocidade que cometeu.

Nitram

O problema, para mim, não é necessariamente o que é que ganhamos com este filme, porque temos sempre algo a ganhar com qualquer filme, mas sim o que é que perdemos? Desde os primeiros cinco minutos de filme eu percebi logo que o filme não ia ter qualquer ponto alto de redenção ou momento de alívio. É uma sucessão de mal-estar, melancolia e frustração, umas atrás das outras, conforme vemos o trágico Nitram a encaminhar-se, com cada tentativa de se integrar ou participar na sociedade, para um ponto sem retorno. Desde a sua tentativa de contribuir financeiramente para a casa ao criar um serviço de cortar relva, com uma máquina que ele não sabe usar; ou a sua tentativa de fazer amizade e impressionar o surfista Jaime, numa sequência em que Nitram tenta fazer surf, com resultados humilhantes; ou a sua mania de usar fatos ridículos e antiquados, como se isso comprovasse a sua fantasia de ser um “empresário”; ou a sua incapacidade de simplesmente abordar uma mulher e fazer conversa; ou as suas viagens solitárias pelo mundo fora, filmadas por Nitram, onde vemos que não fez amizade com ninguém. Todo o filme é miséria e tristeza e contemplação de dias cinzentos numa vida cinzenta, com um fim negro iminente.

Há um momento no filme, no ponto em que fazemos a transição para uma situação de crise na vida do protagonista, em que Nitram visita a sua mãe para jantar. Este momento ocorre depois de ambos terem perdido o pai dele, e de Nitram se encontrar sozinho, herdeiro de uma fortuna, a morar numa mansão a cair aos bocados, apenas com a companhia de cães. Neste momento, Nitram tenta fazer contato com a sua mãe e explicar-lhe que ela é igual a todos os outros que se distanciaram dele e o trataram como alguém menor ou indigno de atenção. Esta revelação culmina com o protagonista a admitir que gostaria de ser diferente. Vemos um homem, com poucas capacidades intelectuais, a ter uma noção do próprio, a conseguir identificar-se como um ser incompleto e a agonizar por não saber como se melhorar. A sua mãe não entende do que é que ele está a falar, e o próprio Nitram admite que também não. Tudo culmina no final com um olhar de particular tristeza, e um sorriso melancólico, que nos mostra que não há esperança para o nosso protagonista e ele sabe o destino que o aguarda. Isto mostra-nos como este filme consegue ser tanto um exercício belo de cinema enquanto estudo de personagem, como uma experiência macabra de tortura.

Caleb Landry Jones foi galardoado com vários prémios pela sua representação, incluindo o de Melhor Ator no Festival de Cannes de 2021. Ele merecia até o Óscar, pois está incrível. Não há palavras para o descrever senão como sublime e mestre da sua arte. Ele e o resto do elenco, desde Anthony Lapaglia como o seu pai carinhoso, Essie Davis como a melancólica Helen, brilhantemente envelhecida mais pela performance do que pela maquilhagem, e Judy Davis no papel da amarga e receosa mãe de Nitram, estão incríveis. O elenco é o ponto alto de um filme já muito bem conseguido. Destaco, como culminar da grande representação de Jones, o momento em que Nitram está a fumar erva dentro de um carro com Jamie, o surfista com quem tenta fazer amizade. Jamie inocentemente provoca Nitram para ir abordar uma rapariga parada à porta de um bar. Ele provoca o nosso protagonista repetindo o seu nome, como os miúdos faziam quando ele andava no liceu. Percebemos então que este é um reviver das tormentas da sua dolorosa vida. Conforme Jamie vai repetindo “Nitram, Nitram, Niiiitraaaam”, num volume cada vez menor, e com cada vez mais malícia, vemos a expressão de Nitram mudar. O olhar de Caleb Landry Jones aterrorizou-me e eu senti que estava no carro, naquele momento, prestes a ser dilacerado por um primata emocional. É um momento de puro terror real, que conquista-nos como peça cinematográfica. Acreditem quando vos digo que o filme está cheio de momentos destes, e acabam por ser cinema na sua forma mais pura e de total eficácia formal. Acreditem também quando vos digo que esta experiência não é agradável, e há muitos mais momentos destes ao longo do filme.

Não consigo deixar de sentir-me moralista, ou um Roger Ebert de terceira. É que este é um bom filme, mas que bem fará ao público, pergunto-me? Recomendo-o com cautela. Perguntem-se, depois de o ver, em que é que este filme melhorou as vossas vidas? Foram entretidos? Foram surpreendidos? Aprenderam algo? Parece-me que a resposta a essas três perguntas será não, e pergunto-me então qual seria a mensagem que Kurzel quereria realmente passar? A de que um indivíduo inadequado não tem hipótese de redenção? Isso já está presente nos primeiros cinco minutos do filme. O resto é só abismo. Atenção ao espreitar cá para dentro. Podem descobrir o que Nitram encontrou…

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