Crítica – Ninguém Pode Saber (Dare mo shiranai)

Há filmes que dividem as audiências e Ninguém Pode Saber é um desses exemplos. É um filme de culto de baixo orçamento, uma longa metragem asiática realizada por Hirokazu Koreeda que tenta contar uma história simples de modo inteligente e que promete deixar a audiência a pensar no filme durante algum tempo.

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Baseado numa história verídica que chocou o Japão no final do anos oitenta, Dare mo Shirnai (título original), conta a história de uma mãe e dos seus quatro filhos de pais diferentes que se mudam para um pequeno apartamento em Tóquio. Um dia, ela parte e deixa para trás um bilhete e algum dinheiro para seu filho mais velho, de 12 anos, para que este possa cuidar dos outros meninos, prometendo que voltaria um dia, mas tal não acontece.

O filme é um pouco seco e insípido de emoções durante quase todo o tempo de duração, chegando, por vezes, até a incomodar. Esta falta de sentimentalismo é, de certa forma, propositada, indo tão longe como deixar de parte qualquer tipo de banda sonora, deixando os espectadores imersos naquelas histórias e provocando um certo sentimento de culpa de tudo o que estão a assistir.

Os personagens, crianças abandonadas pela sua mãe e sem qualquer tipo de eduação escolar, revelam-se frias e sem emoções, sem nunca derramarem uma lágrima. Esta é uma história que pretende replicar e representar um quotidiano real, onde algumas crianças lutam pela sobrevivência sem qualquer apoio dos mais velhos. Segundo Koreeda, o seu objetivo não é de chocar, mas sim de chamar à atenção e ensinar o público sobre esta realidade.

Koreeda propõe um filme introspetivo, onde nem sempre “o que é dito” transmite uma mensagem. O realizador coloca de parte a exposição e aposta numa narrativa através do desempenho dos jovens atores através das suas expressões faciais, reações, tons de voz, etc. Ao mesmo tempo, Koreeda contrasta com a falta de reações e sentimentos das restantes personagens adultas que “fecham os olhos” para situações em que as crianças se encontram sob o pretexto de “o problema não é meu, por isso não tenho nada a ver com isso”.

Ninguém Pode Saber é um filme construído com foco nos pequenos detalhes, obrigando o espectador a observar e dedicar o máximo de atenção a todos os momentos.

Koreeda aproveita-se ainda do lado realista desta história para lhe dar um toque documental, como se se tratasse de um documentário, onde observamos os acontecimentos do ponto de vista de uma terceira pessoa. Contudo, continua a ser uma romantização dos eventos inspirada em acontecimentos reais, trabalhada durante vários anos na carreira de Koreeda.

Ninguém Pode Saber teve uma produção que durou cerca de um ano e foi financiado pelo próprio realizador. No elenco, o grande destaque vai para o jovem Yuya Yagira, que protagoniza o irmão mais velho, tendo-se estreado em grande neste projeto com a vitória no prémio de Melhor Ator no Festival de Cannes em 2004.

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