Crítica – Ma Rainey’s Black Bottom

O filme ideal para passar 90 minutos divertidos e cativantes, mas é a última e melhor prestação da carreira de Chadwick Boseman que rouba toda a atenção.

Ma Rainey's Black Bottom
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Sinopse: “A tensão aumenta quando a cantora de blues Ma Rainey (Viola Davis) e a sua banda se reúnem num estúdio de gravação em Chicago em 1927.”

Normalmente, no fim de cada ano, preparo a minha lista de filmes para os próximos 12 meses. Obviamente, não importa quantos acabo por colocar, pois sei que dezenas de filmes serão anunciados e lançados ao longo do ano. Ma Rainey’s Black Bottom é um destes. Não sabia nada sobre este filme, mas recebeu o sempre interessante “Awards Buzz”, transformando assim o filme numa visualização obrigatória antes do Natal.

Comecei a ver sabendo apenas um detalhe: esta é a última aparição de Chadwick Boseman depois do seu falecimento há alguns meses atrás. Realmente, não sabia o que esperar deste Oscar-Bait da Netflix, mas admito ter sentido algum receio quando descobri que a probabilidade da nomeação de Boseman era alta, pois fiquei com a dúvida se tal é devido ao que aconteceu na vida real ou se realmente merece esse reconhecimento…

Bom, posso escrever com segurança e confiança que Boseman entrega a melhor prestação da sua carreira e não seria injusto, de todo, receber vários prémios postumamente. Desde o sotaque impecável ao alcance emocional impressionante, passando por longos monólogos e takes ininterruptos sem esforço aparente, Boseman é a cola firme que mantém tudo no lugar.

Ma Rainey's Black Bottom

O que parece, inicialmente, um hangout film (narrativa sem um enredo central claro) transforma-se num estudo de personagem. Levee quer seguir os seus sonhos, fazer o que faz de melhor nas suas condições e com a sua interpretação pessoal da música e do soul. Boseman incorpora este personagem na perfeição, entregando uma performance memorável que espero que seja lembrada como uma digna vencedora de Óscar, caso esta situação se venha a tornar verdadeira.

Apesar de Boseman ser o destaque, todos os atores são absolutamente incríveis. Viola Davis partilha o holofote principal com o colega anterior, representando a icónica cantora de blues, Ma Rainey. Sendo completamente honesto, desconhecia esta cantora assim como o seu impacto no soul. O primeiro argumento de uma longa-metragem de Ruben Santiago-Hudson está repleto de brincadeiras divertidas entre os membros da banda, mas também contém monólogos sinceros, angustiantes e chocantes que exploram profundamente o passado e a personalidade de cada personagem. Davis ataca todas as suas falas com uma intensidade brutal e uma expressividade extrema, constantemente oferecendo 200% da sua energia.

George C. Wolfe (primeiro filme que assisto dele) demonstra um controlo exímio de todas as cenas e eleva a narrativa dialogue-driven com um equilíbrio excecional do tom e do ritmo. A câmara de Tobias A. Schliessler permanece lindamente sobre os atores, permitindo que estes demonstrem as suas habilidades, mas também ajudando os espetadores a sentirem-se investidos nas palavras das personagens, ao não criar nenhuma distração técnica desnecessária. A edição de Andrew Mondshein também contribui muito para o ritmo suave que o filme pede, mas é a banda sonora inspiradora e cheia de soul de Branford Marsalis que, provavelmente, irá levar a maioria dos espetadores a desfrutar do filme no seu geral. Tecnicamente, não consigo apontar um único problema. Enormes elogios para o guarda-roupa de época e para a produção artística apropriada.

Honestamente, não tenho muitas razões para reclamar. Pode não possuir um plot principal convencional, mas também está longe de ser um filme de “nada”. Como mencionei acima, as bocas e brincadeiras entre Toledo (Glynn Turman), Cutler (Colman Domingo), Slow Drag (Michael Potts) e Levee são incrivelmente divertidas e genuinamente hilariantes por vezes.

No entanto, atravessa um caminho sombrio e inesperado, culminando num final surpreendente. Todas as personagens têm o seu próprio monólogo contendo detalhes das suas vidas pessoais, algo que me deixou regularmente interessado, apesar da estrutura repetitiva. Funciona tanto como um estudo de personagem, principalmente sobre Levee e Ma Rainey, mas também como um “passar o tempo” entretido que passa mais rápido do que antecipava.

Ma Rainey's Black Bottom

No final, Ma Rainey’s Black Bottom será para sempre recordado como o último papel de Chadwick Boseman. Chamem-lhe destino, mas é, sem dúvida, a melhor prestação da carreira de Boseman. Espero que, se realmente ganhar um Óscar postumamente, que tal não seja identificado como um ato de caridade, mas como uma celebração digna, justa e triunfante do seu talento inspirador e impactante no grande ecrã.

Viola Davis também brilha nesta narrativa incomum, que foca os seus holofotes em monólogos longos, sem cortes e envolventes, diálogos cativantes e brincadeiras divertidas, tudo abordado de forma impressioante e aparentemente sem esforço por parte de todos os atores envolvidos. Apesar da ausência de um enredo central claro, encontra-se mais perto de um estudo de personagem do que de um filme de “nada”.

George C. Wolfe e Ruben Santiago-Hudson entregam um filme tecnicamente magnífico, com um excelente equilíbrio do tom e ritmo, mas também possuindo uma cinematografia impecável, uma edição perfeita e uma banda sonora carregada de soul.

É, definitivamente, um candidato sério para a temporada de prémios, por isso, certifiquem-se de guardar 90 minutos desta época natalícia para desfrutar desta história simples, mas surpreendente.

Ma Rainey’s Black Bottom chega à Netflix a 18 de dezembro.

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