Crítica – Godzilla (2014)

Godzilla concentra-se mais nas personagens humanas do que nas lutas entre os monstros e, apesar do equilíbrio narrativo precisar de alguns ajustes, funciona surpreendentemente muito bem.

Godzilla (2014)
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Sinopse: “Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), um especialista em bombas da Marinha, acaba de se reunir com a sua família em San Francisco quando é forçado a ir para o Japão para ajudar o seu pai distante, Joe (Bryan Cranston). Rapidamente, ambos são envolvidos numa crise crescente quando Godzilla, Rei dos Monstros, surge do mar para combater adversários malévolos que ameaçam a sobrevivência da humanidade. As criaturas deixam uma destruição colossal pelo caminho, enquanto se dirigem ao seu último campo de batalha: San Francisco.”

Não é fácil começar um novo universo cinematográfico. O primeiro filme tem que ser um sucesso inegável em quase todas as frentes para a franchise descolar. Desde um world-building interessante até à necessidade de entregar uma boa primeira parcela, é uma tarefa brutalmente desafiadora para qualquer realizador e argumentista assumirem. Godzilla já teve diversas adaptações, mas a Warner Bros. e a Legendary Entertainment corajosamente deram a oportunidade a um cineasta inexperiente, Gareth Edwards, e a um argumentista estreante, Max Borenstein, para arranjarem mais uma versão da história de Godzilla. No que toca a expetativas, reconheço que o público olha para este tipo de filme de uma perspetiva focada na ação. A maioria dos espectadores simplesmente quer ver monstros a lutar, o que é compreensível.

Aprecio uma grande batalha tanto como qualquer outro amante de blockbusters, mas também desejo uma história remotamente decente. Quando se trata deste género em particular, não peço um argumento digno de Óscar que me deixe estatelado no chão no final do filme. Não preciso de personagens incrivelmente complexas com motivações requintadas. Nem me importo com a exposição pesada, desde que não seja muito exagerada e preguiçosa. Dito isto, também não mereço clichês irritantes nem pontos de enredo irracionais. Não gosto nada de me colocar naquela posição de criticar problemas ligados à lógica da narrativa (muitas vezes, são apenas nitpicks irrelevantes), mas quando as personagens tomam decisões ridiculamente absurdas que nenhum ser humano tomaria, então o filme está realmente a pedir um comentário negativo.

Godzilla (2014)

Borenstein – que co-escreve dois dos três filmes seguintes no MonsterVerse – fica perto de uma narrativa perfeitamente equilibrada que, neste género, está diretamente relacionada com o tempo de ecrã atribuído a humanos e monstros. Este filme não poderia ser apenas Godzilla a combater outro monstro aleatório, uma vez que as batalhas visualmente apelativas e constantes perderiam impacto com o tempo (para além da falta de uma história), mas também não poderia gastar toda a sua duração com as personagens humanas – afinal, o filme é intitulado Godzilla e não The Brody Family. Espectadores em todo o mundo entram nos seus cinemas respetivos para se sentirem maravilhados pela ação, visuais, banda sonora e serem completamente entretidos por titãs à pancada uns com os outros.

Várias personagens carregam arcos surpreendentemente convincentes, especialmente Ford e Joe Brody. A relação pai-filho entre Aaron Taylor-Johnson e Bryan Cranston parece autêntica, sendo que ambos possuem um problema do passado em comum não resolvido que se liga ao Rei dos Monstros. O apego emocional a esta família eleva as sequências perigosas espalhadas pelo tempo de execução. Cranston oferece um compromisso inegável com o seu papel, ao passo que Taylor-Johnson demonstra parte do talento que, mais tarde, seria descoberto pela Marvel. Ken Watanabe é uma adição fantástica ao elenco como Dr. Ishiro Serizawa, um cientista que, felizmente, não segue o desenvolvimento formulaico geralmente atirado para este tipo de personagem. Elizabeth Olsen e Sally Hawkins também têm um bocado de tempo de ecrã, mas são basicamente tratadas como “pessoas próximas às personagens importantes”.

Gareth Edwards é, admitidamente, um fã da lore de Godzilla, mas qualquer espectador consegue reconhecer o enorme cuidado que tanto Edwards como Borenstein têm com as suas personagens. Mais tempo de ecrã é entregue à humanidade do que aos monstros, o que irá, sem dúvidas, desiludir muitos fãs. Embora me sinta investido nos protagonistas, é gasto demasiado tempo com os militares, onde inúmeras cenas de exposição arrastam a narrativa geral. O build-up cheio de suspense para o terceiro ato climático é eficiente, mas a ação é frustrantemente escondida dos espectadores. A maioria das batalhas titânicas são vistas através das janelas de um carro, comboio, prédio ou até mesmo por televisões. O problema principal com o filme não é passar tempo com humanos quando os monstros não estão a lutar, mas sim decidir permanecer com essas personagens mesmo quando Godzilla e companhia entram em cena.

Titãs estão a combater atrás da câmara e mantêm o público ou inteiramente no escuro ou mostram apenas uma parte da batalha. A maioria dos planos são ao nível do chão, geralmente mostrando o ponto-de-vista de uma determinada personagem. Apesar desta escolha trazer uma maior sensação de perigo e desespero para o ecrã, também gera um sentimento frustrante nos espectadores que não estão a ver Godzilla lutar em todo o seu esplendor. Entendo que parte desta decisão possa estar relacionada com alguns VFX menos polidos e, com toda a honestidade, apesar das raras imagens largas dos monstros, a ação é fascinante. A banda sonora de Alexandre Desplat é vibrante e os monstros parecem fantásticos no ambiente propositadamente escuro (ajuda a esconder imperfeições visuais), especialmente Godzilla.

Godzilla concentra-se mais nas personagens humanas do que nas lutas entre os monstros e, apesar do equilíbrio narrativo precisar de alguns ajustes, funciona surpreendentemente muito bem. Como o primeiro capítulo de MonsterVerse, Gareth Edwards e Max Borenstein entregam uma história incrivelmente convincente no lado humano, desenvolvendo totalmente as personagens principais e oferecendo-lhes arcos interessantes.

A maior parte do tempo de execução é gasto com estes protagonistas, o que dececionará alguns fãs que anseiam pelas batalhas titânicas, mas o build-up lento funciona a favor do terceiro ato climático. No entanto, escolher permanecer com os humanos quando os monstros já estão a lutar em segundo plano é uma decisão questionável que deixa um sentimento extremamente frustrante no público.

Elenco, visuais e banda sonora atingem as notas certas, mas os combates em si raramente são demonstrados na sua máxima glória – a maioria é vista através da perspetiva de uma personagem ao nível terrestre – em parte devido à necessidade de esconder algumas imperfeições visuais.

Independentemente de tudo isto, é um “monster flick” verdadeiramente desfrutável que cria um universo cinematográfico repleto de entretenimento.

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