Crítica – Uncharted

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Sinceramente, se quiserem ser entretidos, vão jogar o jogo. Saí-vos mais caro, mas a longo prazo vale a pena. Este filme não.

Atenção, esta crítica contém spoilers. Antes de mais, para quem não conhece a narrativa dos videojogos na qual este filme é baseado, Uncharted conta a história de Nathan Drake, um caçador de tesouros que viaja pelo mundo ou a roubar peças perdidas e segredos escondidos de grandes civilizações esquecidas, ou a tentar protegê-los de vilões que pretendem explorar esses tesouros para fins megalomaníacos. É basicamente o Indiana Jones em videojogo com um protagonista carismático, cheio de piada e uma boa mistura de acção e aventura, baseando-se em grandes mistérios e mitos, desde El Dorado, Xanadu, Iram a Cidade dos Pilares ou o tesouro perdido do lendário pirata Henry Avery. Em cada um destes jogos encontramos Nathan e o seu parceiro, quase pai adoptivo, Victor “Sully” Sullivan, em viagens pelo mundo fora, desde as selvas mais profundas aos cumes do Nepal, a investigarem cidades perdidas, evadirem armadilhas letais e exércitos de inimigos, monstros mutantes, mercenários e sobreviverem a explosões, descarrilamentos de comboios, aviões despenhados no meio do deserto, avalanches no cume do Evereste… Enfim, é pulp, é clássico e é super divertido.

E agora o filme… Aqui encontramos uma tentativa de sintetizar o espírito e alguns dos momentos mais emblemáticos dos jogos numa narrativa de pouco mais de hora e meia, mas uma realização medíocre e um guião fraco apresentam uma versão muito pouco inspirada desta saga.

Em Uncharted, Tom Holland é um orfão, um ladrão que está habituado a sobreviver sozinho desde que o seu irmão mais velho, Sam, fugiu do mesmo orfanato, prometendo voltar para o resgatar, mas nunca o tendo feito. Quando Nathan é abordado por Victor Sullivan (Mark Wahlberg), um ladrão profissional que conhecia o seu irmão, este recruta-o para um trabalho, uma aventura que seguirá o rastro da viagem de Fernão de Magalhães e para tentar descobrir os lendários galeões perdidos do descobridor e o ouro contido lá dentro. Nathan aceita o trabalho na expectativa de reencontrar o seu irmão, mas, ao longo do filme, vai envolver-se numa perigosa aventura, uma corrida para encontrar o tesouro antes de Moncada (António Banderas), um perigoso milionário espanhol cuja família financiou a viagem de Magalhães e que acha que o ouro é seu por direito. Entre Barcelona, Filipinas, catacumbas e galeões voadores, Nathan vai viver uma aventura como nunca esperou, na sua busca pelo irmão. Infelizmente, o filme não é tão divertido como soa, apesar de ser minimamente estruturado.

uncharted filme critica 2

Uncharted chega aos cinemas ao fim de uma década de suposto desenvolvimento, mas o projeto passou pela mão de tantos realizadores e guionistas que não importa realmente o tempo que esteve a ser desenvolvido. Pelo resultado do que vemos no ecrã, diria que esta versão teve muito pouco tempo de trabalho em todas as áreas, desde o guião, à realização, direção de fotografia, atores, etc. Uncharted é um filme de aventura inspirado no videojogo do mesmo nome, mas que nunca consegue ir para além da mediocridade.

Na verdade, nota-se que é um filme preguiçoso. Apesar de tentar colocar momentos chave do videojogo e mostrar elementos estéticos diretamente extraídos desse universo, sente-se que está só a cumprir com requisitos ordenados por uma entidade corporativa maior, e não há um verdadeiro interesse em mostrar-nos algo de forma original e impressionante. Pior, o guião é tão básico, a estrutura é previsível e pouco ambiciosa, as escolhas dos personagens tão forçadas e as suas transformações tão pouco credíveis, que não nos sentimos convencidos pela narrativa. Apesar de haver alguns momentos interessantes aqui pelo meio, e uma ou outra cena com piada, no geral sentimos que os momentos de decisão e os personagens estão pouco trabalhados. Além disso, num filme de aventura que envolve a solução de enigmas estranhos e complexos, este filme sofre do mesmo problema da mais recente adaptação de Tomb Raider, de 2018: os enigmas criados pelos guionistas são fracos. Ao menos em Tomb Raider, a montagem era mais fluída e, mais importante que isso, o vilão era interessante. Aqui, o vilão é um dos elementos mais fracos. António Banderas não tem culpa de lhe ser atribuído um personagem com uma motivação confusa e pouco credível e de, pior ainda, ser substituído antes do terceiro ato. É verdade, o grande vilão do filme, no seu momento de afirmação sobre a sua demanda, é morto e substituído por uma vilã muito menos interessante. Ficaram sem dinheiro para mais dias de rodagem? Estavam a esperar chocar-nos? É que o filme já estava a aborrecer e, quando tomam esta escolha, mais aborrecido fica.

Não é que o filme seja mau, não é. Mas podia ter sido muito mais. É incrivelmente medíocre, tem um guião pouco trabalhado e comete aquele que, para mim, é o maior erro de uma adaptação: falha em captar o espírito do jogo. A única cena do filme que eu senti que realmente transmitia a essência dos videojogos é uma cena pós-créditos com Pilou Asbæk. Só nos resta perguntar o que aconteceu para não dedicarem ao que veio antes o mesmo tipo de trabalho.

Algo neste filme, na montagem errática e apressada, na interpretação pouco convincente de alguns personagens secundários, na motivação forçada do vilão, diz-me que Uncharted teve imensos problemas durante a rodagem. Problemas do género “não temos solução para este erro no guião e temos que nos adaptar”, “não temos orçamento afinal para fazer esta cena, vamos ter que usar menos takes ou encenar esta sequência de acção à pressa, logo, vai ficar mal filmada” ou até “vamos reduzir esta sequência de aventura em pós-produção”. Nota-se que o filme está incompleto quando temos coisas como uma sequência de montagem de Drake a resolver um enigma ao ler os postais antigos do seu irmão durante cinco minutos, em vez de vermos sequências de aventura alucinante!

Claro que o filme nos tenta convencer do contrário ao iniciar a ação em in media res, com Nathan pendurado pelo pé em alto voo numa rede de carga de um avião de mercadorias. “E quando estamos prestes a ver o nosso herói estatelar-se no oceano em queda livre, voltamos atrás no tempo e vamos descobrir o que aconteceu para o levar lá. De certeza que vai ser uma aventura vertiginosa!”. Pensar isso é um erro. Esta escolha é um truque para nos levar a pensar que o filme vai ser muito mais divertido e intenso do que é. É uma ferramenta de cineastas que sabem que têm um produto medíocre nas mãos, com muito menos ação, aventura e qualidade do que as pessoas esperam, e tentam lançar o filme em alto, para distrair o espetador da hora e meia enfadonha e pouco convincente que aí vem.

Há realmente muito pouca coisa interessante nessa hora e meia. Um assalto mal amanhado, uma aventura pouco convincente nas catacumbas de Barcelona, vilões idiotas e uma sequência de ação em alto voo que, em teoria é gira, mas que consegue ser menos credível que a sequência na qual se inspirou nos videojogos. Enfim, ao menos alguém teve a ideia de “Vamos ao menos tentar fazer um terceiro ato impactante! Vamos colocar os galeões no ar e podemos ter uma batalha aérea de galeões”. Tudo bem, mas quando essa batalha é executada ao nível do resto do filme, com pouca imaginação, não chega para salvar o filme.

A aventura nunca é entusiasmante. O guião tenta contar uma história clássica, mas fica tão limitado aos seus próprios engenhos que dá para sentir as peças a encaixarem no lugar de forma forçada, principalmente quando cada personagem tem que tirar cinco minutos para nos falar sobre a sua motivação ou os elementos de conflito entre herói e antagonista são mal resolvidos. Há uma história de vingança algures aqui a partir de metade, mas nunca é explorada, nem sequer naquela que deveria ser uma batalha climática entre herói e vilã. Alguns dos atores secundários, coitados – talvez não tenham tido os takes necessários, ou Ruben Fleischer escolheu os piores planos -, não estão bem. Há uma tentativa de puxar pela comédia, momentos que têm alguma graça e Tom Holland é bastante carismático, mas desperdiçam Wahlberg e o seu talento para o humor.

No entanto, devo dizer que Holland e a equipa de stunts tentam puxar por um elemento de ação acrobático inspirado no cinema de Jackie Chan e há que reconhecer que houve uma tentativa de trazer alguma diversão ao filme. Infelizmente, Fleischer não está à altura para filmar ação quando esta não é totalmente CGI.

Só posso recomendar este filme, de livre consciência, se não tiverem mais nada para fazer e quiserem comer pipocas sem se sentirem culpados, ou se tiverem miúdos que queiram ir divertir-se a ver um filme de aventuras ligeiro. Se bem que, estando mais próximo de Sahara, de 2005, do que de qualquer filme de Indiana Jones, até o fraco Reino da Caveira de Cristal, acho que, no final da sessão, até os miúdos vão ter vontade de pedir de volta o dinheiro que os pais gastaram.

E tudo porque os cineastas não desenvolveram o guião o suficiente, porque não foram inteligentes a usar um orçamento mais reduzido do que o material pedia, porque não arranjaram um realizador mais competente. O filme fica aquém do que deveria ser e encaixa perfeitamente no molde de adaptações de videojogo. É desinteressante, não adapta a emoção da experiência e, em breve, vai ser esquecido… a não ser que faça dinheiro nas bilheteiras. Fica a esperança, pode ser que o segundo seja melhor…

Se quiserem entreter-se sem serem surpreendidos, vão ver o filme. Aviso já que podem sair de lá de mau humor. Sinceramente, se quiserem ser entretidos, vão jogar o jogo. Saí-vos mais caro, mas a longo prazo vale a pena. Este filme não. Como os galeões de Magalhães, vai ficar perdido na memória. Espero que para sempre.

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