Crítica – Eternals

Venham pelo espetáculo, fiquem pelo drama, mas não peçam demasiado de um filme que tem pouco para dar.

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Preparem-se porque Eternals é um filme problemático. Tem boas ideias, mas o talento de Chloé Zhao como realizadora não chega para salvar um guião fraco. No final de contas, Eternals é interessante quando é um drama de personagens, e mau quando tenta ser um filme da Marvel.

Eternals conta a história de um grupo de seres super-poderosos que foram enviados para a Terra com a missão de proteger a humanidade dos Deviants, monstruosas abominações que atormentaram os seres humanos ao longo dos séculos. Com a missão cumprida e os Deviants destruídos, os Eternals vivem em paz, dispersos pelo mundo e a tentarem integrar-se com a sociedade humana, à espera do momento em que sejam chamados de volta para o seu planeta natal, Olímpia. Mas quando a eternal Sersi, interpretada por Gemma Chan, é atacada por um Deviant que deveria estar extinto, velhos conflitos e memórias vêm à superfície e a equipa deve unir-se novamente para lidar com uma ameaça maior do que alguma vez enfrentaram.

Depois de ganhar o Óscar com Nomadland, Chloé Zhao estreia-se com uma aventura de super-heróis da Marvel que tinha tudo para funcionar. Eternals nunca tinha sido adaptado ao cinema e a escolha desta banda-desenhada mais desconhecida do panteão da Marvel pareceu uma escolha arriscada, mas não menos interessante, e com potencial para trazer uma lufada de ar fresco a um panorama de filmes que estão a tornar-se cada vez mais desapontantes.

Em defesa do filme, Eternals tem um bom elenco e cada um dos Eternals tem um conflito interno interessante. Desde Sersi, Gemma Chan, que tenta lidar com a sua proximidade à humanidade; ao heróico Ikaris, Richard Madden, que carrega o peso da responsabilidade da missão; a Sprite, Lia McHugh, uma ilusionista que se sente amaldiçoada por viver eternamente num corpo de criança; Druig, Barry Keoghan, o telepata cínico e demagogo que tenta salvar a humanidade de si mesma; Thena, Angelina Jolie, uma guerreira orgulhosa que nos afeta emocionalmente na forma como tenta lidar com a perda da sua identidade devido a uma doença degenerativa: ao poderoso Gilgamesh, Don Lee, que assumiu a missão de proteger e cuidar de Thena, por amor não correspondido; ou Phastos, Bryan Tyree Henry, o cientista do grupo, alguém que está disposto a juntar-se à luta para proteger a sua família humana, mas que se sente responsável por ter influenciado demasiado o progresso destrutivo da raça humana.

crítica Eternals

Outros personagens realmente ficam a perder, como Ajak, interpretada por Salma Hayek, no papel da confiável líder da equipa, e Makkari, interpretada por Lauren Ridloff, que como a velocista da equipa serve apenas para encabeçar alguns momentos de espetáculo visual mais impressionantes. Até Kit Harington consegue fazer presença, no papel de Dane Whitman, mas ele serve mais de motivador para Sersi e esperemos que, se houver uma sequela, o seu misterioso personagem seja mais explorado. Mas no geral, os Eternals em si são personagens com conflitos internos mais interessantes do que vimos até agora nos filmes deste estúdio.

Ideias como o peso da imortalidade na memória, na identidade, o culto da personalidade, a demagogia como ferramenta de salvação ou o fanatismo de uma missão são apresentadas no filme, mas são pouco exploradas e raramente chegam a uma conclusão satisfatória. Apesar de ser longo, o filme descarta muitas vezes o drama destes personagens em prol de momentos de ação gratuita e enfadonha.

O lado de aventura e entretenimento que estamos todos à espera nestes filmes está a tornar-se cansativo e isso é visível em Eternals. Apesar de Zhao tentar fugir da palete da Marvel, o filme regressa muitas vezes a lugares comuns com confrontos entre Eternals e Deviants, em que dá para perceber que as sequências de ação foram concebidas e executadas pelo departamento de efeitos visuais sem qualquer intervenção da realizadora. A própria Zhao não parece ter mão para lidar com a coordenação destes momentos, pois a realização fica mais pobre e a montagem perde o ritmo sempre que a pancadaria entre Eternals e Deviants começa.

Não ajuda que os Deviants, os supostos antagonistas, sejam uma das partes mais fracas do filme. Isto é infeliz, porque o conflito entre Eternals e Deviants da banda-desenhada tem muito potencial para ser explorado, com ideias como a ambiguidade desse conflito, ou questões como direito à vida ou a tragédia do falso livre arbítrio. Infelizmente, essas ideias aludidas na banda-desenhada mal são abordadas no filme. Na passagem para o grande ecrã, parece que o estúdio não fez o esforço de compreender o material de origem e tentou seguir o caminho do melodrama em nome de produzir material mais “adulto”.

O enredo é forçado, os elementos de género estão mal executados e parece que o filme tem vergonha de assumir o seu lado fantástico, ao ponto de apresentar um conflito principal sem grande sentido. Sem revelar nada, basta dizer que o conflito do filme sofre por ter duas forças antagónicas que se atrapalham uma à outra, mas nenhuma delas é explorada de forma interessante. Apesar da sua inspiração indie, Eternals resume-se a uma aventura típica da Marvel de impedir que um mauzão rebente com o planeta.

Isso não quer dizer que não haja boas ideias aqui. Há bons momentos de comédia, de interação entre os personagens, e sentimos as batidas de um drama sobre uma família disfuncional a tentar reparar-se. O problema é que tudo caminha para uma conclusão pouco inspirada e, nessa altura do filme, parece que todas as questões desafiantes colocadas foram esquecidas em prol do espetáculo.

crítica Eternals

Não confundam Eternals com uma tentativa de fazer um filme de super-heróis mais pessoal e introspetivo. É um drama medíocre com uma patine de super-heróis. Felizmente tem um bom elenco, ideias desafiantes e um trabalho visual que chega a ser inspirado, quando não cai completamente por terra.

O design dos Deviants, por exemplo, é tão desinteressante, e até confuso, que há momentos de pancadaria em que eu me perguntava que parte do inimigo está a fazer o quê. Só o Deviant principal, Kro, interpretado por Bill Skaasgard, tem algum protagonismo, mas até ele acaba por ser desperdiçado. O que é uma pena, porque o personagem em que é inspirado é bem mais rico na banda-desenhada, onde a sua tragédia está em ter uma causa justa, mas condenada pela sua fraqueza de caráter. Os Deviants são geridos no filme como distrações ocasionais e sentimos que estão presentes no filme mais por exigência do estúdio porque precisavam de um vilão corpóreo para a equipa enfrentar.

Pontas são deixadas soltas, conflitos não são resolvidos, ideias são desperdiçadas, desperdiça-se um bom vilão secundário em detrimento de um vilão principal que, apesar de apresentar um conflito ético interessante, o seu confronto final é aborrecido e pouco impressionante. Eternals em si é uma ponta solta.

Infelizmente, nesta fase dos projetos da Marvel, parece que a Marvel está a raspar o fundo do barril e o que nos apresenta é uma amálgama incoerente de ideias e lixo descartado.

Ou seja, se vêm pelo drama, ficam um pouco desapontados. Se vêm pela ação e aventura, ficam muito desapontados. A única coisa que realmente vale a pena é o prisma de multiprotagonismo do filme, pois cada um destes Eternals recebe um momento específico de brilhar. Nesse contexto, Richard Madden destaca-se no papel de Ikaris. O ator carrega o manto do pretenso “super-homem” do grupo com uma presença e carisma intocável. Também a personagem de Thena tem um percurso dramático mais interessante do que Sersi, a nossa suposta protagonista, e é interpretada por Angelina Jolie com uma naturalidade que nos faz acreditar na glória, força e fragilidade desta deusa assolada por traumas mentais. Pena que o resto do filme não dê mais protagonismo e sentido aos outros Eternals.

Uma coisa que nunca falha é a comédia e essa está nas mãos do eternal Kingo, interpretado por Kumail Nanjiani, e Harish Patel, no papel do seu hilariante criado Karun. Estes dois personagens trazem uma leveza e originalidade ao filme, num enredo secundário ridículo de tentarem realizar um documentário sobre os próprios Eternals, que apresenta peripécias bem mais envolventes que o lado aventureiro do filme.

O filme está melhor quando nos faz sentir empatia com um ser divino, imbuído de um princípio cósmico, mas ao mesmo tempo frustrado pelas suas limitações e apego à humanidade. Isso junto com um elenco forte, ideias interessantes e um lado da realização que nos procura afastar dos clichés dos outros filmes Marvel, até que são suficientes para justificar ver o filme.

Mas atenção, vejam este filme com a noção de que há o risco de ficarem desapontados. Eternals oferece uma tentativa de repensar o mito grego do super-homem numa abordagem mais humana e interessante do que o enredo o permite. Temos sacrifício, perda, traição, mas também um bicho gigante a ameaçar destruir tudo. Nada disto está muito bem feito, mas a tentativa é de louvar. Venham pelo espetáculo, fiquem pelo drama, mas não peçam demasiado de um filme que tem pouco para dar.

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