Crítica – Crawl (Rastejantes)

por Manuel São Bento

Quando um enorme furacão atinge a sua cidade natal, na Florida, Haley (Kaya Scodelario) ignora a ordem de evacuação para procurar o pai desaparecido, Dave (Barry Pepper). Quando o encontra gravemente ferido na cave da casa de família, os dois acabam por ficar encurralados devido às rápidas e fortes cheias. À medida que o tempo para fugirem à intensa tempestade se esgota, Haley e o pai descobrem que a subida do nível da água é o menor dos seus receios.

2018 foi um ano algo dececionante. Muitos dos filmes mais antecipados foram desapontantes e não houve surpresas suficientes ao longo do ano. 2019, por outro lado, tem sido bastante interessante.

A maioria dos blockbusters têm resultado comigo e são dos meus filmes favoritos do ano até hoje (Avengers: Endgame, John Wick: Chapter 3 – Parabellum, Us). Além disso, películas originais de baixo orçamento também têm chamado a atenção, mesmo não sendo umas obras-primas (Greta, Long Shot). Apesar de tudo, houve algumas experiências menos boas (Dark Phoenix, Hellboy, Godzilla: King of the Monsters).

Crawl (Rastejantes) , que eu honestamente esperava que fosse apenas um filme de horror barato cheio de clichês, junta-se a este último grupo e é, a par com Long Shot, a melhor surpresa de 2019 até agora. Em primeiro lugar, este não é um filme de horror típico, pelo menos tendo em mente os últimos exemplos do género.

Os leitores podem ir ao cinema à espera de algo semelhante a Annabelle Comes Home, mas com jacarés, logo é preferível moderar esses pensamentos. Não o colocaria neste género, mesmo que disaster-horror não seja exatamente uma má descrição.

É, definitivamente um filme de suspense, quase como um thriller de sobrevivência. Haley e Dave têm que lutar pelas suas vidas numa corrida contra um furacão e predadores fatais, logo não colocaria o mesmo de forma geral no género de horror. Passando para o que interessa…

Adoro este tipo de filmes. Carregados de suspense, sequências claustrofóbicas, enredo simples e filmado (principalmente) em apenas um local. Os leitores poderão pensar que, uma vez que é apenas uma localização para filmar com um conceito tão simples, é mais fácil no geral, mas não poderia estar mais longe da verdade. Com grandes orçamentos e várias localizações, realizadores e argumentistas podem esconder as suas falhas técnicas com efeitos visuais tremendos ou set pieces gigantes.

Em apenas um local, especialmente um tão pequeno como uma casa modesta, não há onde esconder. Se querem entregar uma história divertida e cativante, têm que escrever um argumento fascinante. Se querem fornecer cenas com jump scares assustadores e eficientes, precisam de mostrar alguma criatividade e provar que são filmmakers talentosos.

Alexandre Aja, que não tem propriamente uma filmografia notável, demonstra que, mesmo com uma ideia tão simplista e de pouca duração, é possível ser tão ou mais divertido do que um enorme blockbuster. Menos de 20 minutos e já nos encontramos em ação constante.

Existe backstory e caraterização suficientes da protagonista para o público não só se preocupar com Haley, mas também para entender que habilidades ela possui que irão ajudá-la a sobreviver ao que vem a seguir. Pequenos detalhes como o zoom no trancar de uma porta, no fecho de uma janela, no movimento de um móvel… Cada imagem tem significado porque afetarão a história mais tarde.

Aja não filma algo apenas “porque sim” e isso é uma qualidade que muitos realizadores têm dificuldade em aprender ou aplicar, uma vez que sentem que o tempo de execução precisa de estar perto das duas horas.

Depois de tantos filmes absurdos, clichê, cheios de sequências com jump scares horrivelmente realizadas em filmes de horror recentes, finalmente recebemos um filme onde o realizador sabe como realmente assustar as pessoas e fazê-las saltar das suas cadeiras.

Não existe aquele som ridiculamente alto da banda sonora para elevar o susto. Não há demónios ou monstros bem na frente do ecrã, a gritarem que nem loucos. Há, sim, a sensação constante de estarmos na ponta do assento e existem momentos particulares genuinamente assustadores, onde o fator surpresa (Aja não segue os timings previsíveis da maioria das cenas de horror) e a criatividade por detrás da câmera são irrepreensíveis.

Obviamente, os efeitos especiais e a produção artística não são nada de impressionante. Os jacarés parecem muito reais e esse era o objetivo principal, logo missão cumprida. Além disso, sendo Rated-R, ajuda o filme a entregar ataques bastante sangrentos dos jacarés e os ferimentos que as personagens sofrem são visualmente perturbadores e repugnantes (isto é um elogio). Filmar em água é extremamente difícil, especialmente num espaço tão confinado.

No entanto, Aja e a sua equipa foram capazes de produzir um filme onde se dá para entender tudo o que está a acontecer durante toda a sua duração.

Kaya Scodelario e Barry Pepper oferecem grandes performances e mostram uma química incrível. As personagens têm desenvolvimento suficiente, mesmo que não tenham guiões muito imaginativos. Crawl é um daqueles filmes onde não consigo apontar uma “falha” preeminente, pois é “bom” em todos os aspetos.

Claro, há sempre um par de momentos raros de extrema sobrevivência, onde os leitores poderão pensar “ele/ela deveria estar morto“, mas é uma experiência tão entretida e cativante no cinema que podemos admitir uma ou duas cenas over-the-top. Não é como The Meg, onde cada momento é absurdamente irrealista. O sucesso da parte fictícia de um filme de ficção depende da sua base de realismo e dos seus limites. Se estes não são bem estabelecidos, então o filme vai tornar-se confuso e o público não saberá o que acreditar ou não.

No final, Crawl é uma das melhores surpresas de 2019 e definitivamente recomendo a vê-lo nos cinemas. Com protagonistas excelentes e um conceito simples e direto, Alexandre Aja oferece um filme divertido, repleto de suspense, claustrofóbico e tecnicamente criativo. Finalmente, alguém que sabe como trabalhar uma câmera e fornecer sequências genuinamente assustadoras.

Esperançosamente, espero que possa catapultar Kaya Scodelario para agarrar um papel importante num filme mais impactante. Não aponto quaisquer “falhas”, é simplesmente um “bom filme”. Com um orçamento tão baixo, deêm uma chance a esta película e vejam-na em vez de um enorme blockbuster que provavelmente irá deixar-vos desiludidos com os inúmeros clichês e o foco extremo na ação absurda ou set pieces titânicos como substitutos de uma boa história.

Bom trabalho, Paramount!

Nota: 3.5 Estrelas

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