Crítica – “Aladdin”

por Manuel São Bento

Uma emocionante e vibrante adaptação live-action do clássico de animação da Disney, eis o entusiasmante conto do charmoso ladrão Aladdin (Mena Massoud), da corajosa e determinada princesa Jasmine (Naomi Scott) e de Genie (Will Smith), que poderá ser a chave para o futuro deles. Este é o 11º remake live-action da Disney de um filme de animação original e o 9º desde o início da nova década.

Que surpresa maravilhosa! Não assisti a qualquer trailer ou clipe promocional, mantive-me completamente afastado de todo o marketing, mas não me consegui esconder do feedback negativo que as redes sociais foram apresentando durante estes últimos meses. Uma boa parte da Internet estava cética em relação a como Will Smith seria capaz de interpretar Genie, como Mena Massoud e Naomi Scott não eram as melhores escolhas para o elenco, e como o remake honraria e respeitaria as suas raízes.

Para alguém que não sabia o que esperar, sinto-me bastante satisfeito com a abordagem de Guy Ritchie ao recontar esta história famosa. Todos os receios descritos acima são obliterados por um elenco mágico e eles são quem leva o filme a porto seguro.

Começando com uma das duas performances de destaque: Will Smith como Genie. Oferece uma prestação indiscutivelmente única e divertida como a entidade azul. Pela maneira como ele se move e fala, não há absolutamente nenhuma forma de alguém criticá-lo por tentar copiar Robin Williams. Smith faz o seu próprio papel e funciona soberbamente. O melhor elogio que se pode dar é de que senti o mesmo sobre Genie neste remake do que senti no original: cada vez que ele não estava no ecrã, queria que ele voltasse imediatamente. No original, Genie aparece sempre nos momentos certos, cada vez que o ritmo começava a abrandar em demasia.

Neste remake, os períodos sem Genie são mais extensos, e o primeiro ato sofre um pouco com o seu ritmo lento (apesar de saltarem uma boa parte do original com uma espécie de montagem) e falta de sequências verdadeiramente divertidas. No entanto, a partir do momento em que a Cave of Wonders entra em jogo, é uma explosão de entretenimento até ao fim. O tapete mágico e Abu fazem um duo cómico excecional e são responsáveis por uma boa parte das gargalhadas.

Voltando a Genie, Ritchie e John August deram-lhe mais em termos de personagem em comparação com o original, o que acaba por ser uma das poucas melhorias realmente feitas ao original. Tendo em conta os mais de trinta minutos extra de duração, esperava-se mais tempo para o desenvolvimento da relação central do filme e que Jafar (Marwan Kenzari) fosse mais do que apenas um vilão cliché…

Bem, Jafar continua a ser um feiticeiro malvado que só deseja poder para governar tudo e todos. Infelizmente, tem mais tempo de ecrã que o seu antecessor, o que significa mais monólogos over-the-top de Kenzari e sequências tontas com o truque de hipnose. Por outro lado, Jasmine e Aladdin têm um guião totalmente desenvolvido, que é, de longe, a melhoria mais eficiente ao original. A relação cresce naturalmente e cada personagem recebe vários momentos para expressar os seus sentimentos e mostrar quem eles realmente são, especialmente Jasmine. Ela está diretamente conetada a um problema que, definitivamente, tornará este filme incrivelmente discutido, tanto entre a audiência como entre críticos, mas abordarei-o mais no final.

Independentemente dos personagens, Mena Massoud e Naomi Scott proporcionam performances impressionantes. Massoud é engraçado e charmoso como Aladdin, mas Naomi é um destaque absoluto. Agora, olhamos para este filme como apenas mais um remake da Disney. Em poucos anos, vamos olhar para Aladdin como o filme que lançou Naomi Scott para o estrelato. Ela é espantosamente notável como Jasmine. Não só a sua voz é consideravelmente surpreendente, mas a sua atuação é deveras brilhante.

Quanto às cantigas, Will Smith e Mena Massoud também são muito bons e os números musicais são outro aspeto que é surpreendentemente de deixar o queixo caído. “Prince Ali”, “Friend Like Me”, “A Whole New World” e a canção nova, “Speechless”, são bonitas, poderosas e a produção das duas primeiras são overwhelming no bom sentido.

Guy Ritchie é conhecido pelas suas sequências de perseguição muito fluidas e Aladdin a correr pela ruas de Agrabah são cenas muito bem filmadas como era de se esperar. No entanto, as longas coreografias durante esses momentos musicais são uma maravilha para contemplar, desde o primeiro até ao último, mesmo depois das palavras “The End” aparecerem.

Um remake perfeito é aquele que é capaz de manter a essência do original, enquanto sendo a sua própria versão. Ritchie faz um trabalho impressionante ao equilibrar esses pilares. Para quem adora o original e queria que o remake fosse cena-por-cena o recontar da história, todos os detalhes pequenos (desde palavras-chave a momentos de personagem importantes) estão presentes neste filme.

Para aqueles que queriam ver algo diferente, há mudanças menores mais do que suficientes em relação a como a história prossegue (ordem dos eventos, mais desenvolvimento de personagens) ou mesmo como termina, o que me conduz à tal situação polémica mencionada anteriormente.

Sempre que uma agenda política ou social é inserida num filme, as pessoas não se importam se é bem escrito ou não. Simplesmente, não querem nenhuma dessas coisas em qualquer filme e apoio essa atitude. Hollywood precisa de parar de tentar colocar algo politicamente ou socialmente correto em todos os filmes, só porque sim. Aladdin (2019) tem uma mensagem social óbvia e usa uma das personagens principais para afirmar essa mensagem claramente.

O dilema é o seguinte: tendo em mente a personagem em questão, como esta é escrita, e o que fazem para enviar essa mensagem social, não vejo qualquer problema. Sim, um monte de gente vai pensar exatamente o oposto e crucificar o filme. Costumo fazer o seguinte exercício mental: “Faz sentido com a história/personagem? É apenas um único momento durante o filme (provando que pode ser muito forçado) ou desenvolvem a ideia? Se fosse um filme original, estaria sequer pensando sobre isto?”

Sim. Desenvolvem a ideia. Provavelmente não. Estas são as minhas respostas e é, por isso, que me encontro do lado positivo deste assunto prestes a ser fortemente discutido durante os próximos dias. É necessário começar a abrir as nossas mentes a estes ajustes modernos de clássicos pré-século-XXI.

Usando Dumbo (1941) como exemplo: este é provavelmente o filme mais racista da Disney de sempre, com discriminação extrema, desrespeito total para com os animais, pontos de enredo induzidos por álcool e muitas mais histórias moralmente e socialmente erradas. Não existe qualquer possibilidade de um filme como este ser lançado hoje em dia! Logo, obviamente, Dumbo (2019) tinha que ser extremamente diferente daquele show de racismo de sessenta minutos.

Aladdin (1992) também tem um aspeto particular que não se encaixa assim tão bem na cultura atual. Não é ofensivo nem perto disso, mas, se fosse lançado agora, haveria com certeza um grupo de pessoas a queixar-se. Aladdin (2019) tenta-se adaptar e, apesar de ter tentado em demasia, há que apreciar o esforço, até porque, pelo menos, faz sentido. É apenas uma pequena mudança na história principal e na personagem em questão, por isso, não deve afetar a visão geral do filme. Se “Speechless” não tivesse sido criada, não haveria qualquer problema, mas é impossível negar que, mesmo que a música soe muito bem e as letras sejam impactantes, é esticar a corda… Naomi Scott interpreta-a lindamente, apesar disso.

Visualmente, o filme é deslumbrante. Agrabah é um deleito absoluto que fará com que as bocas dos fãs hardcore abram continuamente, cada vez que um novo local for mostrado. Ritchie passeia a câmera pelas ruas de Agrabah lindamente de forma a mostrar o trabalho incrível da sua equipa de produção, a maioria das vezes através de takes longos e fluidos. Desejo (no pun intented) que ele tivesse controlado o ritmo e tom do filme melhor. Os períodos sem Genie são muito longos e Ritchie não deveria arriscar uns níveis de tédio tão altos.

Ao todo, Aladdin (2019) sucede em equilibrar os dois pilares de qualquer remake: mantém a verdadeira essência do original enquanto faz a sua própria versão. Will Smith enterra os céticos online com um desempenho super divertido e único como Genie, mas é a química palpável entre Naomi Scott e Mena Massoud que surpreende tremendamente. O último é excelente como Aladdin, mas Naomi tem aqui a sua melhor prestação da carreira, que definitivamente a levará para palcos ainda maiores. Guy Ritchie prova que é um realizador fantástico, entregando belas sequências de um take juntamente com números musicais excecionalmente divertidos e bem coreografados.

Tecnicamente, a produção e a cenografia são surpreendentes, mas o tom e ritmo do filme não são tão equilibrados como deveriam ter sido, o que torna o tempo de execução demasiado longo.

Em relação à história, as pessoas vão-se sentir incrivelmente divididas. A maioria do argumento é idêntico ao seu antecessor, mas a tentativa da Disney de forçar uma mensagem social não vai ajudar o filme, de todo. Mesmo fazendo sentido e sendo apenas uma pequena mudança, não deixa de ser desnecessária e pode até mesmo esconder o brilhante desempenho de Naomi, o que seria uma enorme desilusão. Jafar incomoda muito mais do que qualquer uma destas situações.

No entanto, Ritchie e John August não merecem nada para além de elogios por tentarem o seu melhor em adaptar um original arriscado e cumprir com sucesso, na sua maioria. Espero que tenha imenso sucesso na bilheteira. É realmente um diamante (em bruto).

Nota:3.5 Estrelas

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