Casa do Prego: Um clássico familiar e sempre renovado, na Doca de Santo

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30 anos depois de abrir junto ao Tejo, o Doca de Santo apresenta a Casa do Prego, um novo conceito que presta homenagem à sua história.

Há lugares em Lisboa que fazem parte da nossa memória coletiva, e a Doca de Santo Amaro, em Alcântara, é indubitavelmente um deles. É nesta zona, localizado nos antigos armazéns sob a imponente estrutura da Ponte 25 de Abril – com uma esplanada invejável sobranceira ao Tejo -, que encontramos o Doca de Santo, restaurante gerido pelo Grupo Capricciosa que continua a ser o porto de abrigo predileto de famílias inteiras, casais e pais com crianças pequenas que procuram a segurança da zona pedonal e o icónico parque infantil.

O espaço conjuga uma atmosfera cosmopolita e familiar, sendo muito procurado, pela proximidade a zonas pedonais seguras e áreas de lazer para os mais novos. Destaca-se também pela sua versatilidade, funcionando tanto como um ponto de encontro animado para refeições descontraídas em grupo, como para repastos de fim de semana em família, onde a oferta gastronómica cruza pratos portugueses de conforto com petiscos e novidades dinâmicas, como o conceito dedicado aos pregos que agora ganha destaque na carta, com o sugestivo nome de Casa do Prego.

O prego ocupa um lugar próprio na Doca de Santo desde 1995, mas não nasceu como um prato elaborado, nem foi pensado para impressionar pela apresentação. Nasceu na frigideira, passou de mesa em mesa e acabou por se fixar na memória de quem frequentou a casa. Com o tempo, deixou de ser apenas uma opção do menu para se tornar uma referência: simples, suculento e feito para a quem volta.

Portanto, nao se trata de uma mudança de nome, mas sim de um conceito integrado no próprio espaço e centrado num dos maiores ícones da gastronomia, da “cultura de tasca” ou “de petisco” portuguesa. O que importa é ir alcançando um equilíbrio harmonioso entre a partilha descontraída e o conforto acolhedor da tradição, o que nos parece que foi conseguido.

A carta d’A Casa do Prego revela uma proposta eclética e pensada para diferentes momentos de partilha, sendo que todas as “especialidades” e “novidades” estão devidamente assinaldas na carta. São elas, entre o que citámos, os novos Preguinho de Alcatra com Molho 95, Preguinho de Alcatra com Molho XXI, Preguinho de Atum e o Trinchadinho de Novilho, também conhecido como Prego Familiar, que foi pensado para o centro da mesa e para ser dividido sem pressa.

Mas antes dos pregos propriamente ditos, a nossa experiência iniciou-se com o couvert. Pode-se dizer que honra rigorosamente o produto nacional, onde saltam à vista os tons quentes e rústicos que compõem a mesa, neste caso com o pão de Mafra, com o seu miolo alveolado e côdea estaladiça, e o pão de azeitonas, que chegam prontos para serem degustados com um trio de manteigas artesanais: a simples manteiga temperada com sal estaladiço, uma versão baseada na frescura dos coentros recém-picados e uma terceira manteiga com o toque profundo, fumado e untuoso de chouriço- foi justamente esta última que mais se destacou ao nosso paladar. O outro elemento imprescindível foi, evidentemente, o das clássicas azeitonas marinadas em azeite e ervas, para abrir o apetite.

Enquanto isso, escolhemos o vinho, o Esporão Colheita 2025, um vibrante tinto biológico aromático que se destaca pelo seu método de vinificação e estágio, que decorre em cubas de betão. Este processo técnico permite preservar ao máximo a frescura, a pureza da fruta e a expressão genuína do terroir, mantendo o perfil autêntico e natural do vinho sem a interferência da madeira.

Entre os diversos cocktails e mocktails tropicais refrescantes, pedimos um, o Gisele, que resulta esplêndido à mesa pelas suas camadas visuais em tons de amarelo e vermelho contrastando com o gelo picado. Para experimentar duas das entradas, mandámos vir os Pastéis de Massa Tenra e as Gambas à Doca de Santo. Os pastéis estão merecidamente assinalados como especialidade: apresentam um recheio de carne de novilho suculenta e macia, muito bem cozida e apurada, com um gosto único. As Gambas apresentam-se fritas em azeite temperado com alho, malagueta e coentros; frescas, já descascadas.

Entretanto vieram para a mesa os pregos. Ora, os Preguinhos são o verdadeiro conforto, com toda a suculência no pão. Na nossa visita, experimentámos duas das grandes novidades que prometem converter até os apreciadores mais exigentes de carne.

Começámos pelo Preguinho de Alcatra com Molho XXI, isto é, com o molho da carne. Houve alguma indecisão entre esta escolha e o Preguinho de Alcatra com Molho 95, em que se destacam as natas, mas não nos arrependemos. De uma forma ou de outra, a suculência e o sabor estavam garantidos, simplesmente o primeiro prato é menos lipídico, pelo tipo de molho que apresenta.

Aqui, o grande protagonista é de facto o molho de carne brilhante e translúcido, apurado lentamente e carregado de sucos naturais. O contraste entre a crosta selada e bem tostada da carne, o tom rosado e sumarento do seu interior e o pão levemente embebido neste molho rico cria uma verdadeira explosão de sabor.

A carne de alcatra, cortada na espessura ideal para garantir a máxima tenreza, surge incrivelmente suculenta e macia, permitindo que o molho humedeça o miolo do pão sem nunca lhe comprometer a estrutura ou a crocância exterior. É uma proposta profundamente reconfortante, assente em sabores redondos e equilibrados, como as batatas palito, que bem apetece molhar no fundo da frigideira, como manda a tradição.

Por falar em tradição, o outro prato que experimentámos foi o icónico Prego do Lombo à Portuguesa, servido na frigideira, tal como o anterior. Trata-se de um bife do lombo alto e suculento, ladeado por batatas fritas às rodelas, uma fatia generosa de presunto e coroado com um ovo estrelado perfeito.

Tudo isto é regado pelo tradicional molho à portuguesa, onde o alho, o louro e o vinho branco se fundem para criar um fundo denso e cheio de carácter que apela, inevitavelmente, ao ritual de molhar o pão. A confeção de tudo isto está a cargo do chef João Novo, que assume a preparação das propostas associadas à Casa do Prego. Para o chef, o prego é um dos produtos mais simples e reconhecíveis da cozinha portuguesa, podendo ser desenvolvido através de novas interpretações sem perder as características que o definem.

Depois, ficou provado que as sobremesas continuam a ser outro trunfo da Doca de Santo. Se os pregos convencem pela suculência e pela linha tradicional de confeção, o capítulo final das sobremesas revela-se um verdadeiro desporto da doçaria, no qual se destaca o contraste entre o doce e o salgado.

A Tarte do Lat.A, que é uma delícia famosa, foi uma autêntica descoberta, para nós. Surge no prato com uma certa geometria visual. A sua base de massa quebrada, dourada, amanteigada e estaladiça, serve de suporte a um recheio denso, rico e guloso de doce de leite. O topo é elegantemente coroado com uma espiral geométrica de espuma de caramelo, cuja textura leve e aérea cria um contraponto fascinante com a riqueza e a densidade do recheio. O toque de mestre, contudo, reside na frescura subtil das raspas de lima e no estalar surpreendente dos cristais de flor de sal, elementos que cortam com precisão a doçura, para não se tornar excessiva.

Já o Chocolate à Doca de Santo, servido num copo transparente que permite contemplar as diferentes densidades e camadas de cor, é a perdição absoluta para os devotos do cacau. Na base, encontramos uma mousse de chocolate intensa, densa e aveludada; ao centro, surge o choque refrescante de um gelado de chocolate igualmente cremoso; e no topo, sobressai a textura de um bolo-esponja de chocolate. Mais uma vez, a flor de sal surge delicadamente no topo, fazendo sobressair as notas amargas, complexas e profundas do cacau de boa origem.

Portanto, a Casa do Prego na Doca de Santo prova que é plenamente possível integrar um conceito num clássico da restauração sem lhe perder a alma nem a identidade. A proposta recupera o prego como elemento de referência da carta do restaurante, dando-lhe diferentes formas de apresentação sem o afastar da sua matriz tradicional.

Alexandre Lopes
Alexandre Lopes
Licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria, sou um dos fundadores do Echo Boomer. Aficcionado por novas tecnologias, amante de boa gastronomia - e de viagens inesquecíveis! - e apaixonado pelo mundo da música.
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