Análise – Bloodstained: Ritual of the Night

por João Canelo

Depois de uma sucessão de lançamentos desapontantes resultantes de campanhas de crowdfunding, de onde podemos identificar títulos como Mighty Nº 9 e Yooka Layle, os olhos estavam postos em Koji Igarashi e em Bloodstained: Ritual of Blood, o seu novo projeto, agora longe da Konami.

Declarado como um regresso às origens e uma verdadeira sequela espiritual para a série Castlevania, nomeadamente para os títulos metroidvania como Symphony of the Night, Bloodstained tinha muito para provar e um público exigente (um pouco desconfiado) para conquistar. Mas depois das minhas horas com Bloodstained, não só posso finalmente declarar que é um excelente jogo de ação, como é o melhor projeto liderado por Igarashi.

E para tal, Igarashi só teve de limar as arestas e dar-nos uma jogabilidade mais apurada e variada, especialmente no que toca ao mundo do jogo e ao número de habilidades e missões secundárias a que temos acesso. Bloodstained não só é familiar e nostálgico, como também é novo e refrescante, sem nunca perder o charme clássico com que se banha. Assume a sua estrutura de ação 2.5, mas injeta uma sensibilidade mais próxima dos RPGs para construir a sua campanha. Para além da exploração, é possível encontrar personagens secundárias e novas missões que nos levam numa aventura através de todas as zonas do jogo, seja em busca de itens raros ou à procura de inimigos para eliminar.

Bloodstained é muito completo e está recheado de itens, equipamentos e habilidades para descobrirmos. Apesar de seguir um modelo muito próximo dos outros jogos do género, ao dividir o seu mundo por zonas cheias de personalidade e ao limitar a exploração através do desbloqueio de novas habilidades, Bloodstained parece dar-nos um mundo mais interligado e condensado, onde a cada momento estamos a descobrir algo novo.

A variedade de cenários é impressionante e o número de segredos é muito aliciante, especialmente para os fãs do género. Através de um excelente design, tanto a nível da direção de arte como no layout dos cenários, nunca deixa de ser divertido explorar o mundo de Bloodstained e de navegar as suas salas verticais em busca de inimigos e de baús cheios de tesouros.

Apesar de Bloodstained nunca esconder o seu baixo orçamento, encontrámos momentos em que a direção de arte suplantou alguns dos seus problemas técnicos e limitações gráficas para nos dar um mundo gótico repleto de cores fortes e de um jogo de iluminação interessante. É certo que Bloodstained não é uma obra capaz de nos cortar a respiração a nível técnico, mas a sua fluidez e paleta de cores mantêm-nos investidos no seu mundo e na demanda de Miriam.

A aposta em modelos 3D foi uma escolha arriscada, especialmente para um género como o metroidvania, onde os sprites e cenários 2D marcam a maioria das criações – até as mais recentes como Chasm e Dead Cells –, mas Igarashi e a sua equipa conseguiram contornar alguns dos problemas associados à presença da dimensão adicional ao dar aos cenários uma maior sensação de profundidade e uma variedade de tons entre as zonas do jogo. Longe de ser perfeito, mas eficaz.

Mas do que serviria o bom design, o ambiente e a banda sonora cativante, ainda que um pouco repetitiva, se a jogabilidade não fosse entusiasmante, intuitiva e muito precisa? Felizmente, Bloodstained mantém a sua aposta na fórmula clássica do género, mas dá-lhe um sistema de controlos mais apurado e com um tempo de resposta perfeito, tanto em combate como na movimentação de Miriam. Os saltos são perfeitos, muito rápidos e responsivos, o desvio é eficaz, ainda que tenha uma pequena paragem (de um segundo, se tanto) que não nos deixa abusar da sua utilização, e a combinação entre ataques rápidos e habilidades especiais é frenética e uma constante no combate e na exploração.

Bloodstained é tão satisfatório em movimento que irão sentir-se sempre em controlo e com uma vontade sincera em explorar e em combater em todos os momentos da campanha. É certo que existe uma certa repetição no que toca ao tipo de inimigo que encontramos, mas Bloodstained nunca deixa de ser divertido e empolgante, apresentando uma jogabilidade focada e limada onde todos os seus elementos se complementam perfeitamente.

Se nos focarmos no combate, encontramos uma variedade impressionante de armas e de habilidades especiais que poderemos combinar a qualquer momento. O armamento é vasto e podem utilizar espadas, chicotes, machados e lanças, mas também armas de fogo como espingardas e pistolas, todas elas com combinações secretas – que poderão encontrar ao longo da campanha, escondidas em livros.

Cada arma tem, como seria de esperar, as suas vantagens e desvantagens, especialmente no que toca à sua velocidade e alcance, mas Bloodstained motiva-nos a alterar o equipamento regularmente, uma filosofia de design que se faz sentir na possibilidade de criarmos armas e armaduras através de alquimia. É um jogo em constante evolução e com um ritmo impressionante no que toca à descoberta de segredos e de novas armas, algo que se torna aliciante à medida que nos aproximamos do fim. Com o combate a ser muito rápido, mas difícil, iremos querer encontrar tudo e dar a Miriam o melhor leque de habilidades possíveis.

E por falar nas habilidades, Bloodstained apresenta um número impressionante de poderes e novos ataques que podemos desbloquear ao longo da campanha. Denominadas de Shards, estas habilidades podem ser adquiridas através da eliminação dos vários inimigos, dando-nos a oportunidade de absorver os seus poderes. O sistema fez-me pensar em Aria of Sorrow, clássico do GBA lançado em 2003, com Miriam a poder utilizar vários tipos de habilidades que podem ser equipadas rapidamente. Alguns poderes são passivos e influenciam o leque de ações da personagem, como o famoso duplo salto, mas todos têm a sua utilidade dentro e fora do combate.

Os Shards são um dos pontos fortes da jogabilidade e é essencial não só perdermos tempo em desbloqueá-los, algo que só acontece de forma aleatória e através da eliminação dos monstros, mas também em evoluí-los através da alquimia para melhorarmos o seu poder de ataque. No geral, Bloodstained quer que utilizemos estas habilidades especiais constantemente e que as combinemos em combate, adicionando o recarregamento automático do MP para nos incentivar nesta conciliação de ataques.

Outra mecânica que irão reconhecer, se forem fãs de Symphony of the Night, é a possibilidade de invocarem espíritos para vos ajudar em combate. Estes Familiars, que encontrarão ao longo da campanha, vêm em vários formatos, desde fadas até a espadas ou armaduras assombradas, e podem ser evoluídos à medida que combatem. Os espíritos lutam independentemente, sem qualquer input do jogador, e podem ainda defender e parar alguns dos ataques dos inimigos. Os Familiars são mais um elemento interessante na jogabilidade de Bloodstained que o tornam num jogo especial, ainda que sempre tão familiar.

Apesar da eficácia dos controlos e do excelente design dos cenários, Bloodstained peca na falta de originalidade dos inimigos. Apesar de apresentar vários tipos de adversários, alguns dos seus desenhos são desinteressantes e não têm qualquer personalidade, algo que se torna evidente à medida que avançamos na campanha. Este é, no entanto, um problema menor, juntamente com a repetição inerente à jogabilidade, mas a má performance, por outro lado, é algo que devo sublinhar.

Para além de alguns bugs visuais, como itens e personagens que trespassam paredes, Bloodstained sofre de slowdowns em algumas das suas zonas e em momentos de maior ação. O desbloqueio de novas habilidades, por exemplo, é sempre acompanhado por uma redução significativa do framerate, prejudicando o momento em si. Os loadings também são um ponto fraco e prejudicam o ritmo do jogo ao deixar-nos num ecrã sem grande personalidade à espera que a maldita barra de carregamento chegue ao fim.

Bloodstained: Ritual of the Night não é perfeito, mas é um excelente jogo de ação que consegue conciliar a sua jogabilidade clássica e nostálgica com mecânicas RPG e um maior foco na exploração e na descoberta de segredos. Com uma jogabilidade limada e muito variada, inúmeras habilidades, um design perfeito onde a dificuldade parece estar constantemente equilibrada e que Igarashi complementa com uma presença sólida de pontos de gravação (sem gravações automáticas), Bloodstained é um sonho tornado real para todos os fãs de metroidvanias e um regresso absoluto de um dos maiores mestres do género. Se adoram Castlevania, não percam Bloodstained.

Este jogo (versão para PS4) foi cedido para análise pela 505 Games.

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