Baroness no LAV – Lisboa Ao Vivo: reduzidos a trio acústico mas intactos na tenacidade

Dois anos depois de se terem estreado na capital portuguesa – num concerto bem apinhado no Paradise Garage, que certamente está na memória de quem marcou presença –, os Baroness estiveram de regresso na passada quarta-feira, dia 27 de junho, embora num formato diferente por força das circunstâncias: dias antes do concerto, já na reta final da digressão europeia, o quarteto viu-se sem o seu baterista Sebastian Thomson que, devido à imprevisibilidade duma emergência familiar, teve de regressar a casa por alguns dias.

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A banda, ainda assim, decidiu não cancelar o concerto com tão pouca antecedência e, mesmo sem margem para grandes preparos, optou por transformar um percalço numa oportunidade para se reinventar ao apresentar versões acústicas das suas músicas. Esta súbita mudança de planos, chamemos-lhe, foi devidamente explicada pelo próprio John Baizley assim que os três músicos subiram ao palco – se é que havia alguém que ainda pudesse ser apanhado de surpresa, já que a promotora Prime Artists se socorreu de todos os meios para que o público chegasse ao local informado. Antes disso, no entanto, houve tempo para a abertura proporcionada pelos Process Of Guilt.

Por esta altura, a banda eborense já não deveria ser novidade para o público português, ainda que, por vezes, teime em sê-lo: formados em 2002, já contam com quatro registos de longa-duração – dos quais o último, Black Earth, do ano passado, foi integralmente a base de atuação – e têm, como banda de apoio e em nome próprio, tocado por diversas vezes em todo o país e até lá fora. É compreensível, contudo, que o peso monolítico do seu doom conspurcado de sludge e de influências de industrial mescladas com laivos noise rock não fosse o mais direccionado para anteceder uma banda que, mesmo que tenha no seu âmago uma ou outra referência em comum, já se tenha distanciado dessa similaridade.

Não obstante, nem isso nem a meia casa (que foi sucessivamente se compondo) os demoveu de demonstarem cabalmente o porquê de serem uma das melhores bandas portuguesas de música extrema: seguindo a ordem do referido disco, percorreram “(No) Shelter”, “Feral Ground”, “Servant”, “Black Earth” e “Hoax” numa performance crescentemente demolidora e abrasiva, onde ao peso do riff é dada toda a ordem de grandeza, demarcado por ritmos pujantes e arrastados aos quais é impossível negar o merecido headbang. No fim, não vale sequer a pena sobrepor quaisquer palavras ao feedback.

Chegada a hora dos americanos, vemos John Baizley, guitarrista e vocalista, a sentar-se à direita do palco, munido de uma guitarra acústica; Gina Gleason, a nova guitarrista do coletivo, a sentar-se à esquerda; e no centro, dado o inicial espaço vazio, viria a sentar-se Nick Jost para, à falta de secção rítmica, complementar o ambiente com teclados. Foi assim que, depois da já mencionada contextualização do que se iria passar ao longo das onze músicas, atacaram em formato acústico as cinco primeiras músicas do set, todas elas de Yellow & Green, de 2012: “Foolsong”, “March To The Sea”, “Green Theme”, “Cocainium” e “Little Things”. Se a primeira já era análoga, e a terceira era de si instrumental, é nas restantes que conseguimos delinear a suavidade com que são impostos os arranjos a músicas que se sabem mais pesadas. A boa disposição do mentor da banda, que se revelou extremamente comunicativo, veio intercalar ao revelar o quanto estava a gostar de Lisboa, dada a chance de sentir a sua vivacidade sem somente vir cá tocar novamente e ir embora, como tantas vezes acontece numa banda em constante digressão.

Aproveitou para relembrar o quão especial lhes tinha sido a data de há dois anos – “devem ouvir isto imensas vezes mas é mesmo sentido” –, brincou com o facto de que as músicas assim sem bateria e sem baixo até soam “mais tristes, mas que se lixe, gosto delas assim!”. Num momento mais sério, a recontar o impacto da tragédia de 2012 que todos os presentes estariam a par – o sério acidente rodoviário no Reino Unido que quase ditou o fim da banda –, abriu-se perante o público e confessou o quanto a experiência lhe permitiu escrever o que apelidou de uma música de amor, em jeito de agradecimento a todos os que estiveram lá para ele no processo de reabilitação e recuperação. Seguia-se assim “If I Have To Wake Up (Would You Stop The Rain)”, de “Purple”, no que foi o primeiro instante verdadeiramente arrepiante, entre as melodias ouvidas e as palavras aclamadas no seu refrão.

Do mesmo registo, ouvir-se-ia ainda a intro “Fugue” para a também imensamente épica “Chlorine & Wine”, onde as vozes da plateia voltam a dar de si num apoio ao trio que não se podia mostrar mais reluzente de alegria. Ocasião para mais umas gargalhadas, quando Baizley brinca que basicamente transformou as suas “músicas rock em músicas country”, e volta ao penúltimo disco com “Board Up The House” e a majestosa “Eula”. Quando já havia anunciado que seria essa a última música, e com os três a abandonarem o palco, a aclamação foi tal que pouco depois estariam a voltar para tocar “Shock Me”, single maior do último álbum.

Estava consumada a noite, entre sing-alongs e sorrisos espelhados no semblante de todos, que a oportunidade de ver Baroness neste formato ultrapassara as expetativas. Se hoje em dia o seu sludge rock, se o pudermos categorizar assim, até os aproxima mais de uns Thin Lizzy, é igualmente bonito ver uma banda que não tem medo de se lançar ao desafio e saber readaptar-se com elegância perante a adversidade. Quem não foi por receio da falta de peso, é bom que não se arrependa de não ter visto algo verdadeiramente notável.

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