Angel Olsen no Capitólio – Show de aniversário

Grande excitação para ouvir ao vivo um dos grandes discos do ano de 2019, por uma das grandes artistas de última década: All Mirrors, de Angel Olsen, ia servido em grande escala, com a natural de St. Louis a ser acompanhada por um conjunto de seis elementos, com cordas a predominar.

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Desde logo, uma mudança radical face à passagem em Lisboa em maio do ano da graça de 2018, quando se apresentou rigorosamente a solo no Teatro da Trindade, com apenas uma guitarra e um copo de vinho a acompanhar. Curiosamente, esses foram os dois espetáculos que fecharam a tournée de então, com Angel a confessar ao público um certo cansaço.

Agora, o espetáculo do passado dia 22 de janeiro era o primeiro da nova digressão. No essencial, porém, ou seja, no amor de Portugal por Angel, mudou-se pouco, sendo este tão forte como sempre. Esta nova dupla demonstração por Lisboa esgotou há muito, apesar da lotação do Capitólio em pé ser bem mais generosa. No Porto, no Hard Club, o cenário foi o mesmo.

Tempo de 1ª parte, com Hand Habits, agrupamento liderado pela jovem Meg Duffy, norte-americana com carreira de prestígio enquanto guitarrista – colaborações com Weyes Blood, Kevin Morby ou The War on Drugs ficam bem em qualquer CV. Pratica-se por aqui uma folk de cariz confessional, de poucos floreados musicais. A imagem de fundo, qualquer escadaria de caracol de hotel de charme da viragem do século anterior, a suscitar romantismo. Simpático, mas de interação reservada com os presentes que, de forma regular, vão entrando na sala do Parque Mayer, o trio pediria um palco mais próximo da plateia para gerir de forma mais completa a empatia necessária para estas filigranas.

Após pausa de uma tradicional meia hora, a estrela com voz de características correspondentes ao nome próprio entra em cena, à frente do anunciado septeto. Além de primeiro espetáculo, é dia de aniversário, e o público canta com timidez doce um Parabéns a Você em estrangeiro e balões dourados e pretos a saltam pelo ar, a prestigiar as 33 primaveras de Angel Olsen.

Logo nos primeiros minutos, uma das expetativas maior materializa-se. “All Mirrors” foi o single do disco com o mesmo nome e um dos socos no estômago recebidos com prazer no verão passado. Aqui é tocado com violino e violoncelo a acompanhar, dando o tom para a noite. De facto, à teatralidade do disco irá corresponder uma grande simplicidade de elementos performativos no palco.

Tal como na última vez, Angel volta a apostar-se no preto como imagem de marca, só que a luz dos candelabros da Trindade, que ligariam bem com a escada em caracol, foi agora substituída por um ambiente escruto como breu. Resulta mistério, mas também alguma distância, que a extrema simpatia e boa vontade de quem está de lado de cá e do lado de lá vai conseguindo a momentos quebrar.

Seja pelo sorriso, pelas constantes referências a Lisboa enquanto ponto de abrigo e potencial ponto de residência mais permanente ou pela gentileza do agradecimento a Sérgio Hydalgo, da Associação Zé dos Bois, Olsen não deixou de salientar a aposta contínua durante os últimos oito anos. É bonito.

Que não haja dúvidas, Angel Olsen é maravilhosa. Pela voz, notável, pela facilidade com que passa por entre vários registos, por tudo. Só que o Capitólio não é maravilhoso. Longe disso, e este concerto não faz sentido em pé, no meio de uma certa desolação apesar dos largos meses de bilheteira esgotada. Desde logo, pela desadequação da escala: uma caixa negra desmesurada para ser intimista, ao estilo desconfortável mas quentinho do aquário da ZdB, mas sem ser a caixinha de música da Trindade que serviu de palco ao concerto Olisiponense anterior. Ao contrário da arquitetura modernista do São Jorge, ali pertinho, o interior do Capitólio é um local descarnado da genialidade de Cristino da Silva.

Não que isto tenha sido o suficiente para estragar esta noite. Longe disso, até porque o som, valha a verdade, está muito bom, pelo menos para quem está instalado junto à régie, e temas de beleza tocante, como “Lark”, vão muito bem neste formato ensemble. A multidão fica silenciosa com o desfile a bom ritmo de vários marcos da carreira, com permissão para explosões de alegria com “Shut Up Kiss Me”.

Angel Olsen está no lote mais alto das nossas preferências. A conjugação astral do nosso próximo encontro há de ser a perfeita.

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