Análise – Travis Strikes Again: No More Heroes

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Há algo de fascinante quando um videojogo tem consciência de que é um videojogo, de que é uma plataforma, um meio de comunicação entre o jogador e o produto para lhe proporcionar experiências interativas menos convencionais.

A cultura popular está cheia de exemplos destes com séries, filmes e livros em que os seus protagonistas falam com a audiência quebrando a quarta barreira e, no caso os videojogos, estes são, como meio interativo, um dos melhores lugares para isso, porque, ao abrirem essas portas, elevam as expectativas dos jogadores para o que possa vir a seguir.

Travis Strikes Again: No More Heroes tenta quebrar essa barreira e durante uma boa parte do tempo consegue, até que a novidade do jogo eventualmente perde a força.

Este exclusivo para a Nintendo Switch é uma ode aos videojogos. Tão boa nesse aspeto que é o suficiente para recomendar a compra de uma Switch a alguns adeptos de jogos independentes e de pérolas obscuras.

Travis Strikes Again é um spin-off da série No More Heroes, criada por Goichi Suda, também conhecido por Suda51, responsável pela concepção da série em questão e de jogos concetualmente estranhos e aliciantes como Killer 7, Killer is Dead ou Shadow of the Damned.

Não são precisos mais do que 30 segundos para libertar um belo sorriso quando vemos outro jogo, Hotline Miami, a ser jogado num ecrã meio oculto. É logo aqui que percebermos que estamos prestes a jogar algo de muito especial, cheio de referências da cultura dos videojogos e de momentos em que os personagens e o próprio mundo quebram a quarta barreira.

Em Travis Strikes Again, o nosso protagonista, Travis Touchdown, procura viver uma vida calma e relaxada ao dar uma pausa na sua carreira de assassino, mas uma estranha personagem, Badman, surge para se vingar da sua filha.

Um breve confronto entre os dois provoca um estranho fenómeno paranormal e, inexplicavelmente, ambos são atirados para um mundo virtual dentro de uma consola de jogos onde são obrigados a cooperar. Desta forma, temos a oportunidade de escolher uma das duas personagens ou partilhar os Joycons com alguém no sofá.

Nas suas aventuras, Travis e Badman vão viajar por diferentes mundos inspirados em videojogos reais que contam com uma apresentação ajustada às suas influências, desde os jogos mais 8-bit, aos jogos com sequências CGI datadas dos anos 90, passando até por sequências analógicas saídas de cassetes VHS de filmes de grind-house.

Travis Strikes Again é um perfeito exemplo de style over substance, até porque, por baixo desta fantástica e autêntica apresentação, a sua jogabilidade e mecânicas tornam-se repetitivas ao fim de algum tempo, apresentando desafios diferentes apenas em algumas batalhas de bosses.

Entre sequências principais, temos um jogo que muda constantemente entre duas perspetivas, uma vista na terceira pessoa vista de cima e outra ao estilo de side-scrollers. Por vezes, dependendo dos jogos referenciados, o jogo oferece uma ou outra mecânica nova, ou um puzzle por resolver, mas, infelizmente, o modo como controlamos as personagens apresenta-se rapidamente limitado a um conjunto de movimentos e ataques que se podem escolher.

É possível criar perfis com diferentes poderes que podemos experimentar e usar em combate, mas, tirando os seus efeitos, não obrigam o jogador a manter uma ou outra habilidade para passar determinados desafios.

O jogo conta com uma apresentação no ecrã também interessante com a interface de informação a fazer de moldura ao aspeto 4:3 do mesmo, não nos informando da vida que temos e da energia das nossas armas, como dos ataques e combos que temos disponíveis.

Entre níveis, podemos relaxar e visitar o acampamento de Travis, local onde gravamos o jogo, podemos escolher repetir níveis anteriores e até mudar a nossa aparência, em particular a T-Shirt da nossa personagem, com imagens e logotipos de outros jogos. Infelizmente, esta oportunidade existe apenas como meio de referências gratuitas a outros videojogos, nada acrescentando ao jogo, especialmente quando são muito raros os momentos em que podemos ver as personagens com essas t-shirts.

Mais importante neste acampamento é a ponte que é feita entre os diferentes níveis. Para avançarmos no jogo, temos que ir explorar o mundo à procura dos próximos videojogos. Lamentavelmente, quando o fazemos, Travis Strikes Again espeta-nos com longas sequências de diálogos ao estilo dos códexes de Metal Gear Solid, com zero interação e muito humor.

Sim, as interações entre o diverso elenco de personagens muito peculiares têm piada, e as referências feitas e a escrita roçam ,por vezes, o genial. Mas a quebra de ritmo do jogo é tão grande e estas sequências tão longas que rapidamente estamos a carregar em skip para terminar.

Ainda que a escrita e carinho por videojogos seja grande e muito transparente em Travis Strikes Again, a sua apresentação através de longas sequências de diálogos e comentários filosóficos, juntamente com uma jogabilidade que basicamente não muda ao longo de todo o jogo, são os seus grandes pontos fracos.

Travis Strikes Again não é, de todo, um jogo para todos. Ainda assim, é difícil de ignorar os seus momentos deliciosos e a ação frenética deste título para a Nintendo Switch, que pode ser a pomada perfeita para quem está com comichão à espera do próximo título de No More Heroes.

Este jogo foi cedido para análise pela Nintendo Portugal.

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