Análise – Those Who Remain

Quem tem medo do escuro que acenda a luz.

Those Who Remain

Destino: Dormont. Uma pequena cidade no norte dos Estados Unidos da América onde coisas estranhas acontecem. Os seus habitantes desapareceram e parecem substituídos por figuras que se escondem no escuro. Há um crime por resolver e uma entidade sobrenatural à espera que seja feita justiça.

As influências desta aposta da portuguesa Camel 101 são claras, desde as obras de Stephen King, H.P Lovecraft, a séries como X-Files e Twin Peaks, de David Lynch, ou jogos como Alan Wake, da Remedy, ou o perdido P.T, de Hideo Kojima.

A lista é extensa, até porque todos eles partilham elementos temáticos e estéticos muito semelhantes entre si, mas Those Who Remain consegue, ainda assim, apresentar-se como uma aposta muito única e, quem sabe, até memorável, pelo menos dentro das produções nacionais.

Those Who Remain segue a história de Edward, um sujeito que, em tempos, tinha a vida perfeita, mas algo mudou quando perdeu a sua filha e a sua mulher. Com a sua vida a bater no fundo devido ao alcoolismo e a relações mais duvidosas, Edward encontra-se em Dormont em busca de redenção, mas a cidade parece tornar esse plano muito mais difícil do que ele estava à espera.

Apesar de lançado em 2020, Those Who Remain é um jogo muito old-school. É uma aventura narrativa na primeira pessoa que obriga à exploração e à leitura do ambiente à medida que vamos clicando em pontos de interesse, descobrindo pistas que tanto revelam informações importantes para o desenrolar da história, como são a chave para resolver puzzles e desafios. É, no fundo, um pouco como um point-and-click mais imersivo e dinâmico.

Se há coisa que admiro em Those Who Remain é a sua ambição e o quão contido o jogo tenta ser de acordo com as suas limitações e orçamentos. Este é um título independente, sem o flair e o brilho de altas produções, e deve ser visto numa lente mais leve.

Ainda assim, é de louvar o quão polido Those Who Remain é, no sentido em que está quase livre de qualquer tipo de bug ou glitch, recorrente em produções do género. No meu caso, só tive um ou dois problemas com controlos que deixaram de responder depois de morrer, mas nada que não se resolvesse com um reload.

Those Who Remain

Não é propriamente um jogo muito bonito, mas esforça-se para nos impressionar onde menos esperamos. Com uma palete escura e sempre em tons castanhos e cinzentos, Those Who Remain tem uma apresentação relativamente simples, mas que, volta e meia, dependendo da zona ou do nível, apresenta-nos ambientes extremamente detalhados e ricos. Enquanto as zonas exteriores são vazias e largas, os interiores são densos em objetos e adereços e com uma variedade enorme, contextualizada a cada área, como bibliotecas, esquadras da policia, igrejas, supermercados, casas, entre outros.

Há também um enorme foco a nível de efeitos de luz, reflexos e um estranho, mas admirável, uso de artes mórbidas e grotescas espalhadas pelos níveis. São tão cativantes como importantes para estabelecer o peso e o tom do mundo de Those Who Remain.

Ao longo do jogo, vamos visitando estas áreas, que funcionam como níveis ou capítulos com o seu início, meio e fim. Em cada um deles, temos que descobrir como avançar ou escapar, explorando as áreas, procurando chaves ou pistas, revisitando-os ou usando jogos de lógica de como aceder a divisões e outros pontos do nível. Além da exploração, e para tornar a experiência mais interessante, temos a resolução de puzzles, sempre variados e simples o quanto basta para nos fazer pensar.

Eu adoro puzzles e exploração em videojogos e gosto ainda mais deles quando estão de mãos dadas. Infelizmente, Those Who Remain é um pouco inconsistente na sua execução, com puzzles extremamente fáceis. Alguns são muito inteligentes, como, por exemplo, os que usam realidades alternativas; já outros são uma autêntica frustração, uma vez que parecem desenhados para serem difíceis (e que são resolvidos por mera sorte), mas acabam por sê-lo por questões meramente técnicas.

Those Who Remain usa a escuridão como mecânica. As zonas escuras escondem as figuras humanoides que nos consomem e, onde houver luz, estamos safos. Por apostar tanto na iluminação, o jogo conta com um excesso de escuridão, com valores de contraste que, por design, escondem imensos detalhes. Isto revelou-se um problema na minha experiência, especialmente quando, nas configurações, apenas podia mexer o slider de gamma, mantendo detalhes ocultos mesmo nas zonas mais escuras. E digo que é um problema porque alguma da exploração necessária ocultava pontos de interesse, como gavetas que guardavam documentos para a progressão.

Outro aspeto menos positivo são sequências onde algumas criaturas andam à nossa procura. Adoro a ideia de termos um stalker atrás de nós, mas, em Those Who Remain, estes fazem parte de puzzles de lógica. Até podem aumentar o risco e a tensão desses momentos, mas a sua inteligência artificial é muito irregular e esses momentos bastante aborrecidos. Acho que o jogo teria ganho mais em mantê-los de fora ou, então, com um ajuste nos checkpoints de acordo com a progressão feita nesses momentos, uma vez que, quando somos apanhados, voltamos muito atrás.

Those Who Remain

Mas voltando às coisas boas. Those Who Remain impressionou-me na sua promessa, no medo induzido pelo mundo e pelas suas criaturas sombrias. Os jump scares são difíceis de se fazer com a recompensa correta. Por um lado, podem cair no cliché e tornam-se repetitivos até perderem a força; por outro, podem existir só para nos chatear. Porém, Those Who Remain faz jump scares perfeitos sem grande esforço: basta o jogador virar a câmara para onde “não deve” durante a exploração e “buh”, as figuras no escuro fazem-nos arrepiar a espinha.

Estamos a navegar por uma área e algo de paranormal acontece, viramos uma esquina e vemos uma figura estática.. São imensos os momentos como estes e, mesmo que nos mentalizemos, é tão fácil perdermo-nos na imersão do jogo que qualquer coisa mais desconcertante nos assusta, como por exemplo a simples alteração de um quadro ou uma televisão desligada que, do nada, revela uma figura sombria. É incrível.

Those Who Remain é também um jogo com a duração certa. Grande e variado o suficiente para nos encher a barriga e pequeno o suficiente para se passar num dia, como um bom filme de terror. O medo induzido pelo mundo relativamente estático de Those Who Remain, juntamente com uma história interessante, com ramificações nas escolhas que tomamos, tornam o jogo aliciante e motivante para ir até ao fim numa só sessão.

Pode não ter o brilho e o polimento de outros grandes jogos, mas é extremamente eficaz na sua promessa. Um título a não perder para os fãs de horror.

Nota: Bom

Plataforma: PC, Xbox One e PlayStation 4
Este jogo (versão PC) foi cedido para análise pela Heaven Media.

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