Análise – The Sinking City

por João Canelo

Depois da adaptação de Call of Cthulhu, lançada em 2018, regressamos ao mundo e à mitologia de H.P. Lovecraft com um jogo de ação e investigação que é um passo em frente e três atrás. The Sinking City oferece muito para descobrirmos, dentro e fora da jogabilidade, mas é um projeto cheio de problemas e más decisões incontornáveis que condicionam a experiência da história e a exploração do seu mundo.

The Sinking City é um projeto aliciante. Aqui, a Frogwares começou por desenvolver um jogo em mundo aberto que nos leva a explorar a cidade de Oakmont, agora inundada. Com o mar a invadir a cidade, vários habitantes começam a sofrer de visões, e com o desaparecimento de uma tripulação, que investigava ruínas até ali escondidas, vários acontecimentos sobrenaturais espalham-se pelas ruas inundadas. É aqui que entra Charles W. Reed, investigador privado e a nossa personagem, em busca de respostas para os mistérios de Oakmont e para as visões que o enlouquecem.

A aposta no modelo open-world é, à primeira vista, interessante, com o jogo a dar-nos cinco distritos enormes que podemos explorar em busca de recursos que podemos utilizar para criar itens, além de missões secundárias. A cidade de Oakmont é fascinante a nível artístico, com as suas ruas inundadas e repletas de sinas de destruição e da vida marítima que conquista cada vez mais as habitações. As zonas são distintas e sentimos o seu tamanho à medida que descobrimos as suas ruas, seja a pé ou de barco, construindo, assim, um cenário misterioso e perfeito para desenvolver uma história inspirada pelo universo de Lovecraft.

O problema é que The Sinking City é um excelente exemplo de “mais é menos” e acaba por nos dar uma cidade grande, muito extensa e com uma direção de arte apelativa, mas igualmente vazia e desinteressante a nível da jogabilidade. Oakmont está restrita a um punhado de localizações que servem a campanha e raramente nos dá razões para descobrir mais através das suas ruas cinzentas. Os pontos de interesse estão demasiado espaçados para dar esta sensação de grandeza, mas condicionam os jogadores a utilizar o sistema de fast travel, disponível nas cabines telefónicas, para evitar a monotonia do deslocamento.

The Sinking City seria perfeito para uma só zona, mas muito detalhada e repleta de atividades para concluir, e não uma cidade aberta com espaços mortos. A Frogwares tentou contornar este problema ao dar-nos zonas infetadas, onde o número de monstros é maior, aliciando-nos com a expetativa de encontrarmos melhores recursos, mas é apenas uma miragem.

Apesar da aposta no mundo aberto ter sido demasiado ambiciosa, o mesmo não pode ser dito do foco refrescante na investigação, que The Sinking City coloca em grande destaque. Como um detetive privado, Reed tem de recolher todas as provas, interrogar suspeitos e vítimas e chegar à melhor conclusão possível, com o jogo a dar-nos sempre duas ou mais hipóteses de resolução. The Sinking City segue um modelo familiar ao levar-nos numa viagem por Oakmont em busca de pistas, intercalando a investigação com pequenos momentos de combate. É uma estrutura pouco original, mas que funciona ao deixar-nos curiosos e ao recompensar-nos por cada nova informação que descobrirmos.

Apesar de não ser um jogo muito difícil, com a recolha das provas a ser muito intuitiva e existindo a possibilidade de verificarmos se investigámos completamente um local, The Sinking City dá espaço à imaginação dos jogadores e puxa pela sua inteligência e destreza. Isto acontece através da recolha de informações sobre o caso, que nos obriga a verificar registos e artigos que nos deem novas pistas sobre os suspeitos ou acontecimentos em Oakmont. Ao sabermos o local, o suspeito ou a arma do crime, podemos, por exemplo, investigar os registos criminais e descobrir os crimes que aconteceram num espaço temporal específico. Com esta nova informação, podemos descobrir um suspeito e interrogá-lo, avançando assim a investigação. Apesar de não ser uma mecânica muito complexa, a verdade é que é divertido e sempre recompensador descobrir uma nova pista, obrigando-nos a ler e a reler os documentos e as pistas em buscas de novas informações.

O mesmo acontece na descoberta de novas zonas de interesse, com o jogo a dar-nos uma indicação, por vezes mais vaga, que temos de seguir para encontrar a casa ou local que queremos investigar. Muitas vezes, temos apenas a morada ou a rua que precisamos de investigar, não existindo, desta forma, pontos intermináveis no mapa ou demasiadas atividades secundárias. Pode ser frustrante não encontrar uma localidade à primeira, mas nunca deixa de ser interessante conseguir triangular as informações e descobrir as ruas certas.

The Sinking City é um jogo de mecânicas, de opções e de variedade, mas é também um projeto cheio de problemas. É um jogo confuso onde somos constantemente bombardeados com mecânicas invasivas ou muito limitadas que condicionam a jogabilidade. Durante as minhas horas em Oakmont, vi-me a questionar a jogabilidade de The Sinking City e a tentar compreender o porquê de nos dar um mundo aberto, mas vazio, e um foco na investigação quando a maioria do processo é facilitado. O jogo aposta também no controlo da insanidade de Reed, que pode piorar à medida que enfrenta as monstruosidades ou utiliza o seu poder especial, que lhe permite ver locais secretos e acontecimentos passados, mas é mais uma mecânica perdida no meio de tantas outras.

The Sinking City quer, por vezes, ser um RPG de ação, quase à força, e isso desvirtua algum do seu design. Apesar de apreciar a variedade, não consigo perceber o porquê de termos um sistema de evolução por pontos de experiência, com uma árvore de habilidades, dividida por três categorias, para desbloquear. Não sentimos o crescimento de Reed e mal precisamos de evoluir os seus parâmetros, algo que se torna ainda mais claro através do foco na investigação e não no combate. The Sinking City é um guisado que funciona ocasionalmente.

Para além da jogabilidade confusa e das mecânicas desnecessárias, o jogo vem acompanhado por uma performance inconsistente. The Sinking City é assolado por bugs constantes, com personagens e objetos a desaparecerem e a reaparecerem nos cenários, e por quedas de framerate que levam o jogo a congelar. A entrada e saída dos menus é tortuosa e é comum encontrarmos zonas onde o jogo se move aos soluços.

Os problemas na performance são agravados por um motor de jogo pouco ou nada interessante. Apesar da direção de arte ser apelativa, a maioria dos cenários são cinzentos, repletos de texturas desinteressantes, e com uma clara repetição de objetos e edifícios por toda a cidade. As animações são também atrozes e muito limitadas, com as personagens a parecem robôs e não pessoas. É um jogo cheio de problemas, mas com uma ambição desmedida, deixando-o assim num meio-termo onde nem é mau, nem é bom.

Mas The Sinking City poderia ter sido um bom jogo se existisse um maior controlo sobre a jogabilidade e o design da sua cidade. Existem aqui boas ideias e a história consegue ser cativante, ainda que um pouco previsível, e há uma sensação clara de mistério que é complementada pela investigação. É um jogo que devia ter apostado num punhado de mecânicas e num mundo mais detalhado para ser um verdadeiro clássico do género, mas, como está, é um mau jogo com algumas boas ideias. E isso é uma pena.

The Sinking City está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One.

Este jogo (versão para PS4) foi cedido para análise pela BigBen Interactive.

Também pode interessar

Deixar uma resposta

O Echo Boomer utiliza cookies para dar a melhor experiência possível aos nossos leitores. Aceitar Ler mais

%d bloggers like this: