Análise – Narita Boy (PlayStation 4)

Viajem para o mundo cibernético neste jogo de ação e aventura centrado num rapaz que é transportado para um videojogo.

Narita Boy
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Num primeiro contacto, Narita Boy parece ser fruto de um revivalismo recorrente, de uma imitação barata do estilo e sensibilidades não da década de 80, mas sim da nossa interpretação da época. O néon, o retro futurista, as cores fortes, as bandas sonoras repletas de sintetizadores pareciam compor aquela que viria a ser uma aventura previsível e pouco original, mas Narita Boy sabe guardar os seus segredos. De facto, é uma das interpretações mais visualmente marcantes que encontrei no género de ação e plataformas, onde a sua alma mais filosófica se constrói lenta, mas seguramente ao longo da campanha curta.

Narita Boy é mais uma experiência sensorial e psicológica do que mecânica. Digo isto porque pouco surpreende na sua interpretação do que é um jogo de ação em 2D. Inspirado pelos clássicos da época, dentro e fora dos videojogos, o título da Studio Koba traz-nos um sistema de combate simples, ainda que munido de alguns ataques especiais – que poderemos encontrar ao longo da campanha –, que se foca mais no controlo do número de inimigos do que propriamente em confrontos imaginativos. As combinações são quase inexistentes e, mesmo com a presença de habilidades únicas, como o poder de cura ou a utilização de ataques destrutivos – que requerem a utilização de energia –, o combate não evolui para além das hordas de inimigos e dos seus padrões previsíveis. Existem, de facto, vários tipos de inimigos e alguns bosses para enfrentarem, mas não é aqui que recai a magia de Narita Boy.

Narita Boy

Também não é na exploração, infelizmente, que é, por vezes, mais confusa e muito mais linear do que aparenta ser. O mundo digital está repleto de caminhos, zonas e segredos que se interligam entre si, mas há uma falta de direção que se complexifica devido à direção de arte tão intricada e nem sempre fácil de ler. O início da campanha é, sem dúvidas, o pior momento do jogo, um aglomerado de cenários idênticos onde a atenção está mais centrada na arte do que no design dos seus níveis. A exploração também é prejudicada por segmentos de plataformas e puzzles que nunca são verdadeiramente satisfatórios. Os saltos apresentam um arco demasiado acentuado onde parece que temos de fazer um esforço adicional para cairmos na plataforma correta: não é intuitivo. Existe também a possibilidade de desviar-nos no ar, o que ajuda, mas a exploração é mais útil do que envolvente.

Então, onde está a magia de Narita Boy e porque poderá ser um jogo obrigatório para fãs de aventuras narrativas 2D? Está na sua direção de arte e na forma quase doentia com que constrói a mitologia do seu mundo. Narita Boy é um festim visual. É certo que esta aposta no espetáculo, nas partículas e nas cores fortes prejudica a leitura dos cenários dentro da ação, mas quando paramos para absorver o nível de detalhe e imaginação de cada nível percebemos que estamos perante uma forte visão artística. Nada é deixado ao acaso e cada zona conta eficazmente a sua estória a nível visual, sem necessitar de novas explicações. Este é um dos retratos mais empolgantes do que é um mundo virtual.

Narita Boy

A Studio Koba não esconde as suas influências e é difícil não fazer comparações a algumas obras da época, como Tron, mas defendo que este jogo de aventura é muito mais arrojado na sua análise deste mundo de software arcaico. Esta é uma sociedade viva, assente em lendas e premonições antigas que se construíram em redor de cultos religiosos e de figuras divinas. É um mundo idílico, etéreo, mas igualmente perturbador e até melancólico, existindo a partir das memórias do seu criador, apenas conhecido como The Creator – responsável pela criação da consola Narita One –, numa clara alusão a Steve Jobs. Narita Boy não é apenas sobre um jovem que é transportado para um videojogo e não é somente sobre lendas de heróis lendários e de espadas mágicas: é sobre um homem e as suas memórias. É neste culto do Homem que se criam ideologias, retratos psicológicos e um ambiente filosófico que nos envolve através dos cenários surrealistas em tons de azul. É um festim.

Apesar das minhas críticas, onde posso adicionar ainda os rios de diálogos e conceitos que nem sempre são claros, fiquei progressivamente mais rendido ao mundo de Narita Boy e sou obrigado a recomendar aos fãs do género. Falta-lhe profundidade mecânica e uma maior variedade na jogabilidade, mas acredito piamente que qualquer jogador irá encontrar algo que o faça gostar deste diamante em bruto.

No entanto, fica mais um aviso: o jogo sofre de problemas de desempenho. Na PS4, Narita Boy caiu várias vezes e durante as primeiras sessões terminava a minha sessão por completo. Não consegui perceber porquê, mas fica mais um aviso. Que forma mais estranha de recomendar um jogo.

Nota: Bom

Disponível para: PC, Xbox One, Xbox Game Pass, PlayStation 4 e Nintendo Switch
Jogado na PlayStation 4
Cópia para análise cedida pela Team 17.

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