Análise – My Time at Portia

por Echo Boomer

Sejam bem-vindos a Portia, o continente solarengo que promete ser o palco para as vossas próximas aventuras. Se aceitarem o desafio e o vosso destino como construtor, vão encontrar ruínas para explorar, muitos objetos para construir e personalizar, novas amizades e até um futuro romance – assim será a vossa vida. Preparem-se para sol, boa disposição e corridas contra o tempo neste novo RPG de ação que acaba de chegar às consolas.

Em My Time at Portia, somos um jovem que acaba de herdar a quinta do seu pai e que tem como missão tornar-se no construtor mais famoso do continente. Para tal, terá de abrir a sua loja, melhorar a sua casa e até cultivar terrenos enquanto ajuda os habitantes de Portia e explora as misteriosas ruínas em redor da cidade. Como um jogo, assume-se maioritariamente como um RPG de ação com um enorme foco na personalização, na recolha de recursos e na construção de novos itens e utensílios importantes para a aventura. Captura o melhor de jogos como Harvest Moon, no qual se inspirou, e Stardew Valley.

Ao contrário dos restantes títulos do género, My Time at Portia despe-se da sobrevivência e foca-se unicamente nas mecânicas RPG, dando-nos uma campanha mais linear, mas focada. Apesar da nossa personagem evoluir, seja em combate ou na construção e recolha de recursos, só temos de nos preocupar com a sua estamina, que determina o número de ações que podemos realizar por dia. A estamina melhora não só através da evolução de níveis, mas também pelos equipamentos da personagem e da própria decoração da casa – algo que incentiva a nossa criatividade. My Time at Portia não é um jogo de sobrevivência e nem o tenta ser, colocando-nos numa das aventuras mais relaxantes e divertidas que tivemos o prazer de jogar este ano.

A estrutura linear e mais focada é uma das vantagens de My Time at Portia, condicionando a ação, mas deixando espaço para a exploração e objetivos secundários. Como construtor, somos constantemente contratados pelos habitantes de Portia à medida que desbloqueamos novos segredos nas ruínas e melhoramos a cidade em si. O que começa por ser uma aventura mais pessoal, com o objetivo de melhorarmos a nossa quinta, acaba por se transformar numa demanda pelos segredos de Portia e pela própria prospeção da zona e dos seus habitantes.

Há um crescimento ao longo da campanha, algo que passa também para a jogabilidade e para os objetivos que temos de completar, seja em combate, contra alguns bosses mais intimidantes, ou na construção de novos utensílios ou ferramentas que desbloqueiam novos recursos e novas possibilidades. É um jogo de crescimento, de melhoramento constante e da procura pelo melhor para a nossa personagem, mas também para Portia.

Mas na sua génese, é um jogo de aventura e construção, resumindo-se à recolha de recursos, à construção e ao combate contra monstros. O ritmo de jogo, que é afetado por um ciclo de dia e noite – com estações do ano e um calendário pré-definido que influenciam a nossa progressão –, complementa esta aposta ao apresentar regularmente novos desafios, missões secundárias e ao incentivar à imaginação dos jogadores com novas plantas e métodos de construção. My Time at Portia é um jogo bastante completo e recheado de atividades que irão satisfazer todos os fãs do género, complementando até a forma como gostam de jogar – foquem-se no combate, se quiserem, ou então construam a vossa quinta e passem a viver dos seus frutos.

Para nós, My Time at Portia divide-se em três partes igualmente importantes, cada uma com as suas virtudes e problemas: construção, aventura e relacionamentos. A primeira parte, a mais tradicional deste género, leva-nos a recolher materiais e a construir novas ferramentas e outros auxiliares que determinam a qualidade das nossas armas, mas também das nossas criações. Podemos construir cortadores de madeira, fornos, meios de transporte, novas armas e utensílios e ainda um número vasto de objetos de decoração que poderão ser oferecidos ou vendidos. Para termos acesso a estas novas opções, é preciso recolher o maior número de recursos e explorar o mundo de Portia à medida que ficamos mais fortes.

A construção determina ainda a evolução da cidade e da nossa própria quinta, sendo possível construir novas áreas, expandir a nossa casa e desbloquear novas ruínas em redor da cidade. Existe uma progressão muito interessante e rapidamente percebemos que todos os elementos estão interligados, sendo necessário encontrar um recurso específico, por exemplo, para construir a fornalha que, por sua vez, nos dá acesso a novas ferramentas que desbloqueiam novas opções de construção. É um ciclo eficaz, nada original, que nos mantém agarrados à progressão do jogo. A possibilidade de personalizar todos os elementos da nossa quinta é, sem dúvida, um incentivo sempre presente na jogabilidade.

A segunda parte, a aventura, dá aso às mecânicas RPG e de ação que tanto vemos no género. Em Portia, existem vários monstros e criaturas que podemos matar para recolher os seus recursos, mas iremos encontrar também inimigos mais poderosos, como bosses, que se escondem dentro de algumas das ruínas do jogo. Como RPG, My Time at Portia é muito básico e dá-nos um combate sem grande variedade, mas com um sistema de evolução por níveis que determina os atributos da nossa personagem e uma árvore de habilidades que influencia as capacidades inerentes do herói, desde a sua rapidez até à sua sorte na recolha de itens.

O sistema de combate ganha um maior destaque na exploração das ruínas e de algumas salas escondidas, onde encontrarão novos inimigos e recursos raros. A navegação é muito simplificada e pouco há a encontrar nestas zonas, mas esta exploração funciona quase como uma distração do que como um verdadeiro RPG de ação. É funcional, mas igualmente inerente à jogabilidade e à campanha do jogo, ainda que gostássemos de encontrar um maior desafio nestas masmorras e uma maior variedade nos ataques e nas armas que podemos construir.

A terceira e última parte corresponde ao relacionamento com outras personagens e com os habitantes de Portia, um elemento incontornável no género. Tal como em Harvest Moon, podemos completar tarefas e ajudar os nossos vizinhos com novas construções para melhorarmos a nossa relação. A oferta de prendas e a interação diária também influenciam este relacionamento, com a nossa personagem a deixar de ser apenas um estranho, que acaba de chegar a Portia, para se tornar num melhor amigo ou numa pessoa de confiança.

Há, portanto, esta possibilidade de relacionamento que acaba por definir a nossa ligação à cidade e à sua proteção e evolução, algo que se torna incontornável à medida que avançamos no jogo. Não esperem, no entanto, encontrar histórias pessoais intrigantes ou personalidades irreverentes em My Time at Portia, com as personagens a servirem mais como clichés do que como pessoas reais.

Esta aposta nos relacionamentos culmina com a possibilidade de se apaixonarem por uma das personagens e de se casarem. Esta opção, que também está presente na série Harvest Moon e Stardew Valley, é opcional, mas dá ao jogo um cunho mais pessoal e uma maior ligação às suas personagens. Através do casamento, My Time at Portia ganha também um toque mais realista ao dar-nos uma maior sensação de passagem do tempo e da própria evolução da nossa aventura e da vida da nossa personagem.

Apesar de ser um jogo muito completo, My Time at Portia não consegue evitar os problemas do género, nomeadamente a repetição das missões, comissões e da própria recolha de recursos. Mesmo com uma variedade aceitável de cenários, ruínas e outras zonas, a verdade é que estamos constantemente a realizar as mesmas tarefas repetitivas do princípio ao fim, quebrando a ilusão que criamos ao iniciarmos a campanha. O que começa por ser uma aventura e uma jornada de crescimento transforma-se num trabalho monótono onde a variedade rapidamente se esgota.

Este problema irá afetar os jogadores de diferentes formas, alguns até irão tolerar esta repetição do princípio ao fim. É, sem dúvida, um aspeto negativo que o jogo nunca resolve ao longo da campanha.

O maior problema do jogo é, no entanto, a sua performance. Ao contrário da versão para PC, My Time at Portia chegou às consolas com alguns bugs, alguns deles já resolvidos no PC, que prejudicam a experiência do jogo. É normal caminhar no ar, passar por partes dos cenários, ter quedas de frame rate e ver personagens com movimentos irregulares – estes são acontecimentos comuns no jogo. Esta falta de otimização acaba por afetar também as missões e existem momentos em que podemos invalidar por completo o nosso progresso se sairmos de uma ruína. Estes problemas são visíveis e irão enfurecer os jogadores até ao lançamento de um patch – que deverá chegar em meados de maio.

My Time at Portia é uma das aventuras mais reconfortantes e alegres que jogámos este ano. É um jogo que oferece um pouco de tudo aos fãs do género. Seja na construção, na aventura e combate ou até no relacionamento entre personagens, My Time in Portia é competente em todos seus elementos, ainda que pouco surpreendente, mas acaba por ser prejudicado por uma chegada pouco limada às consolas.

Se não fosse pelos bugs e pela falta de variedade, seria imperdível, mas oferece o suficiente para ser um bom exemplo do género em que se insere.

Este jogo foi cedido para análise pela Team17.

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