Análise – Mundaun (PlayStation 4)

Completamente desenhado a lápis, este é um jogo de terror que não podem ignorar.

Mundaun
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São raros os videojogos que não consigo desligar ao fim de umas horas. Como crítico, podem imaginar ou contar o número de títulos que já analisei e joguei com o objetivo de escrever textos, muitas vezes longos, onde tenho de dissecar todos os seus pontos negativos e positivos, e onde esta sensação de deslumbramento e curiosidade é rara, muito rara. No entanto, é real, mesmo quando estou assoberbado com projetos e trabalho, e nunca vou deixar de ficar surpreendido quando as horas e penso que quero “jogar só mais um pouco”. Mundaun foi um desses jogos.

É difícil não ficar curioso com Mundaun e basta olhar para o seu mundo de papel e carvão para querermos perceber como tudo funciona. Será que foi tudo desenhado à mão e com este aspeto de cartão sujo? Foi mesmo este o objetivo da Hidden Fields? A resposta é sim: este é o mundo de Mundaun e é fascinante. Inspirada pelas paisagens rurais do Alpes, esta é uma realidade de mímica, onde a idílica aldeia de Mundaun rapidamente revela uma certa estranheza que nunca conseguiremos afastar. Com os seus cenários desenhados à mão, coloridos apenas pelo carvão dos lápis, esta interpretação dos Alpes e das montanhas suíças torna-se distante, onde as suas imperfeições, como as linhas inacabadas e desenhos irregulares, dão lugar a um design peculiar das suas várias zonas. Não é desorientador, mas é o equivalente a revisitarmos a aldeia dos nossos avós que só vimos em fotografias.

A imagética rural é uma das mais-valias de Mundaun e o seu foco em estórias antigas e em lendas perdidas dão à campanha um lado mais sombrio, até assustador, que se constrói ao longo de zonas condensadas, mas suficientemente amplas e cheias de caráter. A demanda do nosso protagonista, que decide voltar à sua terra natal após a morte inesperada do seu avô, é também de mistério e dúvida, de realidades paralelas e de horror quotidiano, onde a realidade que o jovem sempre conheceu esconde um segredo aterrador. Para todos os efeitos, Mundaun é um jogo de terror na primeira pessoa, mas o seu foco, na minha opinião, está na aventura, na resolução de pequenos puzzles e na exploração desta região à medida que o nevoeiro dificulta a nossa visão e a neve cai nos picos mais altos.

Mundaun

O mistério de Mundaun nem sempre é surpreendente, caindo em alguns clichés que são inseparáveis deste tipo de estórias – como o avô que faleceu misteriosamente e os habitantes da aldeia que estão entre a loucura e o medo –, mas a progressão é muito satisfatória. Quando percebemos como funciona o seu mundo, que dá sempre espaço para a exploração ao apresentar mapas suficientemente extensos, deixamo-nos levar pelas pontas soltas desta estória com raízes no folclore e pela sua calma traiçoeira à medida que exploramos esta aldeia silenciosa. Funciona como um filme de terror do início do século XX, cuja resolução poderá desiludir alguns de vocês devido à antecipação que cria, mas onde a experiência e os momentos individuais da campanha falarão mais alto.

A campanha recai, portanto, na descoberta de itens e na resolução de quebra-cabeças simples que nos permitem avançar de objetivo em objetivo. Entre etapas, ficamos a conhecer melhor o passado de Mundaun e as várias zonas que apresenta, mas a sua alma de jogo de aventura, onde acredito que os títulos point and click foram uma inspiração, está sempre presente e existem trechos mundanos que são deliciosos. Por exemplo, a possibilidade de recolhermos vários itens, de fazer café ou abrir e fechar a maioria das gavetas e portas. A interatividade é uma aposta de Mundaun, onde uma ação que damos como garantida, como o arranque de um motor, terá de ser feita manualmente. É a simplicidade de atividades do quotidiano num ambiente de horror, onde a exploração reforça esta ideia de aventura gráfica ao longo da campanha curta.

Poderia recomendar vivamente Mundaun se não fosse pelo seu terrível desempenho nas consolas. Neste preciso momento, antes de novas patches, a versão PS4 sofre de bugs visuais, de stuttering, de dithering, quedas acentuadas de frames e pop-ups que prejudicam gravemente a experiência deste jogo de terror. O desempenho é, por vezes, tão instável que fiquei enjoado devido a arrasto da imagem e às paragens constantes, algo que nunca deixou de ser frustrante. A narrativa também não atinge todo o seu esplendor, mesmo com opções de diálogo, três finais distintos e vários itens para encontrarem e utilizarem, tal como os confrontos rígidos contra os inimigos de palha ou a presença de elementos de furtiva que a Hidden Fields não aprofundou. Parece que faltou algo a Mundaun.

Mesmo com os seus problemas, prevejo que Mundaun se transforme num jogo de culto, especialmente durante a época de Halloween. O seu mundo desenhado à mão, as inspirações europeias e de folclore rural, as suas lendas e atenção aos detalhes, onde posso adicionar o ritmo certeiro da campanha e a prestação dos atores que deram voz às personagens peculiares da aldeia, são apenas alguns dos elementos de destaque deste peculiar jogo de terror.

Resta saber se, tal como prevejo, consegue resistir ao teste do tempo, mas penso que irão ouvir falar muito em Mundaun.

Nota: Bom

Disponível para: PC, Xbox One, PlayStation 4 e Nintendo Switch
Jogado na PlayStation 4
Cópia para análise cedida pela Best Vision PR.

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