Análise – Little Nightmares 2 (Xbox One)

Um jogo de terror e mistério mais ambicioso que se torna obrigatório para todos os fãs do género.

Little Nightmares 2
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Não é fácil justificar a crescente popularidade dos jogos lineares. Talvez seja mais justo falarmos num lento ressurgimento que tem combatido a ausência de títulos mais focados numa experiência narrativa e, quase sempre, cinematográfica, do que propriamente uma aparição injustificada e inesperada. Não se espera uma mudança total de paradigma ou uma nova exigência incontornável por parte do público, mas lenta e firmemente os estúdios voltam a apostar nesta arte perdida de contar estórias nos videojogos. E projetos como Little Nightmares 2 revelam o quanto a fórmula ainda tem muito para dar, mesmo dentro da sua segurança.

Em todos os sentidos, Little Nightmares 2 é uma evolução surpreendente em comparação ao primeiro. O mundo é mais vasto, os puzzles e momentos de tensão estão devidamente equilibrados e implementados nos seus níveis e existe um maior mistério ao longo da campanha, não só sobre os seus protagonistas – como o rapaz do saco de papel, Mono –, mas também sobre o que aconteceu ao mundo. Desta vez, estamos fora de um bioma e vemos, em primeira mão, o universo da série em todo o seu esplendor. Tão fascinante, como assustador.

A sequela mantém a aposta numa narrativa visual e sem diálogo, remetendo a narração para a ação e para os vários acontecimentos que presenciamos ao longo da curta campanha. Cada zona funciona quase como um mundo em si, com os seus desafios e vilão monstruoso, mas são peças importantes para definirmos onde estamos e para onde caminhamos. Os cenários contam a estória, seja a de escolas abandonadas ou de estranhos que vivem nas florestas, mas mantêm um crescendo impressionante e complementam-se dramaticamente ao longo da campanha. Fica, no entanto, a intenção e a sugestão, mas cabe aos jogadores perceber por si o que se passa em Little Nightmares 2 e quais são as conclusões que retiram.

A direção de arte, a utilização de sombras e luz, tal como um design de níveis seguro, mas sempre focado, constroem este mundo narrativo de sequência para sequência. Senti que cada sala tinha um propósito, ora mecânico – através de puzzles ou colecionáveis -, ora narrativo – apresentando mais informações sobre o mundo ou sobre o vilão que enfrentava. É uma sensação reconfortante, esta de não existirem momentos mortos ou sequências desnecessárias, e revela o quanto a Tarsier Studios cresceu entre os dois jogos. Não é uma evolução revolucionária ou inesperada, mas sim ponderada e focada nos sítios certos: no ambiente, na arte e na tensão.

Little Nightmares 2

A estrutura linear é uma das maiores forças de Little Nightmare 2 e, sem a sua aposta em níveis interligados e de fácil leitura, o seu horror e tensão não teriam o mesmo impacto. Existe, claro, o argumento que o jogo retira demasiado controlo ao jogador, colocando-o num caminho restrito sem a possibilidade de explorar por si, mas penso que é isso que o torna tão único e igualmente familiar neste início de geração. Desta forma, a Tarsier Studios conseguiu criar uma experiência feita à medida, com os tempos certos e controlados, desenvolvendo uma sensação de tensão e ritmo que seria impossível num ambiente mais livre. Cada momento, como as fugas dos vilões, estão milimetricamente desenhados para vos fazer sofrer e cada elemento narrativo está presente para vos desafiar a um ritmo que cria ansiedade e mistério. Foi isto que adorei em Little Nightmares 2.

Fora do seu conceito e vertentes visuais, o título não é tão fascinante, mas, defendo, não o precisava de ser. É a mesma jogabilidade que viram no original, mas com algumas novidades, como sequências de combate, melhores puzzles e a colaboração entre as duas personagens. Fora destes elementos, continuamos a explorar cenários lineares e a navegar por momentos de confronto onde somos eliminados com um ataque. O que me custa não é esta falta de variedade nas mecânicas, ainda que existam destaques como a utilização de televisões como transportes rápidos, mas sim a rigidez da jogabilidade. Modo mexe-se quase como um tanque e nem sempre responde eficazmente aos nossos comandos, algo que se agrava nas sequências de plataformas e nas fugas. Não é, no entanto, um elemento capaz de denegrir a experiência, mas está lá. Serve a tensão e a aposta no terror, mas condiciona a navegação dos níveis e os puzzles.

Como não pude experimentar a versão otimizada de Little Nightmares 2, o que irei dizer a seguir deve ser colocado em contexto. Joguei na Xbox One S, na consola, diria, menos resistente à passagem do tempo da geração anterior, e, por isso, encontrei alguns bugs e problemas de desempenho. Foram, na maioria, bugs visuais, ora a personagem ficava presa nos cenários ou alguns dos objetos pairavam no ar, mas encontrei também momentos em que fui obrigado a reiniciar. Felizmente, o jogo tem pontos de gravação muito simpáticos e nunca perdi qualquer progresso, mas os problemas estão lá. Já o desempenho é sinal da idade da consola, não tenho dúvidas, registando quedas de framerate sempre que gravava a partida ou entrava numa nova zona. O tempo não perdoa.

Little Nightmares 2 é um passo certo para a Tarsier Studios e uma evolução palpável da fórmula do primeiro título, agora mais seguro e desafiante. É um jogo que vão querer repetir para encontrarem todas as pistas e para tecerem as vossas teorias. Mesmo com os seus problemas, é um excelente exemplo do que é possível fazer com uma estrutura linear e narrativa, sem as exigências de conteúdos adicionais e de outras distrações.

É uma aventura sólida e inesquecível do princípio ao fim. Arrisco-me a dizer que, com Little Nightmares 2, a Tarsier Studios já tem o seu INSIDE. Agora resta saber para onde esta sequela os leva.

Nota: Muito Bom

Disponível para: PC, Xbox One, Xbox Series X|S, PlayStation 4, PlayStation 5, Nintendo Switch e Google Stadia
Jogado na Xbox One S
Cópia para análise cedida pela Bandai Namco.

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