Klonoa Phantasy Reverie Series – Um sonho concretizado

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Depois de um desaparecimento prolongado, a famosa mascote da Bandai Namco está de regresso com uma coleção para todas as gerações.

Klonoa: Door to Phantomile é um dos meus videojogos favoritos, daqueles que permanece no meu TOP 10 desde que o joguei há tantos anos. Não o descobri por destino, mas sim por mero acaso, como muitos de vocês devem ter encontrado alguns dos vossos jogos favoritos. Estava à procura de um novo jogo, algo que me retirasse do mundo dos RPG, que me haviam ocupado durante tantos meses. Recordo-me que estava no verão, tal como agora, e que Klonoa foi um titulo suficientemente sonante para o escolher no meio de tantos outros numa lista demasiado extensa. No balcão, disseram-me que se tratava de um jogo de plataformas, um género que adorava – e ainda adoro -, e isso foi o suficiente para sair da loja com a total confiança que tinha em mãos um excelente jogo. Antigamente era assim, simples, movidos por uma determinação que só uma criança com dinheiro para comprar um jogo conseguia ter. E estava certo. Só não sabia quão Klonoa seria importante para mim.

Depois de uma sequela. vários spin-offs e presenças pontuais noutros títulos – como Namco × Capcom e Alpine Racer 3 – Klonoa desapareceu. O remake para a Wii, lançado em 2009 na Europa, pouco ajudou, rapidamente esquecido e nem sempre adorado pelos fãs da série devido às suas alterações estéticas e até sonoras. Para todos os efeitos, Klonoa parecia estar destinado a ser o convidado e nunca mais o protagonista, algo que a Bandai Namco nunca escondeu em mais de 10 anos de interregno. Mas o impossível aconteceu: Klonoa está de regresso. Não é a sequela que muitos aguardam, mas sim uma coleção com os dois títulos principais da série. É um motivo de celebração, não me interpretem mal – até porque não pedia mais do que isso -, mas, ao mesmo tempo, não consigo afastar a desconfiança que sinto em relação à coleção e que efeitos terá no futuro de Klonoa – se este será apenas um docinho para alimentar o saudosismo dos fãs (e a carteira da Bandai Namco) ou um tributo sentido a Klonoa e ao seu mundo dos sonhos. A resposta ainda me escapa.

Klonoa parecia estar destinado a ser o convidado e nunca mais o protagonista, algo que a Bandai Namco nunca escondeu em mais de 10 anos de interregno. Mas o impossível aconteceu: Klonoa está de regresso.

Foquemo-nos no presente e esqueçamos o futuro da série por uns momentos. Apesar da minha desconfiança, é preciso celebrar, soltar alguma alegria e regressar ao mundo de Klonoa e Huepow com o mesmo sorriso que me acompanhou há tantos anos atrás. Klonoa Phantasy Reverie Series é composto por Door to Phantomile e Lunatea’s Veil, os dois títulos principais da série, lançados respetivamente para a PS1 e PS2, agora reconstruídos com um novo motor gráfico. A perspetiva 2.5D mantém-se intacta, a composição dos cenários e dos níveis não foi alterada, mas sim exponenciada e revisitada – com mais pormenores e elementos decorativos que demonstram o salto geracional de ambos os jogos – e as aventuras permanecem idênticas ao que jogaram em 1998 e 2001. Fora os novos modelos em 3D, longe dos sprites do primeiro jogo, nada mudou no mundo de Klonoa e nota-se que a Bandai Namco quis ser o mais fiel possível neste regresso da série icónica.

Esta determinação em manter viva a experiência clássica da série poderá ser um choque para aqueles que nunca jogaram Klonoa, uma vez que a jogabilidade não foi alterada. Talvez existam algumas melhorias nos tempos de resposta nos controlos, mas a experiência basilar continua a focar-se entre a captura de inimigos, que podemos utilizar como método de ataque e para realizar um duplo salto. As campanhas dividem-se por vários níveis, intercalados por batalhas acessíveis contra bosses gigantescos e a descoberta de colecionáveis em cada zona. Klonoa mantém-se com um arsenal limitado, com um salto nem sempre seguro, que culmina na sua habilidade de planar por poucos segundos, e com o mesmo foco na aventura e nem tanto no combate. Esta vontade em revisitar uma jogabilidade clássica, que pouco muda entre os dois jogos, é de louvar, mas fico curioso para ver qual será a reação das camadas mais jovens, habituadas a outros jogos de plataformas.

Uma coisa é certa: Klonoa continua tão acessível como sempre, com uma jogabilidade limada e níveis desenhados à altura da sua jogabilidade, onde a visibilidade nunca é prejudicada pela estética dos jogos e existe uma preocupação em garantir que o jogador tem sempre tempo para analisar o que está à sua volta antes de fazer um dos inúmeros saltos. É uma fórmula muito simples quando analisamos ao pormenor as peças que movem ambos os jogos, mas é o seu classicismo que os torna tão intemporais. Door to Phantomile é uma experiência mais segura, com um ritmo lento, assente numa aura de aventura, quase como um desenho animado antigo, mas que explora pouco as suas mecânicas. Para a primeira aventura de Klonoa, a campanha não é ambiciosa na dificuldade e na variedade de mecânicas que adiciona à jogabilidade, mais preocupada em criar níveis expansivos, com alguns caminhos alternativos e momentos de puzzles, onde o desafio nunca vai além da nossa atenção e da utilização de inimigos como duplo salto. Como seria de esperar, existe uma evolução entre níveis, como a adição de inimigos entre as várias zonas – alguns deles vestidos com armaduras que requerem mais do que um dano para serem derrotados ou que utilizam fogo à sua volta para limitar a área de ataque de Klonoa -, mas encontramos também uma discrepância na dificuldade, nomeadamente na última fase, que não foi corrigida neste relançamento, onde o fácil passa a ser cruel num piscar de olhos. O que me surpreendeu foi revisitar o seu foco na narrativa, com trechos animados entre praticamente todos os níveis e fases, demonstrando a demanda de Klonoa e Huepow contra Ghadius e o mundo dos pesadelos.

Klonoa continua tão acessível como sempre.

Já Lunatea’s Veil não procurou revolucionar a jogabilidade da série, mas sentimos a passagem para um hardware mais poderoso através da sua utilização de novos ângulos de câmara, de sequências mais dinâmicas e de uma maior aposta na cinematografia. Uma mudança que não tem repercussões diretas na jogabilidade e nas suas mecânicas, mas que é capaz de criar a ilusão de que estamos a experienciar um salto geracional maior do que aquele que é. Fora a sua apresentação estilística, Lunatea’s Veil continua a ser uma aventura doce, repleta de personagens emblemáticas, mas munido de uma arte mais surreal, muito típica para a época em que foi lançado – lembrando-me títulos como Freak Out e Okage: Shadow King -, de um certo plasticismo. Klonoa continua a utilizar os inimigos para saltar e atacar, pouco mudou, ainda que tenhamos mais sequências de transporte, com o nosso protagonista a aventurar-se na sua prancha radical. Esta entrega ao classicismo faz-me ponderar sobre a possibilidade de recebermos um Klonoa 3 e como seria esta sequela hipotética, que salto teria de dar para evoluir a série ou se seria apenas uma evolução estética, talvez cinematográfica – como Lunatea’s Veil -, sem perder a sua jogabilidade 2.5D.

Como fã, admiro o esforço da Bandai Namco e da MONKEYCRAFT em manterem a jogabilidade intacta. Se a minha memória não me falha, nada foi alterado, nem uma única plataforma foi reposicionada ou inimigos adicionados às duas campanhas e era exatamente isso que queria: uma forma de revisitar estes clássicos nas novas consolas. O que irá dividir a comunidade é o trabalho de reconstrução visual que Door to Phantomile e Lunatea’s Veil receberam durante a sua conversão para alta definição. Os sprites do primeiro jogo desapareceram, tal como as sequências em FMV, com a ação a acontecer completamente no motor de jogo e com modelos em 3D. A arte mantém-se intacta, ao contrário do que havia acontecido no remake da Wii, agora mais próxima ao original, mas Door to Phantomile tem agora um aspeto mais plástico, mais brilhante e com cores berrantes, onde se perde um pouco de definição nos fundos do níveis. A ação nunca é prejudicada, felizmente, mas o charme do original e dos meus modelos mais expressivos desaparece nesta versão, algo que me leva a questionar o porquê da Bandai Namco não ter pura e simplesmente adicionado os originais como conteúdo adicional.

Este facelift não será do agrado de todos, mas aprecio o esforço em criar um estilo visual o mais próximo possível do clássico da PlayStation. É um meio termo competente onde Doort to Phantomile só perde em expressividade, com as cinemáticas a serem mais rígidas, menos naturais ou caricatas. Já Lunatea’s Veil não é um choque tão grande, os seus modelos mais definidos não sofreram mudanças inesperadas, mas a iluminação foi retocada para conciliar-se com os novos objetos em campo e os fundos mais apetrechados de elementos decorativos. É um mundo mais vivo, mas que perde algum do seu mistério pela iluminação mais clara, com pouco uso de sombras. Estas alterações terão os seus fãs. Para alguns, estas versões serão as únicas que conhecerão, eliminando os originais da sua memória para sempre. Isso deixa-me apreensivo, a preservação de videojogos tem de ser mais proeminente na nossa indústria, mas, ao mesmo tempo, é necessário colocar as coisas em perspetiva. Esta coleção será a porta de entrada para novos fãs, para jovens que, tal como eu – e talvez vocês, leitores, que estão a seguir esta análise -, irão descobrir o mundo de Klonoa pela primeira vez e rir e chorar com as suas personagens adoráveis. É isto que importa, mais pessoas a conhecer e a jogar, a partilhar memórias. Eu não fui o maior fã deste estilo visual, mas espero que seja do agrado de vários novos jogadores. Só peço uma coisa: lancem os originais nos serviços digitais. Preservem os videojogos!

Este facelift não será do agrado de todos, mas aprecio o esforço em criar um estilo visual o mais próximo possível do clássico da PlayStation.

Klonoa Phantasy Reverie Series é um sonho concretizado, uma coleção que julgava impossível e que agora está disponível no PC e em todas as consolas da atual e gerações passadas. Klonoa está de regresso, nem que seja por uma breve visita e foi reconfortante revisitar os dois jogos depois de tantos anos. A coleção podia incluir os restantes títulos da série e até as versões originais de Door to Phantomile e Lunatea’s Veil, mas existe carinho neste regresso de Klonoa e isso é mais do que esperava.

Não é perfeita, mas Klonoa Phantasy Reverie Series é uma boa homenagem que irá deliciar os fãs e os mais curiosos com a sua jogabilidade clássica e histórias comoventes de sonhos, esperanças, pesadelos, tristezas, mas também de camaradagem face aos males do mundo. Uma lição que cai em 2022 como um verdadeiro elixir.

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Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela Bandai Namco.

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