Análise – I Am Dead (PlayStation 5)

I am Dead é uma aventura com o coração no lugar certo, mas que sofre de alguma falta de imaginação.

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Morris Lupton acorda na praia de Shelmerston, a ilha onde cresceu e viveu durante toda a sua vida. O antigo dono do museu, que cuidou durante anos, passeia pela praia enquanto se recorda dos dias que passou com os seus pais, caindo no saudosismo de férias passadas, até que a sua mente viaja para a memória de Sparky, a sua cadela fiel, de quem confessa ter imensas saudades. Enquanto ouve o som das ondas, mas também destes trechos do passado, Morris é surpreendido pela presença de um banco comemorativo. Na placa, consegue ler uma data e um nome. Para sua surpresa, é o seu nome e a data é a data da sua morte. Morris é um espírito que acaba de se aperceber que faleceu.

Este é o início de I Am Dead, esta descoberta de que Morris já não está vivo, mas sim preso à ilha onde sempre viveu e é na busca por respostas, através de uma visita ao seu museu, que reencontra Sparky, também ela um espírito – afinal os cães também vão para o céu –, e percebe que a ilha, a sua terra natal, corre perigo: o vulcão vai entrar brevemente em erupção.

Com a ajuda de Sparky, Morris precisa encontrar um novo espírito capaz de proteger a ilha e manter o vulcão controlado. O nosso protagonista oferece-se para ser o substituto de Aggi, um espírito responsável pela ilha há mais de 3 mil anos, mas a sua alma ainda é recente. Um verdadeiro substituto precisa estar morto há mais de mil dias e é esta urgência que o leva a reencontrar amigos e conhecidos do seu passado à medida que descobre mais sobre eles e os seus familiares numa demanda marcada pela arte colorida e quente, mas também pela repetição incontornável dos seus objetivos e mecânicas. Uma experiência que se torna, infelizmente, agridoce, apesar do seu potencial para ser profundo e marcante.

Mais do que um jogo de aventura e de puzzles, considero I Am Dead como uma construção de personagens. Chego a esta conclusão devido à forma como o jogo retrata não só os seus protagonistas, como a ilha de Shelmerston, deixando-nos envolver nas suas memórias e nos seus pertences pessoais à medida que descobrimos mais sobre o mundo que nos rodeia e que tentamos salvar. Como fantasma, Morris tem a habilidade de ler os pensamentos das personagens e reconstruir fragmentos de memória para dar vida aos vários espíritos – e seus amigos já falecidos – espalhados pelas zonas da ilha. As personagens vivem assim das recordações dos seus familiares, conhecidos, esposos, amigos ou de estranhos com quem chegaram a conviver, com Morris a encontrar objetos importantes para cada um dos candidatos a protetor da ilha e a invoca-los para um último diálogo.

A forma como I Am Dead passa esta ideia de assombração, do imaterial, é muito interessante e é o que dá à jogabilidade um sabor diferente. Como qualquer fantasma, Morris consegue trespassar os objetos e ver o que está no seu interior, suplantando a barreira entre o físico e o espiritual para investigar, manipular e encontrar segredos ao seu redor. A campanha segue uma estrutura muito rígida e limita a exploração a zonas específicas e muito restritas, mas defendo que é este foco em cenários fechados, mas bem decorados e vividos que dá a I Am Dead alguma personalidade. Com o objetivo de encontrarmos objetos específicos, torna-se imperativo saber direcionar o jogador através das memórias reconstruídas e dar pistas fáceis de perceber e interpretar sem tornar o jogo absolutamente aborrecido. A possibilidade de analisarmos objetos nunca perde a sua novidade, mas, infelizmente, o jogo não consegue manter o jogador investido devido à repetição desta estrutura rígida, mas necessária para a campanha curta do jogo.

A repetição é um problema que nasce da natureza de I Am Dead e do seu foco na narrativa, mas acredito que irá satisfazer alguns jogadores que só procuram uma oportunidade para se embrenharem num mundo verdejante e animado enquanto resolvem puzzles acessíveis. Como disse anteriormente, I Am Dead é mais um jogo de personagem, de análise pessoal, e está mais interessado em retratar a estória de Morris e de Sparky, à medida que descobrem mais sobre a vida depois da morte, do que em criar uma experiência desafiante ou assente na longevidade. O jogo segue sempre a mesma estrutura, onde primeiro encontramos as memórias, depois os objetos pessoais e, quando já temos recordações suficientes para despertar o espírito em questão, controlamos Sparky enquanto devolve as memórias de volta ao seu dono. E a estrutura nunca muda.

No entanto, o desafio está presente através dos wrens e das adivinhas de Mr Whistable, que requerem uma maior manipulação dos objetos e dos cenários para serem desvendados – onde basta recriarmos uma imagem para encontrarmos estes segredos mal escondidos –, mas este é um jogo de ponderação e descoberta, mais próximo de uma longa-metragem interativa do que de um jogo de puzzles.

Apesar das suas valências, I Am Dead foi perdendo a sua magia ao longo das três horas que passei a explorar a ilha de Shelmerston. A repetição de objetivos conseguiu deixar-me um sabor amargo na boca mesmo quando queria saber mais sobre as personagens peculiares deste mundo pós-morte, mas o mesmo poderá não vos acontecer. Há muita alma e carinho em I Am Dead, e existe uma exploração sincera sobre o valor das memórias e do nosso legado quando a vida dá lugar ao imaterial, mas não consegui suplantar a sensação de que estava a repetir as mesmas ações sem existir um crescendo satisfatório nas tarefas que tinha de resolver.

É interessante podermos pegar em praticamente todos os objetos, mas rapidamente quebramos a magia e começamos a pensar para que serve esta liberdade se raramente encontramos algo novo ou que valha a pena o nosso tempo. Mas esse não é o foco de I Am Dead e que isso fique sublinhado. Resta agora saberem se querem ou não visitar a ilha de Shelmerston.

Nota: Bom

Disponível para: PC, Xbox One, Xbox Series X|S, PlayStation 4 e PlayStation 5
Jogado na PlayStation 5
Cópia para análise cedida pela FortySeven.

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