Gynoug – Do passado, para o menos passado e agora para o futuro

A Ratalaika Games continua a apostar em shmup’s clássicos e a relançá-los em edições pouco convincentes, mas ao contrário de Gleylancer, Gynoug não consegue justificar o preço de admissão.

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Parece que estou a viver num interminável loop temporal. Um loop onde estou constantemente a encontrar o mesmo videojogo, o mesmo modelo de lançamento e o mesmo descaramento em repescar clássicos abandonados sem lhes dar um sentido ou uma edição que justifique o investimento dos jogadores. Parece que ainda foi ontem que me deparei com as edições despidas de Cotton 100% e Panorama Cotton, e agora, quase sem aviso, vejo-me perante o regresso nada celebrado de Gynoug, criado pela Masaya Games e editado agora pela Ratalaika Games. Sou levado a ponderar mais uma vez sobre a preservação dos videojogos e o aproveitamento crescente de novas editoras que pouco respeitam estes clássicos perdidos no tempo. Afinal, até onde vai a preservação e onde começa a ganância?

A Masaya Games está de regresso ao presente com mais uma reedição do seu catálogo clássico. Depois de Gleylancer, temos a ressurreição de Gynoug, originalmente lançado na Mega Drive – conhecido no ocidente como Wings of Wor – em 1991, que chega agora às consolas numa edição pouco surpreendente. Tal como Gleylancer, este clássico da Mega Drive é apresentado em todo o seu esplendor nostálgico, onde as novidades são limitadas e focadas numa opção de rewind e na possibilidade de criarem gravações em qualquer parte da campanha. São duas funcionalidades que injetam alguma acessibilidade a Gynoug, que se assume como um jogo de ação espacial muito desafiante e que dão continuidade à filosofia de relançamento da Ratalaika Games: é mais importante disponibilizar troféus acessíveis do que novidades de peso.

A campanha de Gynoug não é muito extensa, mas é das mais cansativas que experimentei nos últimos meses. Ao contrário de Gleylancer, a Masaya Games decidiu apostar em níveis mais longos, divididos por um mini-boss, onde existe uma passagem de tempo interessante e uma mudança progressiva de cenários que injetam na campanha uma maior sensação de aventura, mas também de descoberta. Gynoug é um jogo mais visual do que Gleylancer e apresenta criaturas mais disformes e assustadoras, muito influenciadas por monstruosidades cósmicas e até algumas representações católicas, criando assim uma cacofonia de cores e formas que tentam criar uma experiência mais marcante nos jogadores.

O problema é que a jogabilidade é muito menos empolgante e o design dos níveis mais limitado no que toca aos seus desafios e aos padrões dos inimigos. Em Gynoug, temos a possibilidade de melhorar o disparo do nosso protagonista voador, mas também a oportunidade de reunir até três armas secundárias, que podemos depois ativar. Desde escudos até a raios e bolas de fogo, estas armas adicionais adicionam alguma variedade aos padrões pouco surpreendentes dos projéteis do nosso herói. Fora estas mecânicas, não temos propriamente uma variedade de desafios, níveis com mecânicas únicas ou inimigos que seja verdadeiramente desafiantes de eliminar. Para Gynoug, o desafio nasce dos números e quanto mais inimigos estiverem em campo, mais a campanha tornar-se-á interessante. Para mim, aconteceu o inverso. Os cenários podem ser variados a nível temático, mas dificultam a leitura dos projéteis e criam uma confusão visual que torna a experiência ainda mais desagradável.

30 anos depois, Gynoug é apenas mais um shoot’em up no meio de ofertas mais consistentes. As novas adições não o distanciam dos seus rivais e nem o tornam único. Se Gleylancer foi surpreendente devido à sua aposta em níveis temáticos e numa narrativa mais presente e visual, já Gynoug apresenta-se num formato muito mais clássico e seguro. Não compreendo o porquê de apostarem neste título da Masaya Games em detrimento de outros muito mais empolgantes, como Cybernator e Cho Aniki. Aliás, Gynoug nem se pode munir do trunfo da estreia no ocidente, ao contrário de Gleylancer, pois foi lançado em simultâneo nos Estados Unidos e na Europa, e depois na Virtual Console em 2008.

Afinal, para que serve a preservação? Para desculpar lançamentos destes, ao dobro do valor que deveriam ter? É preciso ter algum cuidado na forma como decidimos reeditar estes clássicos, especialmente quando ainda não temos plataformas dedicadas a catálogos de plataformas descatalogadas. Nesse sentido, Gynoug é apenas mais um jogo de ação. Nada mais, nada menos.

Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela PR Hound.

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