Análise – Gears 5

Depois da trilogia encabeçada pela Epic Games, e que parecia ditar o fim da série, a Microsoft decidiu dar a responsabilidade de continuar a série Gears of War à The Coalition, que chega agora com uma nova oportunidade de garantir que série está em boas mãos.

Com alguns elementos de produção da equipa original a liderar o mais recente jogo, como é o caso de Rod Fergusson, diretor de todos os jogos até agora, Gears 5 é, como muitos já devem ter ouvido e lido, o jogo da série que mais riscos tomou. E valeram a pena.

É fácil julgar o livro pela capa e não há como negar. Ao longe, a série Gears sempre pareceu ser uma power fantasy de homens musculados com amor pelas armas, num jogo de tiros aparentemente genérico, mas por baixo das suas armaduras não só encontramos uma série que revolucionou o género TPS, com a adição do cover shooting, como temos um mundo complexo com personagens ricas e com muitas emoções. Gears 5 é o reflexo disso, dando continuidade a uma nova história iniciada em Gears of War 4, que nos apresentou uma nova geração de personagens e de inimigos, e que tentou expandir o seu universo e responder a questões deixadas em aberto nos jogos anteriores.

Depois do final revelador de Gears of War 4, Gears 5 concentra-se à volta de Kait, que é, para todos os efeitos, a personagem principal do jogo e cuja jornada é o catalisador dos eventos que se iniciam e que abrem as portas da série para futuros jogos. A procura de respostas para as suas visões e origens tornam uma série lembrada por jornadas lineares, com aventuras e eventos entre corredores atrás de corredores, num jogo que segue as tendências positivas de outros jogos recentes, entre os quais, a concorrência.

Gears 5 - Campanha

Não descartando os momentos mais lineares e tradicionais dos jogos anteriores, Gears 5 preocupa-se em esmiuçar ao máximo o design de todos os seus níveis com áreas mais abertas e com oportunidades de combate, ao mesmo tempo que espalha colecionáveis e elementos de história um pouco por todo o lado. Longe estão os tempos em que corríamos à pressa de sala em sala, com a maior urgência do mundo. Aqui temos um jogo muito bem ritmado, com momentos de tensão e horror onde menos os esperamos e que evocam ideias e conceitos do original de 2006.

Mas o grande destaque vai para os segmentos de mundo aberto. Dividido em quatro atos, metade do jogo existe em formato de mundo semi-aberto, isto é, com duas grandes áreas para explorar. Nota-se ao fim de alguns minutos nestas áreas que a The Coalition experimentou algo que não tinha muito bem a certeza se iria resultar, ajustando estes biomas apenas às necessidades narrativas do jogo sem apostar na absurdidade de pontos do mapa de jogos mais contemporâneos. Para muitos, pode parecer pouco, mas felizmente é o suficiente. Cada área tem meia dúzia de locais para visitar com conjuntos de missões secundárias que, apesar de serem opcionais, revelam-se importantes para a história e não só.

Cada local visitado é desenhado ao mais pequeno pormenor, com áreas distintas e desafios por vezes memoráveis. E quando as suas histórias encaixam na principal do jogo, tudo se torna mais rico e interessante. É na navegação por estes mapas que também encontramos uma das maiores novidades do jogo, a utilização do Skiff, um trenó à vela que facilita a mobilidade entre planícies geladas e desertos vermelhos. Preparado para ser utilizado por dois jogadores, a posição de gunman é raramente ou nunca utilizada, mas o Skiff dá-nos também a oportunidade de guardarmos armas interessantes que queiramos trocar antes de entrar em missões secundárias.

Gears 5 - Campanha

A exploração dos níveis e também destas áreas é importante para melhorar as habilidades de Jack, um terceiro elemento da equipa que também pode ser controlado por um jogador que nos auxilia durante os combates, dando suporte, munições, proteção e apresentando habilidades especiais como invisibilidade ou hacking de inimigos. A solo, o primeiro jogador tem total controlo sobre o pequeno “R2-D2” flutuante, tornando o jogo mais tático e cerebral. A necessidade de encontrar materiais de construção e outras habilidades especiais são uma boa justificação para procurar tudo o que existe no jogo, necessidade essa que em jogos anteriores existia por mera caça ao colecionismo.

O cerne da jogabilidade de Gears 5 é o melhor que a série já viu. A The Coalition aprendeu com alguns dos erros do jogo anterior e removeu por completo mecânicas de tower defense, reduziu a resistência de alguns dos inimigos mais frustrantes e afinou todas as armas para uma jogabilidade frenética, com peso e muito satisfatória.

Da tradicional Lancer às novas armas da Swarm, não há praticamente armas menos boas. Todas respondem de forma convincente, são precisas e muito bem espalhadas ao longo do jogo, deixando antever o tipo de conflito ou os inimigos que vamos encontrar em determinado momento. Ao contrário de jogos anteriores, em que teimava em guardar sempre as mesmas armas, aqui vi-me a trocar sempre para as novas ou para as que achava importantes para o momento. As armas mais pesadas e especiais são particularmente interessantes e lembram a originalidade dos jogos da Insomniac, como Ratchet And Clank, com utilizações e efeitos bastante interessantes, mas, obviamente, ajustadas ao tom negro de Gears. Todas estas novidades e sistema de tiro tradicional conjugam com o sistema de cover que se mantém praticamente o mesmo, com a satisfação do encosto quase magnético às paredes e proteções durante os combates.

Gears 5 - Campanha

Gears of War 4 coloca-se no topo da tabela dos jogos mais bonitos da Xbox One, mas Gears 5 vai mais além para se mostrar num dos mais marcantes da geração, colocando-se ao lado de espetáculos técnicos da PlayStation 4, Capcom ou Rockstar. Mantendo a estética exagerada das suas personagens musculadas, Gears 5 aposta num look hiper-realista com ambientes de cortar a respiração e com personagens vivas e ricas em detalhe.

Com uma direção de arte muito sólida e bem trabalhada, em conjunto com o excelente desempenho do Unreal Engine, Gears 5 apresenta-se com valores de produção cinematográficos tanto em jogo como nas suas cinemáticas em tempo-real. A ambição de Gears 5 não é, no entanto, um fator limitador da Xbox One S e original, que apesar de correrem apenas a 30FPS, para os jogadores comuns irá manter aquela qualidade esperada para um jogo desta geração. Já na Xbox One X e no PC as coisas são ainda melhores, graças a resoluções mais altas e à possibilidade de ter o jogo a correr a 60FPS, dando uma nova vida a toda a ação no ecrã.

Infelizmente, apesar de toda esta ambição tecnológica e de uma história com um excelente ritmo e que expande emocionantemente o mundo da série, a banda sonora é o elo mais fraco. Ramin Djawadi, da fama de Game of Thrones e Westworld, está novamente a cargo da banda sonora. Apesar de um esforço enorme em criar novos temas e até em trazer melodias de jogos anteriores, as músicas de exploração são aquelas que vão estar a tocar mais no fundo e é impossível não fazer por vezes comparação a melodias das séries da HBO, que fazem questão de tocar em loop vezes de mais do que é pedido. No entanto, não quer dizer que Gears 5 tenha uma má banda sonora. Há muitos temas de destaque ao longo do jogo, apenas parece que são usados de forma desequilibrada.

Gears 5 - Multijogador

Mas a campanha de Gears 5 é apenas metade do jogo, com o seu multijogador a ser um dos motivos de aquisição para muitos jogadores. De regresso temos o modo Horda, com a suas ondas de inimigos sucessivamente mais difíceis. É um modo perfeito para jogar com amigos para a galhofa, onde podemos partilhar vitórias e frustrações, sempre do mesmo lado da equipa. Também para jogar lado a lado temos a estreia do Escape, um modo de jogo onde juntamos até três amigos para escapar de um mapa cheio de ameaças. Com um registo reminiscente de jogos como Left 4 Dead, estes eventos podem também ser feitos em mapas criados pelos jogadores, o que acrescenta um interessante nível de longevidade a longo prazo e que poderá ser um dos modos mais engraçados para jogar com amigos. E claro, temos o modo Versus, com seus sub-modos e onde encontramos a experiência de multijogador competitiva.

Apesar de não ter passado muito tempo nestes modos extra, todos eles são extremamente divertidos e contam com uma jogabilidade bastante semelhante à da campanha, com a exceção do uso de habilidades especiais de cada uma das personagens, que podem ser ativas durante as batalhas, a estarem em grande destaque.

Gears 5 tinha tudo para ser mais do mesmo. Até certo ponto, é precisamente isso, especialmente se olharmos para as fundações do jogo e para o género que se mantém inalterado desde o início da geração passada. Mas a verdade é que o género pouco mudou e foi-se transformando e expandindo para outros formatos, adaptado a jogos de mundo aberto e exploração que acabam por serem todos iguais.

Aqui não é o caso e é o formato tradicional que ganha. Gears 5 é Gears of War no seu estado mais puro e orgulha-se disso, ao mesmo tempo que arrisca com piscares de olhos a outros géneros e com uma aposta inesperada na narrativa, também ela extremamente satisfatória. Resta agora saber onde a The Coalition nos irá levar na sua próxima aventura.

Gears 5 chega globalmente aos PCs Windows 10 e Xbox One dia 10 de setembro.

Gears 5
Nota: 9/10

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