Análise – Fire Emblem: Three Houses

por João Canelo

Depois uma longa estadia na Nintendo 3DS, a famosa série de estratégia estreia-se na Switch com uma nova vontade em inovar e em suplantar os seus antecessores. Para todos os efeitos, Fire Emblem: Three Houses é não só uma vitória e um título imperdível para todos os fãs do género, mas também um decisivo passo em frente que expande o universo da série e a sua jogabilidade para novos horizontes.

Fire Emblem: Three Houses é, à primeira vista, um tradicional RPG de estratégia por turnos, onde temos à nossa disposição várias classes de soldados e um sistema interessante de pedra-papel-tesoura que determina as vantagens e desvantagens dos nossos heróis. No seu cerne, Three Houses é familiar, mantendo o foco na ação e nas batalhas em larga escala, com uma dificuldade bem acentuada que requer toda a atenção dos jogadores e a máxima compreensão das mecânicas para chegarem ao final de cada confronto.

Apesar das suas semelhanças a outros títulos da série, este é um ponto de viragem que representa uma clara vontade em inovar e em evoluir a fórmula. Os combates continuam a estar em grande destaque, como seria de esperar, e representam uma parte significativa da experiência do jogo.

No entanto, Fire Emblem: Three Houses dá-nos uma maior sensação de controlo e variedade que não estavam presentes na série, indo ao ponto de melhorar as animações em combate – criando uma maior sensação de caos dentro dos conflitos –, mas também a efetividade dos terrenos, que influenciam agora a posição das nossas tropas – como a possibilidade de nos escondermos em florestas para reduzirmos as hipóteses de sermos atacados –, os bónus temporários, novas classes e equipamentos e toda a evolução detalhada e profunda de cada um dos soldados.

Os Gambits são também novidades, com estes ataques especiais a darem aos comandantes de cada exército a possibilidade de realizar um ataque com efeitos adicionais. Estes golpes só podem ser utilizados uma vez em combate e podem afetar a movimentação dos inimigos, provocar “terror” ou provocar as tropas à nossa volta e captar a sua atenção. O controlo de unidades é igualmente importante e a Intelligent Systems conseguiu criar um sistema de combate que consegue desafiar-nos em cada confronto, adicionando vantagens e desvantagens a todas as mecânicas presentes.

No entanto, Fire Emblem: Three Houses não é tão cruel como alguns jogos da série, com a morte permanente a ser uma opção e não uma obrigatoriedade. Se juntarmos a estes elementos a possibilidade de voltarmos atrás no tempo e corrigirmos os erros em combate, percebemos como houve uma tentativa de dar uma jogabilidade mais abrangente, ainda que pensada também para os fãs da série.

Fire Emblem: Three Houses não trouxe apenas novidades ao sistema de combate, mas sim a toda a campanha. Ao manter o foco nas personagens e nos conflitos dramáticos e emocionais, a Intelligent Systems conseguiu criar um mundo detalhado e dar igual destaque às três fações em combate. Se gostarem de drama, de momentos cómicos inesperados e de personagens muito intensas e melodramáticas, Three Houses é perfeito para vocês.

O grande destaque vai para a própria estrutura da campanha, que assume agora o formato de simulador de vida escolar. Em Three Houses, somos um professor universitário que tem de ensinar e encaminhar uma turma de alunos ao longo do ano escolar. Ao escolherem uma das três fações, terão acesso a um leque de estudantes, que pode ser expandido ao longo da campanha, com várias classes, gostos e interesses.

Para os ajudar, terão de organizar as vossas sessões de estudo, encaminhá-los pelos exercícios indicados e que melhoram as suas habilidades, bem como dar conselhos preciosos no final de cada aula ou durante os convívios nos tempos livres. Este é o segundo grande foco de Three Houses, esta aposta na vida quotidiana e no relacionamento interpessoal que dá ao jogo um charme incrível e uma alma enorme, nomeadamente através da construção da confiança entre os alunos.

A ação divide-se por mês, com várias missões e atividades a ficarem disponíveis durante um período fixo de tempo. As semanas podem ser compostas por aulas, exploração, combates de treino ou, por fim, pelos conflitos que avançam a história – e para os quais nos devemos preparar. É fácil aceder a todas as tarefas e missões, com o calendário a ser acessível a qualquer momento. Existe, como seria de esperar, uma constante escolha entre o que devemos ou não fazer, existindo um limite nas ações que podemos realizar por dia.

Por exemplo, teremos sempre de escolher se queremos acabar uma missão ou ir pescar com os alunos e melhorar o nosso relacionamento, ou participar num almoço com a turma ou noutra atividade secundária disponível durante o mês. Há sempre uma escolha a fazer, com o foco a ser sempre o mesmo: garantir que os nossos alunos se transformam em excelentes soldados.

Não existem dúvidas de que a Intelligent Systems se inspirou na série Persona, com Fire Emblem: Three Houses a assumir esta estrutura mais próxima de um simulador social, onde temos de gerir o nosso relacionamento com outras personagens e a sua motivação dentro e fora dos combates, mas também pela forma como podemos explorar Garreg Mach, o mosteiro onde decorre a maioria da ação. Os cenários são totalmente acessíveis e é onde encontramos as personagens principais, futuros recrutas, missões secundárias e outras atividades.

Há, assim, uma maior liberdade e controlo sobre o ritmo da ação, com o jogo a oferecer muitos conteúdos para além dos combates. E com a aposta na vida escolar, nos estudos e na educação de um grupo de alunos, acaba por existir um envolvimento mais palpável e há uma maior preocupação em equipar e preparar estes soldados que são, por um lado, extensões dos nossos próprios valores e formas de jogar.

As comparações a Persona estendem-se até à própria aposta no relacionamento entre personagens, seja com os alunos ou com outros professores. Como um professor novato, temos a oportunidade de aprender com os outros mestres e expandir os nossos conhecimentos. Ao dialogar-nos com os colegas, seja por Garreg Mach ou durante uma refeição, podemos aprender novas informações sobre vários tópicos e aplicá-los nas aulas. Se nos faltar uma especialização ou conhecimento sobre um tema que os alunos querem explorar, precisaremos da ajuda dos colegas mais experientes para ajudarmos os jovens.

A gestão do tempo volta assim a atacar, com mais um elemento na impressionante lista de mecânicas do jogo, com o domingo a servir como um dia livre de obrigatoriedades para explorarmos os fatores que achamos prioritários.

No que toca ao aspeto visual, Three Houses surpreende pelo seu uso de cores fortes, pelos modelos e desenhos das suas personagens, bem como nas animações fortes e detalhadas em combate, mas não é a evolução que poderiam estar à espera. Apesar da sua performance ser muito sólida, e onde só registámos alguns slowdowns na versão portátil, os cenários são demasiado simples para nos agarrar, com os combates a decorrerem em mapas que se parecem repetir constantemente. Garreg Mach destaca-se pela direção de arte, mas não é, de todo, um local com personalidade e com elementos que o destaquem.

Fire Emblem: Three Houses é uma evolução decisiva para a série e um dos melhores jogos de estratégia na Nintendo Switch, dando aos jogadores uma jogabilidade muito variada e um maior controlo sobre a gestão dos seus soldados, desde a sua classe até às suas especializações. Os combates continuam a seguir o mesmo modelo da série, com as batalhas a decorrerem por grelhas, mas com um estilo muito mais cinemático e dramático. O jogo peca por alguma falta de criatividade no que toca aos seus cenários e à sua insistência em dar-nos combates de “tentativa e erro”, mas não existem dúvidas de que é um excelente RPG e uma base perfeita para os futuros títulos da série.

Este jogo foi cedido para análise pela Nintendo Portugal.

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