Análise – Fallout 76

por David Fialho

Como seria a experiência Fallout se fosse um jogo multijogador? Esta é a questão que a Bethesda lança com Fallout 76.

O novo jogo do universo Fallout não é uma sequela do jogo de 2015, Fallout 4, mas sim um spin-off que funciona também como prequela deste universo. Passa-se no estado de West Virgínia, em 2102, quando o Vault 76 é aberto para que os sobreviventes de um holocausto nuclear possam voltar a popular o mundo.

Cabe ao jogador vestir a pele de um desses sobreviventes, descobrindo rapidamente que o mundo se encontra num estado ainda decadente, cheio de perigos e habitado por mutantes, monstros e robôs psicóticos.

Fallout 76 é um jogo inteiramente online, focado no multijogador e que pretende usar as mecânicas já conhecidas pelos fãs da série, mas num ambiente virtual partilhado.

Com um mundo cuja área é sensivelmente quatro vezes maior que em Fallout 4, todos os NPCs são outros jogadores, o que demonstra, só por si, uma enorme ambição para este título. A ideia de entrarmos num jogo de sobrevivência e encontrar outro jogador que nos possa trair e roubar tudo o que temos é emocionante, apesar de não ser nova, e o facto de podermos escolher a nossa aventura num mundo partilhado é igualmente interessante.

Infelizmente, Fallout 76, apesar do seu conceito ambicioso, falha nos elementos mais básicos e desilude enquanto produto e jogo dentro desta aclamada série. É um produto inacabado, em estado quase embrionário, e, enquanto jogo Fallout, as suas mecânicas e a sua jogabilidade deixam muito a desejar.

Depois de uma fase beta muito atribulada e com um estranho controlo por parte da Bethesda, entrei em Fallout 76 consciente que não ia ser uma tarefa fácil, mas, quanto mais joguei, mais sentia vontade de parar e esperar por melhores dias.

Fallout 76 é claramente um serviço e não um produto completo. Desde a sua apresentação ao seu desempenho, passando pelas mecânicas e estrutura, o jogo demonstra falhas graves e injustificáveis para um jogo com esta ambição.

Apesar de estar desenhado para o online e necessitar sempre de uma ligação aos servidores, Fallout 76 pode ser jogado a solo e inclui uma narrativa composta por missões lineares, missões secundárias e eventos, que, por vezes, podem contar com a companhia de outros jogadores aleatórios ou amigos a qualquer momento.

A falta de NPCs é substituída essencialmente por textos e notas que nos dão objetivos e indicações. Em vez de personagens com diálogos e trechos de cinemáticas, dirigimo-nos a computadores, corpos e restos de habitantes com notas nos bolsos e robôs com os quais podemos interagir.

A maioria das missões a que tive acesso mostraram-se simples, aborrecidas e desorientadas. Perceber o objetivo de algumas tornou-se mais complicadas do que o que se desejava e, na sua maioria, baseiam-se simplesmente na interação com uma máquina ou computador ou na sobrevivência a ondas de inimigos numa determinada área.

Fallout 76 está desenhado para ser um jogo de procura, apanha e modificação de itens, com poucas motivações para realmente avançar entre missões ou progredir.

A interação com outros jogadores também se mostra algo pobre. O mundo não é tão populado por outros jogadores como seria de esperar e todos aqueles com que tentei interagir preferiram ignorar-me e fazer os seus objetivos. Em momento algum senti que havia cooperação ou competição entre elementos e em nenhuma das missões ou explorações feitas durante as minhas horas de jogo senti a necessidade de ter alguém ao meu lado.

Jogadores de títulos anteriores da série, como Fallout 3, New Vegas e Fallout 4, podem sentir-se algo confortáveis com a jogabilidade e com a navegação nos menus, que, apesar do foco do jogo, mantêm-se virtualmente iguais. Infelizmente, isso também se demonstra um problema.

Num ambiente online, utilizar o Pip-Boy não é nada prático. A navegação entre menus requer prática e aprendizagem e, em momentos mais atarefados, como confrontos com inimigos, a gestão de itens é próxima do impossível. Enquanto mudamos de arma ou armadura, é fácil morrermos de um ataque ou de radiação do ambiente, o que se torna frustrante.

Fallout 76 tem uma roda de seleção de ações e itens que, infelizmente, conta com alguma dificuldade na leitura e gestão deste sistema, acabando por nos fazer recorrer ao sistema arcaico do Pip-Boy.

Os combates em si também não são nada convidativos. O uso da terceira pessoa é praticamente indispensável, com o nosso avatar a ocupar uma porção significativa do ecrã, não nos dando sequer espaço para contemplar o que está à frente do jogador. Já na primeira pessoa os controlos são estáticos e arcaicos. Acertar num inimigo com uma arma de fogo ou de arremesso é uma autêntica aventura pelas piores razões.

Uma das mecânicas mais conhecidas na série Fallout é o V.A.T.S. (Vault-Tec Assisted Targeting System) introduzido em Fallout 3, que permitia ao jogador pausar o jogo em tempo real para escolher uma área do corpo do inimigo onde os seus ataques com armas de fogo pudessem ser mais eficazes.

Num ambiente online é impossível pausar o tempo, mas a Bethesda encontrou uma maneira de incluir uma nova versão deste sistema. Novamente, é algo que não é bem aplicado, uma vez que a mira, ao ser ativa, desloca-se automaticamente para uma das áreas do corpo do inimigo de uma forma tão estranha que nos faz falhar qualquer bala disparada logo a seguir por causa do balanço desse movimento.

Estas mecânicas e problemas são amplificados pelos problemas técnicos do jogo, como quebras de fluidez absurdas (na versão Xbox One é por vezes injogável), pausas de sincronização com os servidores e eventuais quedas que obrigam a regressar ao menu do jogo.

São também frequentes os momentos em que as personagens ficam congeladas durante o jogo sem que seja possível interagir com elas. Acontece várias vezes ficarmos com o ecrã preso durante dezenas de segundos enquanto se ouve o jogo a continuar e há um número de bugs e glitches hilariantes demasiado elevado para um jogo com estes níveis de produção, até mesmo para o que é normal vindo da Bethesda, que é conhecida e acarinhada pela comunidade por problemas destes.

Sendo um novo jogo da saga, lançado depois de Fallout 4, seria de esperar melhorias significativas a nível visual em Fallout 76. Recorrendo ao mesmo motor de jogo, o novo título é altamente inconsistente, não fazendo crer que estamos num jogo bem mais recente. Existe muita reciclagem de modelos, as áreas do jogo são aborrecidas e os ambientes escuros tornam o jogo impossível de ser jogado devido aos tons de preto esborratados. Jogar nos períodos de noite simplesmente não dá.

Fallout 76 não é, no seu estado corrente, um bom jogo. Conta com um conceito ambicioso e parece ter sido produzido para uma porção muito especifica de fãs – os que gostariam de jogar um Fallout com amigos.

Infelizmente, apresenta-se desinspirado e com problemas técnicos que não serão do agrado de todos e com um desempenho que seria de esperar de um jogo em crowdfunding ou em early access, não de um jogo final.

A Bethesda promete continuar a trabalhar em Fallout 76, melhorando os seus problemas e adicionando-lhe conteúdo. Talvez seja um jogo bem melhor daqui a um ano, mas, para já, e para este Natal, infelizmente não se recomenda.

Fallout 76 está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC.

Este jogo foi cedido para análise pela Ecoplay.

 

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