Análise – El Shaddai: Ascension of the Metatron (PC)

Uma experiência única que chega finalmente ao PC depois de anos de esquecimento.

- Publicidade -

Com a aposta em modelos digitais, seria de esperar que a preservação de videojogos não fosse um problema. Por esta altura, já devíamos sonhar em ter catálogos extensos em todo o tipo de plataformas, desde as tradicionais consolas ao PC e aos serviços de streaming, mas tal futuro parece manter-se distante e, por vezes, até inatingível. Existem vários fatores que colocam um travão neste cenário de sonho e se, por vezes, temos questões legais e de licenças, por outras trata-se apenas de uma falta de engajamento e popularidade aquando do lançamento de um determinado videojogo. As equações são muitas e é por esse motivo que fico surpreendido e feliz por ver títulos como El Shaddai: Ascension of the Metatron a libertarem-se das suas amarras geracionais para encontrarem um novo público e uma tão merecida segunda oportunidade.

O título de Sawaki Takeyasu, que colaborou em projetos como Devil May Cru e Ōkami, foi uma das experiências mais marcantes que encontrei na sétima geração de consolas. Lançado originalmente em 2011, El Shaddai: Ascension of the Metatron desafiou o conceito de jogo de ação e aventura reestruturando o seu sistema de combate e focando a sua campanha numa adaptação romantizada da história de Enoque, protagonista de um dos livros não-canonizados da Bíblia Judaica e do Segundo Dilúvio, que desafia igualmente a noção de tempo e de imortalidade que raramente vemos no mundo dos videojogos.

Escusado será dizer que El Shaddai é tudo menos o vosso típico jogo de ação e aventura, e penso que foi isso que o afastou da atenção da maioria dos jogadores, apresentado através de um dos estilos visuais mais marcantes das últimas gerações, mas construindo-se em torno de uma campanha demasiado linear e de um sistema de combate profundo, mas igualmente assente na simplicidade e em mecânicas básicas que pronunciaram o jogo como impróprio para os fãs do género. Apesar desta segunda oportunidade, El Shaddai enfrenta exatamente os mesmos desafios que encontrou há 10 anos e a nova conversão, apesar da remasterização suportar 4K, pouco adiciona à experiência basilar desta criação de Takeyasu.

El Shaddai: Ascension of the Metatron

O meu olhar mais negativo e apocalíptico não nasce de um dissabor ao reencontrar um videojogo que defendi durante anos, agora vítima da passagem do tempo, mas da minha descrença em sentir que El Shaddai será finalmente compreendido. Com um mercado ainda mais extenso e competitivo do que há 10 anos, não existe espaço para uma peça que é tão experimental, como segura, mantendo-se num meio-termo desconfortável, apesar da sua experiência sensorial e temáticas apontarem para uma experiência inesquecível a todos os níveis. O relançamento não resolve os seus problemas, não é esse o seu objetivo, e se não apreciaram o combate ou a linearidade de El Shaddai aquando do seu lançamento, não será a sua chegada ao PC e Steam que mudará a vossa opinião. Tremo com a perspetiva de uma receção negativa ou igualmente morna por parte do público, mas é bom existir sequer uma oportunidade. Vejamos o copo meio cheio.

A viagem de Enoque leva-o de regresso ao Planeta Terra, anos depois de ter sido escolhido por Deus para ascender aos céus e numa busca pelos setes anjos caídos que, apaixonados pelos humanos, abandonaram os seus deveres celestiais e passaram a viver lado-a-lado com aqueles que deviam monitorizar. Esta afronta a Deus ameaça ser o fim da Humanidade e apenas Enoque pode parar um Dilúvio que mergulhe o planeta num mar interminável. Esta aventura expande-se ao longo de séculos, talvez milénios, e desafia as nossas noções temporais para construir uma campanha assente na criatividade e na variedade de estilos visuais que emprega. Não existem dois níveis idênticos e Takeyasu teve o cuidado de demonstrar a evolução da espécie humana e do mundo, agora sem Deus, à medida que os Anjos se aproximam dos humanos e transformam tudo à sua volta num misto entre escravidão, idolatria e amor.

O contraste entre cores, as paletas variáveis, os cenários extensos e a profundidade de campo, tanto em 3D como nas sequências em 2D – que se focam mais nas plataformas –, dão vida a esta era presa entre mito e realidade, onde o Antigo Testamento e as suas lendas são exploradas e personificadas numa campanha que é mais emocional do que narrativa, onde nem sempre a história é percetível, mas sensível aos seus temas mais visuais.

A linearidade demonstra esta aposta na exploração de tópicos fortes e reforçam a adaptação dos acontecimentos relatos em O Livro de Enoque, mas é difícil defender a sua rigidez à medida que a campanha avança. A estrutura não muda, casmurra no seu formato, e a ausência de exploração num mundo tão esbelto e marcante continua a doer ainda hoje, mas é uma escolha que percebemos rapidamente ser propositada exatamente para manter esta beleza controlada e a experiência focada num crescendo constante. É um jogo movido pela força da sua direção de arte e não pelas mecânicas, o que poderá criar alguma dissonância junto de jogadores que procurem o oposto: isto não é Devil May Cry.

No entanto, o sistema de combate traz algumas escolhas interessantes e existe profundidade suficiente para ser desafiante em qualquer dificuldade que escolham. Ao contrário de outros títulos do género, El Shaddai abandona as combinações complexas em prol de controlos e mecânicas mais simples e diretas, tal como intuitivas, reduzindo o número de armas para três – que funcionam num esquema de pedra-papel-tesoura – e a ação para um único botão. Não existem ataques rápidos, pesados ou a possibilidade de utilizarem duas armas em simultâneo. Em El Shaddai só terão de se preocupar com um botão de ataque e outro de defesa, e é com este esquema básico de controlos que se constrói todo o sistema de combate.

El Shaddai: Ascension of the Metatron

A profundidade do sistema de combate surge através do tempo e da rapidez com que usam cada arma. Não só existem vantagens e desvantagens entre as armas celestiais, que são mais eficazes contra determinados inimigos, como podemos realizar várias combinações ao espaçarmos os ataques. Por exemplo, com o Arch, que funciona como a espada do jogo, podemos quebrar a defesa dos inimigos ao atacarmos, esperarmos e voltarmos a atacar, com Enoque a saltar para as costas dos inimigos: e isto sempre com um botão. Existem mais combinações que dependem do nosso “timing” e podemos também adicionar a possibilidade de segurar o botão de ataque para disferirmos um golpe mais forte ou então combinar com o botão de defesa e projetarmos os inimigos para o ar.

A dificuldade aumenta à medida que El Shaddai adiciona mais inimigos à sua fórmula e obriga-nos a controlar as hordas, mas também tipo de armas que estamos a utilizar. Em combate, não podemos apostar numa só arma ou seremos derrotados. É preciso mantermo-nos em movimento e aproveitar as armas corretas para eliminarmos, aos poucos, os vários inimigos em campo. Cada arma também tem uma habilidade única, como o desvio rápido, que também devemos equacionar em combate e nos segmentos de plataformas, com os vários sistemas a combinarem-se harmoniosamente devido à purificação e roubo das armas.

Com os ataques, as armas de Enoque ficam carregadas de negatividade e maldade, e é necessário purificá-las para recuperar o seu poder de ataque. Isto significa que temos de parar, afastar-nos e purificar a arma, com qualquer golpe a parar o processo. A purificação dá lugar ao roubo de armas, que é possível quando enfraquecemos os inimigos, e ambas as mecânicas funcionam perfeitamente em combate e dão ao jogo a tão necessária profundidade que necessita.

Com o lançamento no PC, El Shaddai: Ascension of the Metatron regressa à mentalidade da indústria e procura uma vez mais um lugar no género. No que toca às novidades, a nova versão é escassa onde devia ser arrojada, mas o desempenho foi bastante sólido e o jogo comportou-se bem nas especificações máximas. Os vídeos não sofreram quaisquer melhorias e é sempre chocante vermos a qualidade a aumentar quando começamos a jogar, mas não será isto que irá fazer a diferença.

El Shaddai continua a ser a mesma experiência visual e emocional que experienciei em 2011. É bom vê-lo de regresso e espero que vocês, leitores, descubram este clássico perdido pela primeira vez, mas temo que o passado se repita. É cíclico. Resta saber se o azar bate duas vezes à porta de El Shaddai.

Nota: Muito Bom

Disponível para: PC
Jogado na PC
Cópia para análise cedida pela PR Hound

- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Parceiros

Relacionados

Análises de videojogos: Adeus Notas

Porque opiniões são mais do que notas e números.

Análise – Life is Strange: True Colors (PlayStation 5)

Life is Strange: True Colors não mostra todas as cores que seriam de esperar de um jogo da série, mas a sua escala menor e mais intima, aliada à atmosfera e ao tipo de escrita que a define, tornam o jogo uma delicia para qualquer fã.

Análise – Ultra Age (PlayStation 4)

O equivalente aos bonecos de Dragon Ball Z que comprávamos nas papelarias, mas mais divertido.

Análise – Tormented Souls (PlayStation 5)

Uma homenagem sentida e desafiante a alguns dos maiores clássicos do género de terror.
- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Recentes

Shawn Mendes regressa a Portugal em 2022

King Princess junta-se ao músico para assegurar a primeira parte do espetáculo.

Desconfinamento. Bares e discotecas voltam a funcionar a 1 de outubro e acabam os limites de lotação

O certificado digital será necessário para aceder a grandes eventos e a máscara continua a ser obrigatória em várias situações. Mas há exceções.

O Jumanji está a caminho da Playstation 5

Jumanji: The Video Game vai ser relançado com uma edição adaptada à nova consola da Sony.