Análise – Bravely Default II (Nintendo Switch)

Um regresso seguro à fórmula clássica do género naquele que será um dos exclusivos mais esquecíveis da Nintendo Switch.

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Esta talvez não seja a análise que esperam de Bravely Default II e muito menos será uma ponderação dentro do meu estilo habitual, mas o cansaço que sinto em torno de um género que me é tem de ser evidenciado. Este texto é tanto uma análise ao saudosismo desta série da Square-Enix, como um exercício psicanalítico pessoal, no sentido de tentar perceber como uma fórmula que me acompanhou durante os meus anos formativos é agora capaz de me sugar a vitalidade de todos os poros do meu corpo.

Se não estão dispostos a acompanhar uma análise mais pessoal e, assumidamente mais negativa, posso saltar, por momentos, para o final e confirmar-vos que Bravely Default II é um bom jogo. Apesar de não ter jogado os títulos anteriores, lançados na Nintendo 3DS, posso concluir com todas as certezas que é um excelente sucessor da sua fórmula clássica, mantendo a aposta num mundo extenso, composto por cenários pintados à mão – que mais se assemelham a livros infantis –, e num sistema de combate por turnos que se constrói em torno do sistema de Jobs, onde podemos combinar e alterar classes ao longo da campanha. As suas mecânicas são totalmente funcionais, os combates são desafiantes e existem não só missões secundárias, como classes adicionais para descobrir, tal como itens e armaduras raras, e ainda uma aposta num serviço online onde, em tempo real, lançarão um barco em busca de tesouros.

Dentro do seu design, Bravely Default II é o mesmo jogo que já viram vezes sem conta ao longo de décadas. O que tornou o original num sucesso, em 2012, fora a sua recusa pelas normas contemporâneas, de mundos abertos e de sistemas de combate mais vocacionados para a ação, retornando os ponteiros do relógios para uma era mais simples, mas reconfortante, recuperando a narrativa tradicional em torno de quatro heróis da luz em busca dos quatro cristais do mundo. Durante a viagem, descobrem aliados e vilões, quase sempre sob a forma de um império totalitário que procura os cristais para o seu benefício, mas também pequenas estórias que complementam a mitologia do seu mundo, ainda que de uma forma básica e quase sempre assente em clichés do género. Na sequela, temos exatamente a mesma forma: 2012 foi há muito tempo.

Parti para Bravely Default II com vontade de regressar ao passado e de redescobrir um género que me consumiu centenas de horas durante a adolescências, mas é duro reconhecer que o tempo não foi simpático para estes spin-offs da Square-Enix. A estória, como sempre, cansa e constrói-se demasiado nas estruturas dos títulos em que se inspira para ter uma ponta de originalidade, ainda que se esforce para criar momentos dramáticos e uma maior profundidade no relacionamento entre personagens – utilizando agora momentos de diálogo muito semelhantes aos presentes na série Tales of. Mas em cinco horas, o cansaço já se estava a instalar e as falas sem personalidade ou força dramática arruinaram o que poderia ter sido uma viagem nostálgica. No entanto, surge também o momento em que tenho de admitir que o problema poderá ser apenas meu, este cansaço que sinto, mas há sempre uma vontade em perceber como a fórmula poderá evoluir e melhorar com os anos de progresso entre o jogo original e a sua homenagem.

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Existem, reforço, elementos positivos neste projeto da Square-Enix. Apesar de não conseguir voltar atrás e embrenhar-me totalmente num sistema de combate por turnos, ainda que existam exceções – como o sistema Press Turn, da série Shin Megami Tensei –, as mecânicas de Brave e Default são empolgantes. Como o meu primeiro contacto com estas mecânicas aconteceu nesta sequela, tudo me pareceu fresco e aliciante, apesar de não poder analisar como evoluíram de jogo para jogo. A ideia é simples: controlar os nossos turnos e utilizá-los à nossa maneira. Com a opção Brave, podemos utilizar vários turnos de uma vez e atacar os inimigos com uma sucessão de golpes, magias ou itens que nos permitem criar uma vantagem acentuada.

No entanto, surgem aqui dois problemas. Não só os inimigos têm a mesma habilidades, como ficamos incapacitados de atacar se utilizarmos todos os turnos de seguida, obrigando-nos a esperar enquanto os turnos utilizados são repostos. Por outro lado, temos a opção Default, o seu inverso, que nos dá a possibilidade de não só defender, mas também arrecadar um total de três turnos adicionais que poderemos utilizar a qualquer momento. Desta forma, a série Bravely Default molda o tradicional e cansativo sistema por turnos à sua mercê, dando ao jogador mais opções de ataque e uma maior sensação de estratégia – culminando num excelente equilíbrio entre o poder da nossa equipa e o número de inimigos em campo.

Bravely Default II não é um jogo propriamente acessível, especialmente nas batalhas contra bosses, mas existem Jobs e habilidades suficientes para fazerem face a qualquer criatura inimiga. Apesar de não termos uma aposta no posicionamento das nossas personagens, como em alguns títulos da série SaGa, temos, em contrapartida, a presença de um sistema de vulnerabilidade. Cada inimigo tem uma fraqueza que poderemos explorar para aumentar o dano que não fica restrita às magias ou aos elementos naturais. As espadas, adagas, arcos, machados, entre outros, também contam como fraquezas, o que nos motiva a combinar ataques físicos e classes – existe a possibilidade de ter um Job principal e outro secundário – com maior regularidade. De facto, a possibilidade de equiparmos mais do que uma arma é também uma força motora para este sistema, visto que existe uma maior aposta na variedade de equipamentos em combate. Simples, mas eficaz a longo prazo.

O problema do sistema de combate é a sua rotina. Mais uma vez, talvez esteja perante um problema unicamente pessoal, mas relembro que estamos a meio de uma sessão psicanalítica. A repetição de combates, de ações e de espera são exasperantes em Bravely Default II. Mesmo com os seus sistemas interessantes, é impossível não sentirmos que a lentidão do jogo levará sempre a melhor. Os grupos extensos de inimigos, por exemplo, são um desafio empolgante no início, mas rapidamente se transformam em dores de cabeça quando percebemos que acabamos de encontrar mais um combate de dez ou mais minutos. O ritmo, para mim, não é eficaz e os ataques físicos nunca tiram verdadeiro partido das vulnerabilidades dos inimigos, apesar do que descrevi em cima.

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São mecânicas que funcionam, sim, mas que não evoluem e perdem a sua versatilidade de combate para combate. Mesmo com a presença de uma quinta personagem (que não podemos controlar) e da opção de acelerar os combates, algo se perde na rotina deste sistema velho e com um cheiro forte a naftalina.

No entanto, a presença de várias classes mantém o combate vivo e saudável. Apesar de não ser o seu maior fã, pois sinto que este sistema já precisa de alguma variedade, a verdade é que a combinação e variedade de classes são aliciantes e o jogo faz um excelente trabalho em conciliar aquelas que estão ligadas à progressão da campanha – e que são obrigatórias – das classes adicionais e secretas. No fundo, sentimos que estamos constantemente a encontrar novas opções de personalização que nos motivam a mudar a estratégia, o armamento e o foco da nossa equipa. As opções são empolgantes e a variedade de combinações dependerá da imaginação de cada jogador, mas existe sempre espaço para a experimentação e para aqueles que querem completar o jogo a 100%. A base é sólida, mas já a vimos repetida em inúmeros jogos. A magia, para mim, desapareceu.

Peço desculpa pelo pessimismo desta análise, mas quero demonstrar e deixar assente a minha frustração com o género RPG. Eu compreendo o foco de Bravely Default II e a sua aposta em mecânicas clássicas e numa campanha que é, em todos os sentidos, nostálgica, mas não consigo fechar os olhos ao facto de estar a jogar o mesmo jogo pela centésima vez. Eu sei que esta é uma conclusão injusta, talvez até demasiado pessoal, mas há, para mim, um limite no saudosismo. Não basta imitar, é necessário inovar e construir um novo degrau na evolução do género, e Bravely Default II não é esse degrau. É uma planície que utiliza os mesmos estereótipos de personagens, os mesmos clichés, construção de mundo, mecânicas e até estilos visuais – o modelo dos heróis continua a ser inspirado por Final Fantasy: The 4 Heroes of Light e a arte de Akihiko Yoshida – de outros jogos: e eu não consigo aguentar mais este formato.

Estou a ser demasiado duro, mas é uma luta interna. Eu quero adorar Bravely Default II e deixar-me perder no seu mundo tal como acontecia há 15 anos atrás, mas não é possível. O tempo passou e preciso de algo novo, mais arrojado ou então diferente o suficiente para ter a sua própria identidade. Mas reforço: Bravely Default II é um bom jogo.

Se adoram RPGs e não têm quaisquer problemas com combates por turno, há muito para descobrir neste exclusivo da Nintendo Switch, mas se, como eu, se sentem cansados com o género e já não toleram os seus clichés, então a mensagem é clara: evitem. Crescer é horrível, ficarmos velhos será sempre aterrador e é com esta sensação que abandono Bravely Default II. Cai a cortina.

Nota: Bom

Disponível para: Nintendo Switch
Jogado na Nintendo Switch
Cópia para análise cedida pela Nintendo Portugal.

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