Análise – Anodyne 2: Return to Dust (Xbox One)

Uma viagem emocional e marcante por um mundo coberto de pó e cinza.

Anodyne 2: Return to Dust
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Do pó viemos e para o pó retornaremos. Não é apenas uma ponderação filosófica, mas sim a realidade da nossa existência. Nascemos, vivemos e morremos. A ordem é imutável e a estória termina sempre da mesma forma. Podemos lutar contra o destino, profanar os céus e os infernos da existência, mas continuamos a caminhar para a morte a cada segundo, minuto e hora que passa. Ao pó retornaremos. Ponto final.

Anodyne 2: Return to Dust é uma surpresa agradável, no sentido em que é muito mais do que o seu género e estilo visual. No papel, é um jogo de aventura que se divide em dois modos de exploração: o primeiro, em 3D, constrói-se num mundo semi-aberto com várias localizações que podemos descobrir e explorar livremente, munindo-se de um grafismo que o aproxima de títulos da PlayStation original e da Nintendo 64; o segundo, e aquele que sobrevive do primeiro jogo, é um modelo muito próximo à série The Legend of Zelda, relegando a ação para cenários top-down com puzzles simples e um sistema de combate focado na recolha e projeção de inimigos.

A combinação entre os dois estilos é suave e funciona narrativa e concetualmente ao longo da campanha. Entre momentos de exploração, podemos entrar, literalmente, para o interior de várias personagens e limpá-las do terrível “pó”, que não só prejudica a sua saúde, como é capaz de alterar a sua personalidade. Como Nova, uma Duster Cleaner, esta é a nossa missão. E sempre que escolhemos auxiliar uma das personagens, abandonamos o mundo 3D, diminuímos de tamanho, até ao ponto microscópico, e damos inicio à aventura 2D. No final, quando terminamos a limpeza, temos acesso a pó e a uma carta que nos ajudarão a limpar o mundo e a aumentar a área de exploração.

Anodyne 2: Return to Dust

Nova é uma personagem clássica em todos os níveis, pelo menos num primeiro contacto. Nesta aventura de ação e plataforma, a jovem não vem munida de um leque extenso de habilidades, contando apenas com um duplo salto e a possibilidade de se transformar num veículo, ideal para as deslocações no mapa extenso. O que a torna especial é a sua aptidão para remover pó e alterar o seu tamanho, iniciando vários modos de jogo, como um minijogo de ritmo, sempre que decide ajudar alguém. Apesar da sua base sólida e de mecânicas intuitivas, que criam assim uma experiência nostálgica – muito auxiliada pelos cenários surreais, de cores pasteis, e pela banda sonora melódica –, Anodyne 2 não vive da jogabilidade, mas sim dos seus temas fortes e como nos relacionamos com eles.

Esta ideia de vida e de morte cria os alicerces da aventura de Nova, desta personagem que vemos nascer no início da campanha e cujo crescimento acompanhamos ao longo de oito horas. Acompanhamo-la enquanto aprende a caminhar, a falar e a relacionar-se com os outros, quando descobre o outro lado da existência e se vê, pela primeira vez, sozinha num mundo que parece estar destinado a desaparecer – por mais que tente contrariar o seu destino. Temas como a hereditariedade, a ausência de figuras paternais e de uma família, de doenças crónicas, de estados mentais e da impossibilidade em comunicar com os outros criam lentamente uma campanha que vai além dos clichés do género e que nos agarra de surpresa, sem nunca mais nos largar.

É uma viagem emocionante que, talvez, não tenha a mesma ressonância para vocês. São ideias muito específicas, ainda que sinta que existe aqui uma vontade tremenda em comunicar connosco, os jogadores, e em compreender-nos nos nossos próprios problemas. Quase como se Anodyne 2 nos dissesse: eu estou aqui e eu percebo-te. São as fantasias e os medos da adolescência, de sentirmos que perdemos o nosso lugar num mundo que é muito maior do que nós e no qual poderemos ser insignificantes: a não ser para quem nos ama. São ideias fortes que Melos Han-Tani e Marina Kittaka conseguiram recriar sem nunca saírem do género de aventura e dos seus elementos mais mecânicos, como a aposta numa estrutura assente na recolha de colecionáveis (como cartas e moedas). É um quebrar e readaptar dos elementos-chave de um género que quase sempre se foca num herói, ou heroína, que tem de enfrentar todas as adversidades para salvar o mundo. Mas em Anodyne 2, o que haverá para salvar senão nós próprios e aqueles que amamos?

Anodyne 2: Return to Dust

Não é um jogo para todos. A jogabilidade é muito básica, os colecionáveis são simples de apanhar e quase servem um propósito utilitário, com o design dos níveis, fora da sua direção de arte, a não surpreender, ainda que exista sempre espaço para a exploração. É uma aventura surreal, mas é, acima de tudo, uma viagem emocional sobre o conceito de vida e de morte, tal como a hereditariedade de pais para filhos.

Seremos os pecados dos nossos pais? Existiremos por nós próprios? São questões que Melos Han-Tani e Marina Kittaka tiveram coragem de fazer, nem sempre com os melhores resultados, mas com um enorme carinho e um bom sentido de humor que vão além das barreiras do meio. Ao pó regressaremos. Vivamos até lá.

Nota: Bom

Disponível para: PC, Xbox One, Xbox Series X|S, PlayStation 4, PlayStation 5 e Nintendo Switch
Jogado na Xbox One S
Cópia para análise cedida pela Ratalaika Games.

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