Análise – Amnesia: Rebirth

Dez anos depois, a Frictional Games regressa à sua popular série com uma sequela que promete dividir os fãs.

Amnesia: Rebirth
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Há um antes e um depois de Amnesia: The Dark Descent. Depois de várias experiências na série Penumbra, onde tinha desenvolvido algumas das mecânicas que viriam a marcar este clássico moderno, a Frictional Games acertou em cheio quando nos levou até à mansão de Brennenburg e às suas influências Lovecraftianas de criaturas e visões monstruosas de outras dimensões. Com a sua aposta num terror mais psicológico e sem a possibilidade de contra-atacar os monstros que se atravessavam no nosso caminho, o título rapidamente se espalhou pela indústria e pelas redes sociais, transformando-se num verdadeiro fenómeno mundial.

Dez anos depois, a Frictional Games decidiu regressar às origens e dar aos fãs aquela que é a sequela que sempre aguardaram e longe da desilusão provocada por A Machine For Pigs, pela Chinese Room. No entanto, esta não é a mesma Frictional Games que nos trouxe The Dark Descent. Não é a mesma produtora focada no horror e nas emoções fortes. Algo mudou depois de Soma, o seu galardoado título de ficção científica, e essa transformação ressente-se em Amnesia: Rebirth e na estória emocional de Tasi no deserto da Argélia. A Frictional Games não nos quer assustar ou perturbar desta vez, mas sim mover-nos e levar-nos numa viagem pessoal por dimensões paralelas, realidades alternativas e a maternidade.

Com isto, não quero dizer que Amnesia: Rebirth não é assustador: antes pelo contrário. A Frictional Games continua a dominar o género e a saber-nos manipular através de cavernas escuras e de fortes abandonados, onde a qualquer momento algo pode saltar das sombras para nos atacar. O trabalho de tensão e de construção de mundo estão tão presentes como há nove anos atrás, mas há um refinamento diferente na abordagem à narrativa e ao desenvolvimento da personagem. Os sustos são mais ponderados e até espaçados, onde a Frictional Games parece deleitar-se com a tensão e o chiaroscuro cruel deste mundo perdido no tempo. As criaturas continuam a ser um dos destaques e não existiu um único encontro que não me colocou o coração a palpitar, tal era o medo que sentia, mas há uma subtileza mais pronunciada nesta sequela, onde o horror parece estar mais na construção da narrativa do que propriamente nos sustos fáceis e nos cenários macabros.

Amnesia: Rebirth

Nota-se, aliás, o amor que a Frictional Games sentiu por Tasi e pela sua demanda hercúlea. Há um carinho enorme por esta personagem perdida e sem memória que se vê sozinha e confusa sem saber o que fazer. Apesar de ter uma vaga ideia de acontecimentos passados e dos locais que reencontra ao longo da campanha, não se consegue recordar do que se passou e do porquê de ter regressado ao ponto de partida, novamente no avião caído no deserto. A sua estória pessoal com o marido, Salim, e a sua filha, Alys, em Paris, é tocante e é fascinante ver as peças a encaixarem-se à medida que vemos dimensões impossíveis e realidades que queremos acreditar não serem reais. No meio do seu medo, nasce uma enorme determinação em sobreviver e com a sua gravidez, que cresce misteriosamente de hora para hora. Cria-se a imagem de uma mãe capaz de tudo para proteger a sua filha, algo que a própria jogabilidade – ao dar-nos a possibilidade de acalmarmos a bebé na barriga (e, consequentemente, Tasi) – complementa perfeitamente ao longo da campanha.

No entanto, Amnesia: Rebirth é um jogo de altos e baixos. Se temos momentos de perseguição incríveis e muito tensos, por outro, temos uma exposição narrativa enjoativa que irá cansar até os mais resistentes. Tasi está constantemente a partilhar os seus pensamentos e as suas reações a tudo o que vê, algo que corta a tensão e a nossa própria ligação aos acontecimentos do jogo, não nos dando o tempo necessário para processarmos o que estamos a ver por nós próprios. A sua estória nunca sofre por causa disto e é difícil não criarmos uma enorme empatia com Tasi, mas senti que Soma é muito mais competente e equilibrado neste campo. O mesmo posso dizer da estrutura que é, por vezes, demasiado confusa e desnecessariamente desfragmentada para o seu próprio bem, complicando uma estória que é – e que devia ser sempre – mais simples e intrigante do que acaba por ser em alguns momentos. Felizmente, os momentos altos são muito altos e de uma força tremenda, talvez alguns dos melhores que a produtora já nos trouxe, mas é uma pena vermos a estória a cair em momentos tão simples como a interação entre personagens.

A nível mecânico, não encontramos grandes novidades – e ainda bem. Amnesia: Rebirth continua a ser um título de terror na primeira pessoa onde o combate é inexistente. É necessário navegar através de caves escuras e locais abandonados e gerir o número de fósforos e de gasolina que temos à nossa disposição para iluminarmos o caminho. Se não tivermos uma fonte de luz, Tasi começa a ficar assustada e ouvimos vozes e sons (sem corpo) que nos assombram a cada passo. Podemos pegar e atirar praticamente todos os objetos que encontramos nos cenários e há novamente um foco na resolução de puzzles, ainda que a maioria seja mais acessível e menos imaginativa do que vimos anteriormente. Resumindo, se vocês seguem o trabalho da Frictional Game, já sabem o que esperar da jogabilidade, do ritmo lento e da estrutura desta sequela; só não esperem uma evolução da fórmula.

Amnesia: Rebirth

Não existem dúvidas que Amnesia: Rebirth ganha com a utilização de um novo motor gráfico, com cenários mais definidos e expansivos, onde a variedade é um dos destaques. O salto entre realidades e dimensões paralelas é instantâneo e é impressionante ver como a arquitetura alienígena se funde com templos antigos e os desertos abandonados, juntamente com a estética e estilos da década de 30. A escuridão é impressionante, com sombras muito fortes e pronunciadas, e senti constantemente a necessidade de encontrar um foco de luz para conseguir ver para onde ia. Não é deslumbrante, mas Amnesia: Rebirth é muito coeso na sua direção de arte.

Mas é, no entanto, na banda sonora, que a Frictional Games me deixa uma vez mais boquiaberto. A utilização de surround para criar uma sensação de medo constante, os pequenos ruídos de ambiente que contrastam com a respiração de Tasi e nos deixam em alerta, ou até mesmo o som de passos e dos grunhidos das criaturas que cortam o silêncio tumular deste mundo abandonado, colocam-nos num estado de tensão perpétuo. Conseguimos definir até o mais pequeno som ou ruído da banda sonora, tal é o trabalho imaculado da produtora, e estamos constantemente embrenhados no seu ambiente opressivo. Tenho ainda de destacar o trabalho dos atores, apesar de Tasi me ter cansado, e da presença de mais composições musicais, como o tema que ouvimos quando entramos numa das salas seguras – uma das novidades de Rebirth.

Será esta a sequela que os fãs queriam? Arrisco-me a dizer que não. A Frictional Games não estava interessada em repetir a fórmula de The Dark Descent à risca e sinto que o seu foco estava muito mais centrado na estória e na viagem de Tasi do que propriamente nos sustos que tanto nos marcaram há dez anos atrás. Rebirth é mais Soma do que The Dark Descent, ainda que seja, infelizmente, inferior à estória subaquática do título de ficção científica (e um dos melhores desta geração), mas é um jogo tão criativo, tão seguro de si e determinado que é impossível ficar desapontado com o resultado final.

Não é consistente do princípio ao fim e existem ainda problemas no desempenho – com quedas de framerate na versão PS4 –, mas garanto-vos que vão encontrar momentos que ficarão para sempre com vocês. Neste Halloween, é uma das melhores e mais óbvias escolhas para a noite mais assustadora do ano.

Nota: Muito Bom

Plataformas: PC e PlayStation 4
Este jogo (versão PlayStation 4) foi cedido para análise pela Frictional Games.

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