Análise – Aggelos

por João Canelo

Com a chegada do verão, não há nada melhor que voltar atrás no tempo e redescobrir os clássicos do passado, transportando-nos para aquelas tardes quentes onde passávamos horas de frente à televisão com os nossos jogos favoritos. Felizmente, não precisamos de regressar às consolas antigas, pois Aggelos, lançamento recentemente na PS4, traz-nos uma aventura tão clássica como os jogos em que se inspira.

De facto, Aggelos não esconde as suas influências, pelo que irão rapidamente encontrar elementos retirados de títulos como The Legend of Zelda II: Link’s Adventures e Wonder Boy, dois clássicos absolutos da era dos 8 bits. A jogabilidade é uma verdadeira bomba nostálgica, dando-nos uma campanha em 2D repleta de níveis, armas, equipamentos e habilidades especiais para desvendar, com um foco interessante no desafio e na resolução de simples quebra-cabeças.

Aggelos é um RPG de ação, apresentando até um sistema de evolução por níveis, com ligeiros traços de metroidvania, no sentido em que nos dá um mundo para explorar, mas limita a nossa progressão pela recolha de itens e poderes específicos. Isto significa que o mundo de Aggelos está repleto de caminhos alternativos, de segredos e de becos sem saída, elementos clássicos para um jogo desta natureza. Se jogaram, por exemplo, Wonder Boy in Monster World, lançado na Mega Drive, vão descobrir as semelhanças tanto na jogabilidade como na própria estrutura da campanha, até na forma como somos encaminhados pela história.

As parecenças são ainda mais fortes e claras no estilo visual, com Aggelos a adotar um grafismo semelhante aos dos jogos da Master System. Apesar das animações serem muito mais detalhadas, ainda que próximas dos títulos em que se inspiram, as cores, o design simples e direto dos níveis e até a banda sonora jorram o charme caraterístico da consola da SEGA. Aliás, os modelos das personagens e dos monstros, onde se incluem os bosses gigantescos, parecem ter sido retirados de uma sequela nunca lançada de Wonder Boy, algo que, pessoalmente, adorei.

Como seria de esperar, a jogabilidade é muito sólida e responsiva, mantendo o seu classicismo até no mapeamento dos controlos, permitindo a utilização rápida de poderes e ataques rápidos. No entanto, as combinações podem ser igualmente confusas em combate, necessitando de uma ligeira ginástica mental que pode ser pouco intuitiva. Mas no que toca aos saltos, ao combate em si e à variedade de habilidades, Aggelos é reconfortante e um verdadeiro regresso à era dos 8 bits.

Apesar dos meus elogios, Aggelos peca em duas áreas. A primeira é a composição das cores e a leitura dos cenários, com o estilo visual a dificultar o reconhecimento rápido de plataformas. É fácil perder a noção das partes interativas dos níveis quando as cores são tão esbatidas e pouco marcantes como em Aggelos, deixando-nos muitas vezes na dúvida se uma possível plataforma faz, ou não, parte do cenário. Muitas vezes, vi-me a ficar preso numa zona por não conseguir discernir uma plataforma do fundo do nível, com a falta de profundidade a agravar a leitura dos cenários.

A segunda é a aposta desmesurada na dificuldade, não através de um posicionamento inteligente dos inimigos ou da presença de trechos de plataformas que exigem a nossa destreza, mas sim pela falta de cuidado na inserção de pontos de gravação nas masmorras. É comum encontrarmos um boss sem passarmos por um ponto de gravação e cair numa situação sobre a qual não estamos minimamente preparados.

Apesar de não existirem vidas ou tentativas limitadas, com o jogo a castigar-nos apenas pela perda de pontos de experiência, é frustrante ter de voltar níveis inteiros atrás para gravar. Poderá ser um problema pessoal, mas esta escolha não pode apenas refletir o classicismo do género, mas sim criar uma maior satisfação e sensação de controlo nos jogadores.

Mas não existem dúvidas que Aggelos é uma homenagem clara aos clássicos da Nintendo e da SEGA, conseguindo captar a sua alma através de uma jogabilidade cuidada e de um estilo visual pouco replicado nos dias que correm. Pode não ser perfeito, mas é altamente recomendável para todos os fãs de títulos de ação e aventura.

Este jogo (versão PS4) foi cedido para análise pela PQube Games.

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