O Sundance Institute | Sandbox Fund distinguiu pela primeira vez uma produtora portuguesa com um apoio internacional.
A produtora portuguesa Alecrim Vagabundo foi uma das 16 equipas selecionadas pelo Sundance Institute | Sandbox Fund, um programa internacional que apoia documentários de cariz científico e cultural. Trata-se da primeira vez que uma produtora portuguesa é distinguida por este fundo, criado em 2017 pelo Sundance Institute, fundado por Robert Redford, em parceria com a Sandbox Films.
O galardão foi atribuído ao documentário The Mammoths that Escaped the Kingdom of Erlik Khan, realizado por Tamara Kotevska, cineasta nomeada ao Óscar em 2019 por Honeyland. A estreia está prevista para 2027. Produzido pela Alecrim Vagabundo, o filme foi rodado nas zonas mais remotas da tundra de Yakut, na Sibéria, e explora o quotidiano e os dilemas de Vladik, um jovem pastor de renas da etnia dolgan, dividido entre as tradições ancestrais e a atração por caçadores modernos de presas de mamute.
A obra acompanha o confronto entre o legado espiritual de uma comunidade nómada e a pressão económica criada pela comercialização de ossos e presas congeladas, considerados restos amaldiçoados pelos mais velhos. O pai do protagonista, Roma, simboliza essa resistência à mudança, alertando para as consequências espirituais e ecológicas da exploração do subsolo gelado. A narrativa apresenta a tensão entre herança cultural, sobrevivência e a intervenção humana num dos ecossistemas mais sensíveis do planeta.
Tamara Kotevska descreveu a colaboração com o produtor Enrico Saraiva, fundador da Alecrim Vagabundo, como o prolongamento natural de uma parceria criativa já consolidada. “Quando o Enrico me apresentou o projeto, percebi que era algo inevitável”, afirmou a realizadora. Segundo Kotevska, esta é a segunda longa-metragem que desenvolvem em conjunto, depois de The Tale of Silyan, lançada pela National Geographic.
O Sundance Institute | Sandbox Fund apoia filmes em vários estágios de criação, desde o desenvolvimento até à pós-produção, com o objetivo de incentivar novas formas de contar histórias que articulem ciência e cultura. De acordo com a organização, os 16 projetos escolhidos nesta edição envolvem 47 cineastas de 11 países, entre eles Portugal, Dinamarca, Guatemala, Islândia, Índia, Cazaquistão, Quénia, Macedónia do Norte, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos.
As candidaturas de 2026 registaram um aumento significativo de propostas internacionais, representando 56% das submissões. Metade dos documentários apoiados são assinados por realizadores na sua primeira ou segunda longa-metragem, e cinco deles correspondem a estreias no formato.
Os temas abordados pelos projetos incluem a memória e a identidade, as respostas de cientistas e comunidades indígenas às alterações ambientais e o impacto da tecnologia nos limites biológicos e ecológicos da humanidade.
A diretora executiva da Sandbox Films, Jessica Harrop, sublinhou o papel do fundo na promoção de novas vozes na área da não-ficção científica. “Os cineastas apoiados por este programa trabalham na interseção entre arte e ciência. As suas perspetivas ampliam a compreensão do mundo e mostram que há um público disposto a ouvir estas histórias”, afirmou.
