Apetece-te rir, pensar e lacrimejar? Então “After Life” é para ti

por Natália Correlo

After Life é uma série escrita e realizada por Ricky Gervais, que por acaso (decerto que foi mera casualidade) também desempenha o protagonista da história: Tony, um homem viúvo que atua de forma desnecessariamente desagradável com o intuito de se desresponsabilizar da sua infelicidade. Contudo, ele encontra a sua redenção e mostra-nos que ser uma pessoa decente não é assim tão má ideia. A sério, ser boa pessoa acaba por valer a pena.

De facto, a série da Netflix tem tudo para agarrar o espetador. O humor é orgânico e, por vezes, inesperado, dado o seu aparecimento em momentos dramáticos, o que lhe dá um toque de realidade, pois não há nada mais irrisório do que a vida humana. Além disto, passa-se numa pequena vila pitoresca com personagens tão inusitadas quanto as que encontramos na vida real, e os artistas que lhes dão vida são de tal forma despretensiosos no modo como as interpretam que não existe qualquer vaidade nas suas interpretações. O que sobressai é apenas uma vontade honesta em enaltecer o quotidiano mundano.

A narrativa não é propriamente original, mas parte de um tom e de uma visão tão pessoal e sincera que é difícil não nos sentirmos comovidos com as suas reflexões. After Life é a prova de que não precisamos de ser originais para conquistar o público, basta que sejamos sinceros e tenhamos um ponto de vista que, embora íntimo, seja universal o suficiente para atrair o espetador.

After Life

A única coisa que podia ter sido executada doutra maneira foi a transmissão da grande mensagem que acompanha a narrativa. De certo modo, foi demasiado moralista. Teria sido mais interessante e mais verdadeira se os episódios finais nos mostrassem o que significa ser uma boa pessoa em vez de nos quererem forçar a assimilar as ideias que o Ricky Gervais tem acerca do assunto. A linha entre identificarmo-nos com a mensagem do artista e levarmos um “sermão” é ténue e, quando os escritores não têm cuidado, é isso que acaba por acontecer. E ainda que a maioria da literatura russa seja assim, quando estamos a ver uma série na Netflix é porque se calhar não nos apetece ler Tolstoy.

Outro pormenor que só é relevante para pessoas perturbadas foi um plano que Ricky Gervais decidiu fazer de uma mulher a calçar os sapatos. Uma imagem que poderá levar o espetador mais peculiar a indagar-se: “Ricky, mas que raio é que estás a tentar fazer? Isto é uma série na Netflix ou um filme “artístico” feito por um miúdo que considera ter uma visão muito sensível do mundo e terminou o curso de cinema há duas semanas?”.

Pequenas falhas à parte, After Life é uma reflexão humorística e bem construída sobre o quão fácil é ser-se uma pessoa indecente e o quão gratificante é ser-se uma boa pessoa. No fundo, a série só quer mostrar que as pessoas aprendem a ser felizes e porque nunca é de mais enfatizar esta noção. Volto a dizê-lo, ser boa pessoa compensa mais do que ser um filho da mãe.

After Life está disponível na Netflix.

Nota: 

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