Tem travo a sal sem levar sal: O mistério do moscatel Torna Viagem em alto-mar

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Entre temperaturas de 44º e travo a sal, conheçam os detalhes científicos e as diferenças de prova das edições de 2017 e 2023 do Torna Viagem.

A tradição centenária do vinho Torna Viagem voltou a ser colocada à prova no mar através da parceria entre a casa José Maria da Fonseca e o Navio-Escola Sagres. A génese desta tradição assenta nas exportações originais levadas a cabo por José Maria da Fonseca durante o século XIX, quando a empresa confiava cascos de moscatel aos comandantes de embarcações mercantes que rumavam ao Brasil e ao continente africano. Nesses períodos, cabia ao importador local receber o produto ou ao próprio comandante tentar negociar a carga nos portos de escala. Em diversas circunstâncias em que as vendas não se concretizavam, os cascos faziam o percurso inverso e regressavam a Azeitão. Ao provar esse vinho devolvido, a casa verificou uma transformação profunda no perfil organolético face ao vinho que não tinha saído de terra, o que levou a casa a solicitar de forma propositada o transporte de cascos de ida e volta por via marítima.

A confirmação documental desta rotina comercial foi atestada por investigações de arquivo desenvolvidas na Torre do Tombo sobre a região, comprovando o envio e retorno sistemático de lotes de vinho de torna-viagem. Ao longo do século XX, a José Maria da Fonseca comercializou os vinhos resultantes do século XIX em lotes numerados e não com indicação de ano de colheita, prática que se prolongou até cerca de 1983, ano em que as reservas atingiram níveis residuais e a comercialização regular foi suspensa. O retomar do projeto ocorreu no ano 2000, quando, durante um almoço, surgiu a proposta de associar o moscatel à viagem comemorativa dos 500 anos da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral a bordo da Sagres, inaugurando assim a primeira experiência marítima do género no século XXI. Desde o ano 2000 realizaram-se várias vezes, acumulando um volume superior a 20.000 litros de vinho de torna-viagem sob estágio na adega.

Entre as experiências documentadas destaca-se o teste empírico levado a cabo com seis cascos distribuídos estrategicamente na estrutura da Sagres: dois a estibordo, dois a bombordo, um na proa e outro na popa. A experiência visava averiguar se a oscilação, o balanço e a localização dentro da própria embarcação provocavam diferenças no vinho, tendo-se concluído que o produto sofre os impactos do meio ambiente marítimo de forma uniforme, sem disparidades perceptíveis entre secções do navio. Ao longo das várias navegações foram submetidos a estágio vinhos com diferentes perfis, desde moscatéis jovens até lotes de colheita de bastardinho com trinta anos.

Registou-se igualmente o envio secreto de um casco com a colheita de 1911, cuja idade apenas era do conhecimento de duas pessoas: o comandante do navio e o presidente da comissão vitivinícola da Península de Setúbal. Todos os cascos viajam com selagem rigorosa tanto à partida como à chegada, de forma a garantir a inviolabilidade do conteúdo, tendo essa remessa histórica de 1911 sido formalmente comunicada ao restante corpo diretivo da adega apenas quando a Sagres já navegava além dos rios, sem possibilidade de retorno, resultando numa evolução que superou todas as expetativas de prova.

Outra travessia de grande envergadura consistiu na quase circunavegação de 2010, na qual o Navio-Escola Sagres cruzou o Equador por cerca de seis ocasiões e entrou no Mediterrâneo sem contornar a ponta do continente africano. Mais tarde, planeou-se a repetição de uma circunavegação completa com recurso a um casco proveniente dessa viagem anterior, com o objetivo de o fazer percorrer todos os continentes e avaliar o limite do envelhecimento acelerado. Esse plano coincidiu com o início da pandemia da COVID-19, período em que a Navio-Escola Sagres atingiu a Argentina e foi forçada a cancelar a rota, regressando diretamente após ter sido equacionada uma escala técnica na África do Sul para reabastecimento logístico.

Já este ano, o Moscatel de Setúbal voltou a ser enviado numa viagem marítima a bordo do Navio-Escola Sagres, retomando então a iniciativa Torna Viagem. Nessa nona edição, seguiam a bordo duas barricas de Moscatel de Setúbal 2023, num total de 825 litros – uma com 600 litros e outra com 225 litros, bem como barricas de 2017.

A análise das amostras de 2017 e de 2023 que provámos esta semana num evento promovido pela José Maria da Fonseca revelou discrepâncias visuais e cromáticas evidentes na sala de provas. Ao contrário do padrão habitual, em que a concentração induzida pelo calor e pela agitação do mar torna o vinho mais escuro face à testemunha que repousou em terra, no caso de 2017 o vinho que viajou apresentou-se ligeiramente mais claro e com alguma turvação face ao lote que ficou na adega. Esta anomalia foi atribuída ao ano de colheita ou a uma instabilidade na fracção coloidal e proteica do vinho, cuja matéria corante terá precipitado durante a navegação sem assentar na totalidade no casco.

No que toca à colheita de 2023 do Torna Viagem, ano do bicentenário da José Maria da Fonseca, foram criadas duas abordagens enológicas distintas em cooperação com o enólogo Paulo Hortas. Paulo Hortas desenvolveu um lote com reduzido contacto com a película, enquanto a segunda abordagem privilegiou a interrupção da fermentação com aguardente logo aos 80 gramas de açúcar e 18 graus de álcool, assegurando uma acentuada carga aromática e frescura de boca.

No lote comemorativo final da empresa, a proporção fixou-se em 70% do vinho de maior expressão aromática e 30% do lote de menor maceração pelicular. No entanto, para a missão marítima do Navio-Escola Sagres foi enviado em exclusivo o vinho produzido com menor extração pelicular, mantendo-se a outra fração a estagiar na adega em Azeitão. Este envelhecimento em terra decorre num edifício dotado de telhas transparentes concebidas para potenciar o aquecimento solar dos cascos, criando um contraste térmico direto entre recipientes expostos ao sol e recipientes mantidos à sombra, explicando a tonalidade bastante mais pálida da amostra de 2023 que navegou. Já o lote de 2017 apresenta parâmetros de açúcar residual em redor dos 180 gramas por litro, reflexo de uma concentração contínua provocada pela evaporação mista de álcool e água em ambiente seco e quente.

A missão operacional do Navio-Escola Sagres que assegurou o transporte deste último lote decorreu de finais de abril a setembro, tendo largado da Base Naval de Lisboa, no Alfeite, em rota direta para Nova Iorque, onde atracou na derradeira semana de maio. A escala seguinte rumou às Bermudas para assinalar o Dia de Portugal junto de uma população em que cerca de um quarto é de origem portuguesa, sendo 99% proveniente dos Açores, incluindo a participação da guarnição nas festas do Espírito Santo em St. George’s.

De volta à costa norte-americana, a Sagres integrou o encontro internacional de grandes veleiros Sail 250, comemorativo dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, escalando os portos de Norfolk, Baltimore, Nova Iorque durante os festejos do 4 de Julho, Boston e a antiga cidade baleeira de New Bedford, principal núcleo comunitário português na região leste. No regresso através do Atlântico, o navio fundeou na Praia da Vitória e em Ponta Delgada, associando-se às celebrações de Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura através de récitas da peça de teatro Os Sonhos do Infante no poço do navio e de debates do Festival Utopia na ponte. Antes do retorno definitivo a Lisboa para o desembarque das pipas, a embarcação cumpriu ainda uma viagem de adaptação ao mar com os candidatos à Escola Naval até ao arquipélago da Madeira, sem registo de desistências entre os instruendos.

A ação do navio insere-se nos seus três pilares fundamentais de atuação: a instrução prática de marinharia dos cadetes da Escola Naval, o apoio à diplomacia externa e a cooperação económica e cultural com a diáspora. Durante as travessias, os tripulantes realizavam os seus quartos de serviço junto às pipas instaladas a bombordo e a estibordo na ponte. As operações rotineiras de baldeação e lavagem do convés com água salgada molhavam frequentemente os cascos, recorrendo-se também a cobertores húmidos sobrepostos à madeira para forçar a sua dilatação e estancar eventuais fugas de vinho. Embora as análises laboratoriais executadas desde o ano 2000 nunca tenham detetado a presença química de cloreto de sódio no líquido, a prova sensorial evidencia de forma reiterada um final de boca marcado por um travo salino, além de um álcool menos agressivo, uma acentuada sedosidade de textura e uma persistência consideravelmente prolongada.

Em termos de envelhecimento, o registo empírico demonstra que uma travessia simples com passagem do Equador acelera a evolução do moscatel em cerca de 15 anos, enquanto uma circunavegação atinge um impacto próximo de 30 anos. A nível visual, moscatéis com mais de 30 anos desenvolvem uma auréola verde característica, a qual dá lugar a reflexos dourados a partir dos 60 ou 70 anos, desenhando uma sequência que transita do amarelo ao verde e ao dourado. Os dados recolhidos por sensores instalados no interior dos cascos registaram amplitudes térmicas extremas ao longo das rotas, desde os 44º nas imediações do Equador até aos -5º na aproximação ao Estreito de Magalhães, condições a que se somam variações permanentes de humidade e agitação contínua provocada pela vaga marítima.

A preservação da matriz varietal impõe que todo o estágio do Torna Viagem seja cumprido exclusivamente em cascos usados de 225 ou 500 litros, ou em tonéis de grande capacidade, com a garantia de que a madeira perdeu por completo o aroma a carvalho novo, impedindo a sobreposição das notas da madeira às propriedades do moscatel. Paralelamente, foram desmistificadas eventuais apropriações históricas exclusivas por parte dos produtores de vinho da Madeira, lembrando-se que os povos nórdicos e noruegueses transportavam linie aquavit em navios de carga através do mar para provocar a sua maturação em casco.

Perante a recusa no passado por parte de entidades de biotecnologia do Porto em avançar com análises científicas aprofundadas sem orçamentos desmedidos, permanece em aberto a necessidade de investigações académicas e doutoramentos em enologia dedicados a mapear os mecanismos moleculares responsáveis pelo impacto singular que o oceano imprime a estes vinhos, cujo destino final e comercialização caberá à sétima geração de gestores da casa decidir.

Alexandre Lopes
Alexandre Lopes
Licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria, sou um dos fundadores do Echo Boomer. Aficcionado por novas tecnologias, amante de boa gastronomia - e de viagens inesquecíveis! - e apaixonado pelo mundo da música.
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